1. Introdução.

Na narrativa do livro do Gênesis, 3, 5, a serpente, para induzir os primeiros pais ao pecado, promete a eles que, se eles desobedecerem aos limites impostos por Deus, “serão como deuses”. Ora, esta tentação de ser divino, de esquecer-se da sua própria posição no mundo criatural, acompanha a humanidade desde então. Duas grandes tendências precisam ser combatidas: a de imaginar que nós somos “deuses” presos em corpos materiais, desprezando a realidade criatural como má, e a ideia de que, no fundo, somos anjos, e a nossa alma é um ente por direito próprio. Neste caso, a relação com o corpo seria algo do campo do puro acidente, como vestir uma roupa, e a morte seria uma verdadeira libertação, não uma tragédia. Estas duas visões (de que somos deuses e de que somos anjos) serão objeto deste artigo: veremos o que somos, e onde estamos no mundo das criaturas, com relação a Deus. Vamos ao artigo.

2. A hipótese controvertida inicial.

Mas qual seria a relação entre o debate aqui estabelecido e a ideia de que os seres humanos são criaturas especiais, portanto não são deuses nem anjos “vestidos de matéria”? O debate vai nos introduzir lentamente neste assunto, a partir da hipótese controvertida inicial, que nos propõe que a alma humana não teria várias capacidades, ou várias potências, mas apenas uma, um poder central e unificado pelo qual as diversas operações da alma seriam exercidos. Há três argumentos objetores iniciais no sentido desta hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que a alma espiritual intelectiva dos seres humanos é a estrutura formal dos seres vivos que mais tem semelhança com o próprio Deus. Mas em Deus não há distinção entre as capacidades e poderes; há apenas um só poder divino, do qual flui todas as operações e atividades. Assim, conclui o argumento, também a alma humana deve ter apenas um poder, uma grande capacidade de operar da qual fluem todas as suas operações.

O segundo argumento.

Quão mais elevado é um poder, diz o argumento, tão mais unificado ele é. De fato, por exemplo, a visão consegue captar apenas as cores, como a audição capta os sons, mas o sentido comum interno consegue unificar estas duas operações para compor uma imagem daquilo que impressionou os sentidos. Assim, como a alma humana é a estrutura formal mais poderosa da criação, ela também deve ter suas capacidades unificadas em um só poder operativo, conclui o argumento.

O terceiro argumento.

Somente aquilo que existe, e que existe com algum grau de completude e perfeição, é capaz de operar, de agir. Ora, a alma é justamente a estrutura que faz o ente existir como ser humano, ou seja, tanto o existir como a perfeição no ser são decorrentes da alma, como já foi visto no artigo terceiro da questão 76.

Ora, se é pela alma que o ser humano existe e é humano, é pela lama, pela sua potência ativa única e indivisível, que ele age (de todas as maneiras e em todos os graus), conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra, como habitualmente, cita alguma autoridade na linha contrária aos argumentos objetores iniciais, de tal modo que sua posição não pode ser desconsiderada no debate. Neste debate, o argumento sed contra vai buscar a posição do “Filósofo”, isto é, de Aristóteles, que defende que a alma humana tem várias e diversificadas capacidades, vérios e diversificados poderes em si. Portanto, o argumento conclui que não há razoabilidade em defender que o poder da alma é uno e indiviso.

5. A resposta sintetizadora de Tomás.

A alma tem várias potências ou capacidades, que decorrem de sua essência mas são distintas dela, como vimos no longo artigo anterior. Não se trata de apenas uma capacidade que se manifesta de diversas maneiras, mas de várias capacidades e potências diversas entre si. E isto está em total consonância com a hierarquia do ser, que podemos observar desde a criatura mais ínfima até o próprio Criador. Esta hierarquia do ser representa um dos motivos para haver criação, que é exatamente refletir a riqueza das perfeições divinas, por analogia, na diversidade maravilhosa de graus de existência. Desde as coisas inanimadas, como a pedra, que refletem a riqueza de simplesmente ser, quanto a vida puramente espiritual dos anjos, que refletem a capacidade reflexiva e existencial da inteligência, passando pelos graus da vida material e suas respectivas perfeições. Tudo isto reflete, em sua diversidade, a bondade infinita de Deus que atrai tudo para si.

6. Encerrando.

É muito importante reafirmar esta pluralidade de poderes e capacidades da alma, porque nem todos estes poderes e capacidades desenvolvem-se do mesmo modo em cada um de nós, e nem todos são igualmente importantes, no caminho do atingimento da perfeição que é o encontro com Deus. Se todas as capacidades e potências da alma fossem apenas a manifestação múltipla de um mesmo poder ou capacidade, a salvação também seguiria sempre um caminho rígido e igual para todos, o que, como sabemos, não é verdade.

Mas isto ficaria muito longo; assim, continuaremos no próximo texto.