1. Retomando.

Que acham vocês? Se a Suma fosse, de fato, uma Catedral, onde estaríamos nós, agora? Estamos na sala de humanidade, estudando a antropologia filosófica do ser humano, em total sintonia com a antropologia teológica. Estamos numa espécie de “sala de raios-X”, na qual se manifesta a verdade registrada na Constituição Gaudium et Spes, 22, que diz: “Na realidade, o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente. Adão, o primeiro homem, era efetivamente figura do futuro (20), isto é, de Cristo Senhor. Cristo, novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime. Não é por isso de admirar que as verdades acima ditas tenham nele a sua fonte e nele atinjam a plenitude.

Em resumo, estamos olhando o crucifixo central da nossa Catedral, do qual pende Jesus crucificado. Em nenhum outro lugar ele se revela tão humano, e nenhum outro lugar ele nos revela tão completamente. Contemplar Jesus é contemplar ao que devemos ser. Conhecer Jesus é conhecer o ser humano, ver Jesus é descobrir o que deveríamos ser – e, pela graça, seremos, se alcançarmos a santidade. Por isto é que a Gaudium et Spes nos declara, paradoxalmente, que Jesus, ao revelar deus aos homens, revela também o homem a si mesmo. (entenda-se “o homem”, aí, no sentido neutro de ser humano, não no sentido machista).

Neste artigo estamos vendo a distinção entre o que a alma humana é, como ela existe, por um lado, e a sua operação, por outro. Ela é e existe por dom de Deus, e este é seu ato primeiro. Mas ela opera porque existe, e este é seu ato segundo. Assim, somos colaboradores de Deus no caminho da nossa própria perfeição.

Neste texto examinaremos a resposta de Tomás às objeções de números 3 e 4 deste artigo. Vamos a elas.

2. Os argumentos objetores iniciais.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor discute a partir da diferença entre a forma substancial e as formas acidentais. A forma substancial, como sabemos, é aquilo que faz que um ente seja aquilo que ele é; a forma substancial do ser humano é, portanto, a alma espiritual. As formas substanciais nos fazem todos iguais, como seres humanos.

Por outro lado, as formas acidentais são aquelas responsáveis pelas nossas diferenças, porque nos individualizam sem alterar o que somos. A nossa cor, o nosso tamanho, a nossa pertença a uma raça ou etnia, a nossa posição geográfica ou social, tudo isto são formas acidentais que nos tornam circunstancialmente diferentes uns dos outros, sem que, com isto, sejamos substancialmente diferentes. As formas acidentais nos pluralizam sem nos desigualar, porque não são elas que nos dão o próprio ser como humanos. As formas acidentais, como a cor, o tamanho, a posição, as relações, são, portanto, diferentes do nosso ser substancial. Trata-se, pois, de uma estrutura maravilhosa, que fundamenta uma vida de fraternidade na diversidade, pela igualdade naquilo que é essencial, com a simultânea aceitação da diversidade naquilo que é acidental. Um ensinamento que tem muito a nos enriquecer, principalmente hoje em dia.

Feito este preâmbulo, que nos demonstra quão atual é este debate (cuja linguagem às vezes não nos deixa perceber sua relevância), passemos ao argumento objetor propriamente dito.

Uma forma acidental pode alterar-se, diz o argumento. Por exemplo, o tamanho de alguém pode mudar, se ele vier a engordar. A cor de alguém pode mudar, se ele vier a passar por algum problema de pele. Mas a forma substancial da pessoa humana, que é sua alma espiritual, é insuscetível de divisão ou aumento, como vimos na questão 76. Assim, a alma humana é mais simples (e portanto mais perfeita) que as formas acidentais do ser humano.

E neste ponto vem o centro do argumento: ora, se a forma substancial é mais perfeita por ser mais simples, ela deve ter uma estrutura menos divisível, ou seja, ela não deve ter partes, porque tudo aquilo que tem partes é capaz de ser dividido ou aumentado.

Ora, as formas acidentais, como a cor ou o tamanho, não têm distinção entre seu ser e sua operação; a sua operação, isto é, o seu poder de agir, é o seu ser mesmo. Não existe, por exemplo, uma cor que primeiro exista e depois seja capaz de colorir: é na sua capacidade de colorir que uma cor encontra o seu ser mesmo.

Ora, uma estrutura em que o ser e o agir são idênticos é indiscutivelmente mais simples do que uma estrutura em que o ser seja diverso do agir e preexista a ele. Portanto, se o ser e o agir são idênticos nas formas acidentais, eles não podem deixar de ser idênticos também nas formas substanciais, conclui o argumento. Logo, na alma humana, o ser e o agir são idênticos, diz o argumento, e o ser humano, no fundo, resume-se àquilo que faz de si mesmo.

A resposta de Tomás.

A resposta de Tomás é uma declaração de fé na unidade substancial do ser humano e um verdadeiro tiro em qualquer tipo de dualismo corpo-alma.

É preciso lembrar, diz Tomás, que a alma humana não é um ente; a rigor, o ente é o ser humano, composto de corpo e alma. É o ser humano, em sua unidade existencial, que existe e que age.

Ora, o que faz que este corpo, esta realidade material que age, seja um ser humano, e não, digamos, um robô ou um macaco, é a sua forma substancial, isto é, a alma. Ela nos dá a estrutura humana, pela qual somos o que somos.

Do fato de que somos o que somos, do fato de que somos seres humanos vivos, é que decorre o nosso agir. Portanto, a capacidade de agir, que a nossa alma espiritual nos dá, é algo que decorre do fato de que somos humanos e existimos. E neste ponto Tomás faz uma comparação importante: uma vela acesa aquece o ar. Mas este calor é um acidente decorrente do fato de que ali há uma vela, um ser substancial capaz de consumir-se pelo fogo, gerando luz e calor. Algo análogo ocorre conosco. O nosso agir decorre do fato de que estamos aqui, somos substancialmente humanos; o nosso agir está para o nosso ser como o calor e a luz estão para a vela que se acende.

Do mesmo modo, portanto, que a luz e o calor dependem da prévia existência de um ente, e de um ente que seja capaz de inflamar-se estavelmente (como a vela), também o nosso agir depende da prévia existência de um ser, como os acidentes de ser branco, pequeno, gordo ou indígena dependem da existência (logicamente anterior) de um ser humano. As consequências destes ensinamentos de Tomás para a dignidade dos seres humanos, e para o respeito à pluralidade, são, portanto, enormes.

O quarto argumento objetor.

O quarto argumento objetor parte da análise da própria estrutura da alma humana. Os seres humanos têm a capacidade sensorial, ou seja, o poder de interagir com o mundo por meio dos sentidos. Esta capacidade decorre de que somos animais, isto é, somos entes dotados de alma. Além disso, temos também a capacidade intelectual, isto é, a capacidade de chegar ao conhecimento intelectual, abstrato e universal sobre a realidade. Ora, também esta capacidade decorre da alma, pelo fato de que ela é espiritual. Portanto, se a alma é aquilo que nos dá estas capacidades, ela não é nada senão as próprias capacidades que temos. Deste jeito, o argumento conclui que a alma é aquilo que ela faz, e portanto sua essência é igual à sua potência.

A resposta de Tomás.

Mais uma vez Tomás vai lembrar a própria noção de forma acidental e forma essencial, que, no fundo, é a diferença entre aquilo que nos faz existir como o que somos (a forma substancial humana) e ter as peculiaridades que temos, inclusive quanto ao nosso agir (as formas acidentais). Aquilo que somos, ou seja, a nossa existência humana, é o que nos permite ter as características que temos e agir como agimos. Nossos acidentes não são externos ao que somos, não são como camadas independentes que se sobrepõem a uma substância completa em si mesma. É porque somos que agimos, e neste sentido a nossa estrutura substancial, que é a alma espiritual, é princípio remoto das caraterísticas acidentais do nosso ser. É porque somos que temos cor, peso, altura, sentidos, inteligência, e não o contrário. Mas é preciso lembrar que esta distinção é apenas lógica, e não cronológica: não há ser humano que não esteja especificado por seus acidentes, desde a concepção mesma. Por isto, podemos distinguir entre a substância e os acidentes, em nós, mas jamais podemos separá-los, porque somos uma coisa só com eles. Mas a distinção existe, e as nossas capacidades são distintas de nossa substância. Um embrião recém-concebido, embora dotado de pouquíssimas capacidades, é tão substancialmente humano quanto o mais rico e sagaz dos milionários.

3. Encerrando.

No próximo texto veremos os últimos argumentos objetores deste longo artigo.