1. Retomando.

|Colocados, no texto anterior, os fundamentos de sua posição, Tomás nos ensinou que a nossa natureza intelectiva pressupõe a sensibilidade para o processo de aprendizagem, e o nosso processo de aprendizagem pressupõe a alta capacidade de adaptação do nosso corpo. Agora veremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

2. As respostas aos argumentos iniciais.

1. O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento afirma que a relação entre a matéria e cada tipo de forma deve ser devidamente proporcionada. Uma forma muito simples relaciona-se com matéria inorgânica, num ente de baixíssima complexidade estrutural. Mas uma forma inteligente, indestrutível e capaz de operações imateriais como a alma espiritual humana não deveria relacionar-se com um corpo mortal, destrutível. Assim, o argumento conclui que não há uma relação de necessidade entre o corpo humano e a nossa alma.

A resposta de Tomás.

Alguém poderia tentar responder a este argumento dizendo simplesmente que, antes da queda dos primeiros país pelo pecado original, no Paraíso, os seres humanos tinham um corpo incorruptível, e portanto seríamos naturalmente imortais. Mas esta não seria uma resposta adequada, diz Tomás. No paraíso, antes do pecado, nossos primeiros pais viviam num estado de pureza original, e a morte não os atingia por causa da graça de Deus, não por sua própria natureza. Ora, o pecado original privou nossos primeiros pais da graça, mas não os privou da sua própria natureza. E a prova disto é que os anjos que pecaram eram imortais por natureza, e continuaram imortais depois do seu pecado, mesmo tendo perdido a graça original. Portanto, se nossos primeiros pais fossem igualmente imortais por natureza, e não por graça, a perda da graça decorrente do primeiro pecado não os teria privado da imortalidade, como não privou os demônios. Mas, como a imortalidade original era dom da graça, o pecado original os privou dela.

Assim, a corruptibilidade dos corpos humanos decorre de duas circunstâncias relacionadas com a própria natureza da matéria:

1. A matéria que compõe um corpo deve ser adequada às capacidades e necessidades daquele corpo. O exemplo que Tomás nos dá, aqui, é a de um ferreiro construindo um serrote: ele deve escolher um metal bem duro para confeccioná-lo, caso contrário ele não estará apto a serrar a madeira e se destruirá no primeiro uso. Ora, a matéria do corpo humano deve ser adequada à ampla sensibilidade que este corpo precisa ter, à sua adequação a diversos meios e objetos, e não pode, portanto, ser qualquer matéria, mas uma matéria que apresente capacidade de organizar-se para estes fins.

2. Os limites da própria matéria, que são anteriores e independentes à própria existência do ser vivo que ela compõe. Assim, ainda usando o exemplo do serrote, Tomás diz que o ferreiro sabe que, embora o metal seja o material mais adequado para confeccioná-lo, o metal apresenta a característica de ser oxidável, e portanto o serrote estará sujeito à ferrugem após algum tempo, por limite do próprio material que o compõe. Ora, a delicadeza do material que deve compor o nosso corpo leva-o a ser muito corruptível, o que determina que sejamos, por força do próprio limite da matéria que nos compõe, seres frágeis e mortais.

Mas é certo que alguém poderia afirmar: mas por que Deus fez perecível a matéria que ele sabia que ia usar para os corpos humanos? Deus não fez algum tipo de “matéria extraordinária” para os corpos humanos. Somos feitos do mesmo pó que o resto da criação. E ele, de fato, nos fez imortais, inclusive corporalmente; mas a nossa imortalidade, como participação na vida eterna, não é algo predeterminado pela natureza, mas concedido pela graça, quer dizer, envolve a gratuidade da relação com Deus que pode ser rejeitada pelo ser humano. Esta é a perfeição do trabalho de Deus em nós: a graça nos completa, se nós não a rejeitarmos.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento quer provar que a nossa alma, por ser espiritual em sua atividade intelectual, e portanto operar imaterialmente neste campo, deveria estruturar um corpo muito mais sutil, muito mais leve e perfeito do que o nosso corpo carnal e tão terreno. A dignidade da alma espiritual, diz o argumento, levaria a esperar que tivéssemos corpos como a chama do fogo, leves e penetrantes; logo, nossos corpos não têm proporção com nossa alma, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Sim, já sabemos que as operações da inteligência não dependem de um órgão corporal próprio, diz Tomás. Mas as operações da inteligência pressupõem a corporeidade: é o corpo que nos insere no mundo, na história, nas relações, e nos possibilita aprender, ou seja, possibilita as próprias operações intelectuais. Assim, o corpo deve ter uniformidade com a criação material, não com as operações incorpóreas. Assim, o corpo deve ser capaz de coletar informações sensíveis, perceber o que está em torno dele, tocar, ver, ouvir, perceber, ser visto e, principalmente, interferir e ajudar a construir o mundo com sua atividade. Se fôssemos, por exemplo, corpos constituídos por chamas de fogo etéreas, queimaríamos tudo em que tocássemos, e assim por diante. Portanto, trazemos em nós a mesma constituição que o resto da criação, a mesma matéria, desde a lama do chão ao pó das estrelas, e somos, em nós mesmos, uma síntese perfeita da criação material e espiritual. Por isto, qualquer tipo de argumento no sentido de que nosso corpo é “grosseiro” ou não é “etéreo” o suficiente soa como um certo desprezo à materialidade que constitui o universo criado, cujo criador é Deus, e no qual estamos chamados a viver, integrar-nos e, principalmente, amar e agir.

O terceiro argumento objetor.

A alma intelectual é uma forma, lembra o argumento. Se ela é uma forma, ela é aquilo que define, que constitui uma espécie. É o princípio da espécie, portanto. Deve conter em si aquilo que é específico – porque a palavra “específico” vem justamente da palavra “espécie”. Mas o fato de que sua especificidade está na inteligência, que é algo único da espécie humana, determina que, uma vez que a alma humana é algo íntegro, único, ela não deveria dar origem a um ser que compartilha, em seu corpo, partes que são comuns a todos os animais, e mesmo a todos os seres vivos, como braços, mãos, pés, olhos, ou, em conjunto com os vegetais, órgãos sexuais. Mas tudo isto existe no corpo humano. Logo, o corpo humano não pode ter sido estruturado pela alma intelectiva unitária, sendo tão complexo e múltiplo, e trazendo características e partes de outras espécies em si. Portanto, a alma intelectiva tem uma relação apenas acidental com o corpo, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Seria um erro confundir, mais uma vez, o plano da realidade, que é a existência física das coisas, com o plano da lógica, que é o discurso que construímos sobre a realidade que conhecemos. Assim, as partes das coisas, como mãos, olhos, músculos, órgãos sexuais, não pertencem à espécie dos animais ou das plantas, mas aos próprios seres concretos, tais como se constituem no mundo. O que pertence a esta ou àquela espécie é o todo, ou seja, a substância daquele animal ou planta. Por isto, o fato de que um ser possui, por exemplo, órgãos sexuais, como as plantas e a maioria dos animais, não significa que os órgãos sexuais são uma “ideia” abstrata, uma estrutura formal comum e homogênea compartilhada com várias espécies vivas. Assim, não é que exista algo como “a espécie dos braços” ou “a espécie dos olhos” que são compartilhadas por todas as coisas que têm braços ou olhos. Existem, isto sim, estruturas análogas que estão presentes em diferentes espécies de seres vivos, e que correspondem a operações próprias daquela espécie; os seres humanos não “compartilham olhos” com o resto do reino animal, mas a estrutura do corpo humano apresenta órgãos de visão, olhos, que são propriamente humanos e correspondem a operações humanas; assim, as formas mais complexas, as almas, podem apresentar estruturas cada vez mais complexas em razão da complexidade de suas operações, e as almas mais perfeitas, como as almas humanas, podem perfeitamente estruturar, no corpo, partes análogas às de outros seres vivos para realizar operações que compartilha com eles, mas devidamente proporcionadas à sua própria natureza e finalidades. Assim, olhos humanos são olhos humanos, e não olhos animais compartilhados pelos humanos, e assim por diante. Ou seja, as estruturas análogas aos outros seres vivis, presentes também nos humanos, não desmentem a unicidade da forma substancial humana que é a alma intelectiva: em nós todas as estruturas ordenam-se à inteligência como característica especificadora da nossa identidade como espécie. A inteligência nos permeia inteiramente, é ela que nos dá estrutura, e não podemos deixar de ver todas as nossas estruturas a partir dela, sob pena de sermos menos humanos.

O quarto argumento objetor.

O quarto argumento vai no rumo oposto ao terceiro. Se o terceiro argumento pleiteava que a alma humana deveria estar num corpo etéreo, sutil como as chamas do fogo, o quarto argumento lembra que o corpo humano é, comparado ao dos animais, muito frágil e desprovido de proteções naturais. Se o ser humano é a coroação da natureza, a síntese da criação, ele é muito desprovido de perfeições corporais que abundam nos animais. Os animais são peludos, o que os protege do frio, mas nós somos pelados. Alguns animais são velocíssimos, mas nós somos lentos na corrida. Alguns têm garras e presas formidáveis, força muscular e destreza incomparáveis, ao passo que nós somos desprovidos de extremidades agressivas e armas naturais. Assim, o argumento conclui que a alma intelectiva não deveria estar unida a um corpo tão pouco poderoso.

A resposta de Tomás.

A inteligência nos dá uma abertura para o universal, para a investigação de causas, para o conhecimento abstrato, uma sede interminável de saber e conhecer; os animais irracionais, por outro lado, são especializados no particular, no individual, no aqui e agora, e por isto podem ter corpos especializadíssimos, já que devem fazer muito bem aquelas poucas tarefas que são típicas da sua natureza. O nosso corpo é, portanto, pouco especializado porque abre-se para o todo, para o geral, e portanto a especialização dificultaria esta abertura.

Por outro lado, a nossa inteligência é capaz de suprir, artificialmente, tudo aquilo que não temos naturalmente. Por isto, somos como que seres incompletos, e o desafio que isto representa à nossa sobrevivência é, sem dúvida, um grande estímulo ao nosso desenvolvimento intelectual. Portanto, é bastante conveniente que nosso corpo seja exatamente como é.

3. Conclusão.

Feliz ano novo àqueles que estão acompanhando nossos escritos, numa caminhada que já vai completar cinco anos. Que Deus os abençoe em mais um ano, e que 2022 seja repleto de graças!