1. Palavras de retomada.

Por que precisamos ser corporais? Qual a razão da existência desta dimensão material que nos constitui e nos insere no tempo e no espaço?

De fato, somos corporais. E há uma razão para isto. Nossa alma constitui um corpo, e, neste sentido, opera na dimensão material, embora tenha, como diferencial, a inteligência, que é essencialmente imaterial. A razão desta relação é debatida no artigo que estudamos agora.

No texto anterior, verificamos a hipótese controvertida de que não seria necessário que a alma constituísse um corpo para existir e operar, e vimos os quatro argumentos objetores neste sentido. Passamos agora a examinar a resposta sintetizadora de Tomás.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

A alma humana é proporcionada à corporeidade.

Sim, é necessário, é natural e é conveniente que a alma estruture um corpo, o corpo humano, de modo a operar convenientemente. E Tomás explicará as razões pelas quais as coisas são assim.

Em primeiro lugar, Tomás chama a nossa atenção para o fato de que a alma não existe por causa do corpo, mas o corpo é que existe em razão da alma. O que significa isto? Significa que, em vez de se debruçar numa pesquisa sobre uma eventual organização progressiva da matéria, uma espécie de evolução gradativa desde os corpos inanimados até os animais superiores, e destes até o animal inteligente que é o ser humano, Tomás fará a via inversa: a partir da constatação de que a alma humana é espiritual, ou seja, capaz de operar imaterialmente, Tomás vai pesquisar a razão pela qual a alma humana pressupõe a operação corporal, vale dizer, a razão pela qual o ser humano, sendo espiritual, deve ser essencialmente um ser corporal.

Há muitos seres espirituais, diz Tomás. Dentre todos, nós somos os seres de menor capacidade intelectual. Aqueles seres espirituais estritamente incorpóreos, que nós chamamos de “anjos”, têm uma inteligência muito mais poderosa que a nossa. E há uma razão para isto: as formas existem ou na matéria ou numa inteligência. Assim, puras formas subsistentes, como são os anjos, têm que ser capazes de pleno autoconhecimento para existir. Só existem puras formas subsistentes se forem, a um só tempo, inteligentes e perfeitamente conhecedoras de si mesmas. Por outro lado, os anjos são criados já com todo o conhecimento que precisam ter naturalmente, porque, como inteligências espirituais que são, sua existência é o seu conhecimento, e eles só poderiam se relacionar com o restante da criação se já tivessem amplo conhecimento dela. Parece complexo, mas isto mostra o quanto eles são diferentes de nós, humanos.

Nós existimos como animais inteligentes. Isto significa que nossa forma existe na matéria, e não na nossa própria inteligência. Ou seja, nós não temos (nem precisamos ter) pleno autoconhecimento para existir. Por outro lado, como a nossa relação com o restante da criação se dá pelo corpo, não somos dotados de amplo conhecimento prévio da criação, porque adquirimos conhecimento dela por meio do nosso corpo, que é nossa maneira de relação com as outras coisas criadas. Nossa inteligência surge na ignorância sobre nós mesmos e sobre todas as outras coisas, e precisamos aprender. Para aprender, precisamos de um corpo dotado de sensibilidade, capaz de explorar, de descobrir, de entrar em contato com o mundo material. Por isto, ou seja, por sermos criados como seres inteligentes sem autoconhecimento e sem conhecimento prévio do mundo, é necessário estabelecer, por meio da matéria que constitui o nosso corpo, todo um caminho de conhecimento e autoconhecimento para chegarmos a alguma perfeição existencial. Portanto, como a natureza não deixa nenhum ser sem os meios necessários para atingir a própria perfeição, a nossa animalidade, a nossa corporeidade, é este meio natural para nosso aperfeiçoamento.

A sensibilidade corporal como caminho de aperfeiçoamento do ser humano.

Uma vez que somos espíritos existentes na matéria, e não na inteligência do autoconhecimento como os anjos, é necessário que a nossa alma tenha, naturalmente, não apenas a capacidade de inteligir (como têm os anjos), mas também a capacidade de sentir, de adquirir informações por meio dos órgãos sensoriais, como os animais. Mas os órgãos sensoriais são órgãos corporais; logo, o corpo é conveniente para a alma, e existe como razão para que ela atinja sua perfeição.

Para que alma atinja sua perfeição, portanto, é necessário que possua uma capacidade muito refinada de interagircom o mundo criado. Para isto precisa ser, além de inteligente, dotada de sensibilidade corporal, coisa que nossos irmãos anjos não têm, nem precisam ter.

Assim, sendo o corpo o caminho de inter-relação com as coisas criadas, com a criação, e sendo a sensibilidade do corpo o nosso modo de conhecer, é muito conveniente que nosso corpo consiga relacionar-se bem com um mundo de extremos como o nosso.

O conhecimento sensorial vem pelo contato entre o objeto sensível e o respectivo órgão do sentido. A luz chega aos olhos, o som aos ouvidos, o aroma ao nariz, o sabor à língua e a textura à pele. Em última instância, poderíamos dizer que cada sentido é como que o “tato” daquele aspecto da realidade: assim, o tato seria o modelo dos sentidos, de certo modo.

Por isto, é preciso que nosso corpo tenha a capacidade de interagir com as condições mais extremas: com o frio e o quente, o luminoso e o obscuro, o doce e o amargo e assim por diante. Se fôssemos como os animais irracionais neste ponto, e fôssemos altamente especializados em viver sob condições extremas, jamais poderíamos interagir com as condições opostas. Um urso polar poderia morrer de calor na Linha do Equador, como uma serpente do deserto poderia congelar rapidamente no Ártico. Assim, nosso corpo não especializado é capaz de levar-nos a conhecer aspectos que outras criaturas especializadas jamais enfrentariam. E isto deve ser assim, porque, sendo o nosso corpo o instrumento do nosso conhecimento intelectual (o que o corpo dos outros animais não é) ele deve ser adequado a proporcionar o âmbito de experiência mais largo possível, ao tempo que os outros animais resolvem-se com a adaptação para a sobrevivência. Nossa alma, assumindo a sensibilidade animal, dá a ela uma significação muito mais elevada.

Neste sentido, a maior capacidade de relacionar-se, a posse de sentidos mais refinados, é um sinal de inteligência, mesmo entre humanos. Sou tão mais capaz de aprender quanto mais for aberto a esta interação sensível com o mundo. E sou tão mais inteligente quanto mais for capaz de aprender. Esta lição já era ensinada desde tempos antigos por Aristóteles, conclui Tomás.

3. Palavras de encerramento.

No próximo texto veremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.