1. Pequena retomada.
O debate colocado diz respeito à alma dos animais irracionais. Serão elas subsistentes, e, portanto, imperecíveis como as almas humanas? Será que, por partilharmos com eles da animalidade, isto implica que eles partilhem conosco da imortalidade? Esta é uma discussão importantíssima, numa era como a nossa, que tende a diminuir a distância da dignidade humana, frente à vida animal. Fala-se, hoje, que a própria ideia de que há uma dignidade humana é um tipo de preconceito, o especismo, e que, no fundo, a diferença entre a natureza humana e a natureza dos irracionais é apenas de grau, não de qualidade. Neste debate, seremos capazes de descobrir as razões pelas quais Tomás sentia-se capacitado a defender que as coisas não são assim.
Havendo examinado, no primeiro texto, a hipótese controvertida inicial de que a alma dos animais irracionais é, como a nossa, igualmente subsistentes, vimos, num primeiro exame, os argumentos objetores que suportam esta ideia, bem como o argumento sed contra que se opõe a ela. Agora examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás.
2. A resposta sintetizadora.
São Tomás vai começar sua resposta com uma pequena história da filosofia grega, com relação à teoria do conhecimento.
Os pré-socráticos.
Os filósofos antigos, anteriores a Sócrates (que nós chamamos de pré-socráticos) não faziam a distinção entre a sensibilidade e a inteligência. Assim, para eles, qualquer princípio de operação deveria ser sempre algo material – e a busca pelo princípio de tudo apontava, muitas vezes, para os elementos da natureza (fogo, água, terra e ar) como estes princípios. Assim, como já vimos no debate do primeiro artigo desta questão 75, eles não poderiam nem sequer conceber que a alma fosse uma realidade imaterial. Nem a dos seres humanos, nem a dos outros animais. Por isto, a ideia da subsistência da alma, quer quanto aos seres humanos, quer quanto aos outros animais, não fez parte de suas especulações.
A filosofia platônica.
Por seu turno, Platão traz uma tendência de espiritualização radical da realidade, na qual o mundo das ideias é mais real do que o mundo material. Por isto, também os órgãos dos sentidos, ao interagirem com as coisas, relacionam-se, na verdade, com o mundo imaterial das ideias. Por isto, para Platão, tanto a alma intelectual humana como a alma meramente sensitiva dos outros animais são igualmente imateriais. E, portanto, a partir da filosofia platônica, poder-se-ia defender que a alma dos irracionais é igualmente subsistente.
A filosofia de Aristóteles.
Aristóteles, em especial na obra sobre a alma (De Anima), explica o funcionamento dos órgãos dos sentidos como uma alteração puramente material que o objeto faz no sentido do sujeito.
De fato, os órgãos dos sentidos são neutros para aquela qualidade que são capazes de perceber. Ora, ao receberem o estímulo do objeto, eles o fazem recebendo aquela qualidade e identificando-a concretamente. É a relação entre uma sensibilidade material, por parte do sujeito sensível (material porque concreta e capaz de aperceber-se apenas do acidental) e um aspecto material, acidental, do objeto em sua concretude (sua cor, seu aroma, seu sabor, sua textura, sua vibração). Vale dizer, o conhecimento sensível, sendo relacionado com objetos concretos (este cheiro, esta textura, etc) e apreendendo-os também na razão da sua concretude, é uma operação que não transcende a dimensão material do animal.
Mas o conhecimento intelectual não é assim. O conhecimento intelectual envolve a abstração da forma substancial a partir dos indivíduos; isto é, examinando, por exemplo, um grande número de cães, sou capaz de abstrair o universal “cão”, que é a forma abstrata dos cães, sua species. Ora, a species do cão está em cada cão que existe, e está neles materialmente, como dando forma à matéria, de tal modo que aquele ser material, em razão daquela forma (species), é um cão. Mas a mesma forma específica de cão está também no intelecto que aprendeu o que é um cão. Mas no intelecto ela não está materialmente, mas intencionalmente (não vamos aprofundar isto agora, porque estudaremos o modo humano de aprender em outra questão, mais adiante). Ora, cada matéria só pode receber uma única forma substancial de cada vez, como vimos no artigo anterior. A matéria do corpo humano, portanto, já recebe a forma substancial humana, e por isto não pode receber, pela aprendizagem, a forma substancial do cão, mesmo intencionalmente. Então, aquilo que, no ser humano, é responsável pela aprendizagem, deve ser imaterial. Como sabemos, o princípio da aprendizagem intelectual, no ser humano, é a alma humana, que, portanto, tem na aprendizagem uma operação puramente imaterial, e portanto completamente independente do corpo. Por isto, por ter esta operação de modo independente, ela pode continuar operando mesmo se o corpo for destruído. E disto podemos concluir que a alma humana, diferentemente da alma animal, é algo subsistente.
3. Palavras de encerramento.
Após termos examinado a resposta sintetizadora de Tomás, estamos aptos a enfrentar, com ele, os argumentos objetores iniciais. É o que veremos no próximo texto.
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