1. Retomando.

Alguém já chamou o ser humano de “centauro metafísico”, exatamente porque une em si a realidade do mundo material (que as outras criaturas, mesmo os seres vivos, não conseguem superar), e a realidade espiritual, que compartilha de certo modo com os anjos. Isto sempre levou o ser humano à tentação de ser como os anjos, ou seja, de ser uma substância espiritual completa em si mesma, com uma relação simplesmente acidental com a matéria. Mas não é isto o que somos. Somos animais espirituais, como alguém já disse. Mas isto que é espiritual em nós tem uma característica notável: é capaz de sobreviver à nossa aniquilação como animais. Sobrevive, é certo, mas de uma maneira, de certo modo, incompleta: sendo a estrutura de um ser corporal, sobrevive privada da matéria. Mas, como acreditamos na fé cristã, estamos integrados ao Corpo de Cristo, que é a Igreja, na qual esperaremos (no corpo da Igreja) a ressurreição final, que será corporal, e na qual teremos a nossa própria reconstituição corporal. Assim, a rigor, não estaremos privados de corpo, na Vida eterna. Mas estamos novamente nos adiantando. Por enquanto, discutimos apenas a razoabilidade da ideia de que a alma humana, sem ser uma substância em si mesma, é subsistente, isto é, é capaz de existir mesmo separadamente do corpo. No primeiro texto, vimos a hipótese controvertida e os argumentos objetores. Examinaremos agora a resposta sintetizadora de Tomás.

2. A resposta sintetizadora.

A alma como princípio da vida intelectual.

A alma é o princípio da vida humana. E a vida especificamente humana caracteriza-se por ser uma vida intelectual: a maneira pela qual inteligimos não é simplesmente algo que os outros animais têm, mas em grau inferior; a inteligência humana é qualitativamente diversa de qualquer tipo de discernimento que os animais possam ter.

No artigo anterior, já vimos que este princípio da vida, que é o princípio da inteligência, é, por natureza, imaterial. Tomás, agora, quer nos mostrar que ela deve ser, também, naturalmente subsistente, de modo diverso daquele pelo qual o próprio ser humano, como vida animal, o é. Quer dizer, ainda que a vida animal do ser humano venha a findar, pela morte, a alma humana pode subsistir por si mesma.

Há muitas maneiras de demonstrar isto; Tomás optará por uma maneira que nos parece um pouco difícil de seguir, porque nossas teorias sobre o conhecimento são bastante diferentes daquelas que ele conheceu, e nosso conhecimento do mundo físico também. Mas os princípios do que Tomás nos explica são perfeitamente compreensíveis, para nós.

A capacidade de aprender intelectualmente supera a materialidade.

A inteligência humana é naturalmente capaz de vir a conhecer todas as coisas corporais, porque, para que consigamos aprender, precisamos do contato físico com aquilo que é objeto de nosso conhecimento. Nada há no intelecto que não tenha passado pelos sentidos, disso Tomás sabia, e isto sabemos nós, também. É por isto que nos é muito difícil conhecer os anjos, simplesmente porque, sendo imateriais, eles não se dão aos nossos sentidos. Assim, não podemos aprender diretamente sobre eles, senão de modo indireto.

Mas voltemos ao conhecimento intelectual natural do ser humano, que é o conhecimento das coisas materiais. Tomás vai afirmar um princípio que, para ele, parecia muito claro, mas para nós será um tanto difícil de acompanhar.

O princípio é o seguinte: aquilo que é capaz de conhecer alguma coisa não pode ter em si aquilo que pode conhecer. Como assim?

O conhecimento sensível dos órgãos dos sentidos.

Vamos imaginar, aqui, o sentido da visão. O olho é capaz de ver diversas cores. Mas, para isto, a pupila tem que ser transparente, não pode ser de nenhuma cor. Porque se a pupila tivesse naturalmente alguma cor, ela veria apenas aquela cor que está ali. É fácil imaginar isto: o que acontece quando colocamos uns óculos de lentes fortemente azuis em nosso rosto? Imediatamente o mundo se apresenta para nós como azul. As outras cores não chegam a nós, e vemos tudo azul. Assim, se a pupila não fosse transparente, mas azul, não conseguiríamos ver as cores.

Imaginemos o sentido do paladar. A língua deve ser, ela mesma, insípida, ou seja, ela não pode ter em si nenhum sabor. Se, digamos, cobrimos nossa língua com uma camada espessa de açúcar, não conseguiremos sentir nenhum outro sabor, a não ser o sabor doce do açúcar que cobre a língua. Exemplos assim podem ser dados com todos os órgãos dos sentidos.

Portanto, para que o sentido da visão possa conhecer todas as cores, ele deve ser naturalmente neutro para a cor. Para que o paladar possa conhecer todos os sabores, ele deve ser naturalmente neutro para o sabor. E isto se dá por um princípio muito simples: cada ente material pode ter uma forma, e apenas uma forma, de cada vez. A mesma matéria individualizada não pode receber mais de uma forma de cada vez. Atenção com este princípio, porque voltaremos a ele adiante. A matéria de uma árvore não pode, ao mesmo tempo, receber a forma de uma pedra, e vice-versa. É certo que a pedra pode ser moída e usada para adubar a árvore, caso em que a matéria da pedra será absorvida pela árvore. Mas aí ela já não será mais pedra, e sim árvore. Qual a consequência disso?

Pensando nos exemplos citados acima, dos órgãos dos sentidos, como o olho e a língua, vemos que o olho, a matéria que compõe a lente do olho, tem que ser neutra para a qualidade “cor”. Ele não pode ter, atualmente, nenhuma cor, para que ele possa enxergar todas as cores. Mas tem que estar potencialmente disponível para receber as cores do mundo, e conseguir enxergar. É por isto, também, que, quando estamos enxergando uma coisa, não podemos, ao mesmo tempo, enxergar outra: nossa visão está sendo atualmente informada com aquelas cores daquela cena, e portanto não está disponível, não está num estado potencial para enxergar, naquele mesmo momento, outra cena simultaneamente. Do mesmo modo a língua: a matéria que a forma tem que ser, em si mesma, neutra para o sabor, e potencialmente capaz de receber todos os sabores. Mas, quando ela é atualizada por um sabor, torna-se indisponível para sentir, simultaneamente, outro sabor. Disso sabem os provadores profissionais, que sempre lavam a língua antes de provar outra coisa.

Nestes exemplos, a sensibilidade dos órgãos é neutra para uma qualidade da matéria. É por isto que os órgãos do sentido, e as inteligências animais que são estritamente apenas sensíveis (e não intelectuais) podem ter um conhecimento sensível, vale dizer, um conhecimento que reconhece aspectos acidentais, qualidades do mundo externo (como o sabor, o cheiro, a textura, as cores, os ruídos), mas não é capaz de conhecer os entes externos como entes, isto é, como coisas autônomas pertencentes a esta ou aquela espécie. E agora chegamos no que nos interessa, que é a razão pela qual o conhecimento intelectual tem que ser uma operação estritamente imaterial, independente do corpo, espiritual, portanto.

O que é o conhecimento intelectual?

Se conhecer intelectualmente é ser capaz de abstrair a própria forma das coisas, a species universal que a identifica como ente, isto significa que todo ser que conhece deve ser capaz de receber, na sua própria mente, a própria forma da coisa conhecida.

Mais uma coisa, que precisamos acrescentar: vamos usar, agora, a palavra “mente” para nos referirmos à operação da alma que aprende. Mente, aqui, é a própria alma operando no aprendizado. E aprender, aqui, significa ser capaz de abstrair, das coisas concretas com que nos deparamos, a própria forma essencial da coisa apreendida, para além dos seus acidentes. Se eu conheço os cães, não é porque eu sei que este cãozinho aqui é pequeno e amarelado, e aquele outro é grande e preto; eu sei que há uma espécie canina, com todos os seus atributos, que é capaz de se apresentar concretamente de várias maneiras acidentais, mas também sei que, quando alguém me apresenta um ser vivo muito semelhante a um cão, mas que mia e ronrona, não estou diante de um cão, mas de um gato. Conheço os cães, portanto, de uma forma superior ao conhecimento de cada cão em concreto, e de uma maneira tal que, mesmo sem ter visto todos os cães do mundo, todos os que já existiram nos últimos milhões de anos e todos os que ainda vão existir, sou capaz de dizer, frente a um animal concreto que me é apresentado, que, se ele tem juba e urra, não é um cão, mas um leão. É por isto que sabemos que o conhecimento intelectual verdadeiro não está condicionado pelas condições materiais concretas: é universal, porque é formal, e não material. Conhecer é abstrair e armazenar em sua própria mente a forma essencial de alguma outra coisa.

A mente não é material.

Mas, se a mente fosse algo material, a matéria da mente já estaria atualizada pela própria forma da mente, e por isto não conseguiria receber em si outras formas. Exatamente por causa daquele princípio que colocamos acima: A mesma matéria individualizada não pode receber mais de uma forma de cada vez, lembram-se? Então, se a mente humana fosse material, a matéria que a compõe não estaria em potencialidade para receber outras formas, porque já estaria ocupada com a forma da sua própria mente. Por isto, podemos concluir que a mente (ou seja, a alma em sua operação intelectiva) tem que ser imaterial, exatamente para ser capaz de receber, em si, formas além da sua própria. É neste sentido que Aristóteles dizia que a alma humana é, de alguma maneira, todas as coisas. Porque, sendo capaz de uma operação imaterial de receber formas, ela está sempre em potência para receber outras formas, além da sua própria, e por isto esta operação de receber formas pela aprendizagem não pode ser material (já que a matéria só está em potência para uma forma de cada vez). Se todas as operações da alma humana fossem estritamente materiais, jamais poderíamos adquirir conhecimentos intelectuais. Seres que só têm operações materiais não podem ter mente.

Ora, aquilo que possui operações próprias de uma determinada natureza, ainda que integre, como elemento constitutivo, uma outra natureza, não esgota o seu ser na substância da natureza que integra. Isto é, uma vez que a alma humana tem operações espirituais autônomas com relação ao corpo, ela não esgota o seu ser em ser estrutura do corpo; e com isto podemos dizer, sem recorrer a conhecimentos revelados, que a alma não esgota o seu ser quando a dimensão material do ente que ela estrutura é destruído, porque ela é capaz de operar autonomamente com relação a ele. Em suma, tendo operações que independem da dimensão corporal, a alma humana é capaz de subsistir à morte, sobrevivendo à destruição do corpo, porque pode operar independentemente dele.

Tomás vai dar um último exemplo para nos explicar esta subsistência: o calor não é quente porque aquece; ele aquece porque é quente. De modo análogo, podemos dizer que não é que a alma exista porque pensa, (como queria Descartes, erradamente), mas ela pensa porque existe, e pensa independentemente de ser corporal, e portanto continua pensando (e continua sendo) mesmo que a dimensão corporal venha a ser destruída. Grande mistério, complexo de explicar e entender.

3. Palavras de encerramento.

Muitas vezes é difícil seguir os raciocínios de Tomás. Ele lida com uma teoria do conhecimento crítica, mas realista, muito diversa daquela com que lidamos hoje. E por isto às vezes temos que ler muitas vezes o que ele escreve, reler, pesquisar, para poder compreender bem. Ler Tomás sem levar em conta seus pressupostos, tentando enquadrá-lo em filosofias que lhe são estranhas (ou foram construídas justamente para negar seus princípios, como é o caso de Descartes) leva-nos a não compreender o que ele está dizendo, ou a compreender de modo distorcido.

Estabelecidos os princípios de uma forma tão magistral, veremos, no próximo texto, as respostas de Tomás às objeções iniciais.