1. Retomando o assunto.
Vimos, então, o belo paralelo entre os três primeiros e os três últimos dias, no relato da criação. Os três primeiros dias são estruturais, estabelecem as fundações imóveis do universo. Os três últimos são ornamentais, e povoam o universo de movimento, vida e beleza.
Estabelecidos os princípios para a solução do problema, Tomás passa a enfrentar os argumentos objetores iniciais.
2. Os argumentos objetores iniciais.
Primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento parte da ideia aristotélica de que os corpos celestes não compartilham a mesma matéria das coisas terrenas. Assim, sua matéria-prima só existe para formá-los, e para mais nada. Mas se o relato de criação dá a entender que a matéria informe foi criada logo no início, antes mesmo da sequência dos dias, e se a matéria celeste nunca pode ficar informe, não haveria sentido que os astros fossem criados apenas no quarto dia, diz o argumento.
Esta é fácil de responder, diz Tomás, se adotarmos a interpretação de Agostinho, de que a narração dos “dias” não é cronológica, mas apenas estabelece uma ordem de prioridades. Assim, para Agostinho, não houve um tempo em que a matéria-prima, seja a terrestre, seja a celeste, existiu sem compor os respectivos corpos. O relato quer ressaltar apenas que a matéria-prima é tão mais fundamental do que aquilo que ela compõe, que foi criada antes mesmo que o trabalho dos dias se iniciasse. Mas não há intervalo de tempo entre uma coisa e outra, pensa Agostinho.
Mas se adotamos a interpretação daqueles que entendem que as coisas celestes são feitas dos mesmos quatro elementos que as terrestres, tampouco há alguma dificuldade aqui. Criada a matéria indistinta, logo no princípio, houve depois o trabalho de distinção, que no quarto dia formou os astros.
A dificuldade surge para os que adotam a visão aristotélica de que as coisas celestes são feitas de um quinto elemento, substancialmente diferente daqueles que existem na terra. Este elemento seria incorruptível e, portanto, não poderia existir sem compor o respectivo corpo do qual ele é parte. Mas, neste caso, diz Tomás, devemos imaginar que ele foi criado de modo indistinto, logo no início, e só neste quarto dia ganhou distinção, na forma dos astros.
Aqui, diz Tomás, fica claro aquilo que São João Crisóstomo já apontava: a função desta narrativa seria realmente destruir mitos divinizadores, isto é, o seu objetivo era esvaziar qualquer falsa ideia de que os astros são deuses, ao rebaixá-los à condição de meros ornamentos do céu, formados apenas no quarto dia da criação.
Segundo argumento objetor.
O segundo argumento lembra que os astros são como lâmpadas, ou seja, como fontes ou reservatórios de luz. Ora, se a luz foi feita no primeiro dia, diz o argumento, não há sentido em esperar até o quarto dia para que os astros venham a existir.
Tomás mais uma vez vai afirmar que, para os que adotam a interpretação de Santo Agostinho, não há dificuldade em explicar isto. De fato, Agostinho aforma que a luz criada no primeiro dia tinha natureza espiritual, era a luz da verdade que iluminaria os espíritos. No quarto dia, criou-se a luz no sentido físico, tendo os astros como fonte.
Os outros intérpretes entendem que o primeiro dia narra a criação da luz em sentido físico mesmo. Neste caso, diz Tomás, é como se a luz, criada no primeiro dia, somente fosse associada aos astros no quarto dia. Ou seja, a luz existia desde o primeiro dia, mas a partir do quarto dia ela foi associada aos astros como sua fonte. Neste caso, a luz do primeiro dia seria como que indiscriminada, não específica, mas, a partir do quarto dia, ela recebe uma discriminação a partir de sua associação com os diversos astros. Ou seja, a partir do quarto dia, a luz do sol é uma, a luz da lua é outra, e outra ainda é a luz das estrelas.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor também parte daquele conceito, vigente na ciência de então, de que os astros do céu estão fixos em algumas esferas celestes concêntricas, que giram ao redor da terra e, por isto, fazem os astros girar com elas. Ora, diz o argumento, se as coisas são assim, então haveria um paralelo entre os astros, presos nas esferas do firmamento, e as plantas, presas na terra. Se as plantas, segundo a narração da criação, surgiram no terceiro dia, simultaneamente ao trabalho de organização da esfera terrestre, na qual elas estão agarradas, então, diz o argumento, os astros deveriam ter surgido no segundo dia, no qual o firmamento é organizado, já que eles estão agarrados às esferas do firmamento, conclui.
Mas Tomás não considera que esta ideia de que os astros estão fixados, como que agarrados, em esferas celestes que giram e, com isto, fazem-nos girar, seja um conceito aceito irrestritamente. Na verdade, ele já inicia citando Ptolomeu, o famoso sistematizador do modelo geocêntrico. Ptolomeu, em seu modelo, não ensinava que os astros estivessem como que agarrados a esferas celestes, mas seriam corpos livres, com movimentos próprios e independentes entre si. Com base nesta visão ptolomaica, São João Crisóstomo ensinava que Deus colocou os astros no céu para povoar o firmamento, como colocou os seres humanos no paraíso para povoar o Éden. Ou seja, segundo esta visão, não há nenhum problema com esta leitura de que os seis dias se dividem em dois ciclos de
três dias, e no quarto dia narra-se a criação dos astros para ornamentar de vida e movimento o céu.
Mas esta não é a visão de Aristóteles, registra Tomás. Aristóteles defendia que as estrelas estariam fixas, agarradas a esferas celestes do firmamento, e estas esferas, ao girar, fariam com que as estrelas girassem.
No entanto, diz Tomás, do ponto de vista de um observador qualquer aqui na terra, não faz diferença defender, como Ptolomeu, que as estrelas são livres e giram por sua própria natureza, ou defender, como Aristóteles, que elas estão agarradas em gigantescas esferas celestes que giram. Para o observador, o fato observável é que as estrelas movem-se pelo céu, já que ninguém pode enxergar pretensos movimentos de esferas celestes gigantes. Assim, o autor do Livro do Gênesis (que, no tempo de Tomás, era identificado com o próprio Moisés) descreve a criação do firmamento no segundo dia e a criação dos astros no quarto dia, porque distingue o firmamento (como estrutura) dos astros (como ornamentação), respeitando, assim, a observação empírica de que os astros movem-se pelo céu. Não interessava ao escritor sagrado debater filosofia ou astronomia, mas ensinar o povo sobre a criaturalidade da nossa realidade, de um modo que fosse compreensível aos seus leitores.
O quarto argumento objetor.
O quarto argumento lembra que a vida vegetal depende do sol (e, embora de um modo diferente, também da lua) para acontecer. Assim, os astros são causa da vida vegetal, no sentido de que são necessários para ela. Mas aquilo que é causa deve vir antes daquilo que é efeito. Assim, não há sentido em narrar a criação da vida vegetal no terceiro dia, antes mesmo da criação dos astros, que se dá somente no quarto doa, conclui o argumento.
A resposta de Tomás é muito boa. Ele lembra que o relato bíblico tem, primeiramente, uma função teológica; a de estabelecer que os astros são criaturas de Deus, e não deuses. O próprio São Basílio, diz Tomás, já chamava a atenção para esta função do texto bíblico. As Escrituras não existem para ensinar ciência, mas para revelar a criaturalidade das coisas e sua relação com Deus. Assim, embora alguns intérpretes como São João Crisóstomo, chamassem a atenção para o fato de que, de fato, os astros são condição necessária para a vida vegetal, de modo geral eles estavam atentos à centralidade da função teológica do texto, que era a de combater a tendência à idolatria dos astros celestes.
O quinto argumento objetor.
Por fim, o quinto argumento traz a notícia de que alguns astrônomos já sabiam que o sol e a lua não eram os maiores corpos celestes, e que algumas estrelas poderiam ser maiores do que eles. Assim, com base nesta informação científica, o argumento questiona como falso o relato bíblico do quarto dia, quando afirma, no versículo 16, que o sol e a lua são os “dois grandes luzeiros” do céu, quando há fontes de luz maiores e mais importantes no universo.
Na resposta, Tomás recorre simplesmente a São João Crisóstomo. Este grande Padre da Igreja Oriental já havia afirmado que o sol e a lua são chamados de “os grandes luzeiros” não porque sejam, de modo absoluto, os maiores corpos celestes que existem; mas porque, do ponto de vista humano, são, sem dúvida, os astros mais diretamente influentes na vida do nosso planeta. E porque eles aparecem como maiores os nossos olhos.
3. Breves anotações conclusivas.
Olhar a forma honesta e direta com que Tomás recolhe as críticas às Escrituras, que circulavam em seu tempo, nos ensina muito sobre o modo competente com que ele fazia interpretação; a um só tempo ele era muito respeitoso com a ciência, por um lado, e com a Bíblia, por outro.
Ver, além disso, como muitas “certezas científicas” do tempo dele parecem-nos hoje completamente equivocadas deve levar-nos a refletir sobre o perigo que existe em tentar acomodar a leitura bíblica a um modelo científico, ainda que hegemônico. Risco enorme: se atrelamos demais a Bíblia a um modelo científico, corremos o risco de ver a superação do modelo científico nos levar à descrença, ou, pior ainda, levar as Escrituras ao ridículo e nos levar a ter que defender modelos científicos equivocados, acreditando defender as Escrituras. Isto é muito ruim. E é uma tentação em voga hoje em dia: quantos intérpretes combatem as teorias evolucionistas a partir de um criacionismo que a Bíblia não ensina, mas que foi harmonizado com ela? Assim, há quem defenda um modelo criacionista ligado a uma ciência ultrapassada, acreditando defender a fé. É um equívoco.
Outro risco é acreditar que, uma vez que a Bíblia foi revelada por Deus, seus autores humanos compartilhavam da onisciência divina; neste caso, se a Bíblia descreve um fenômeno a partir de uma visão cientificamente ultrapassada, a tendência é concluir que ela não pode vir de Deus, porque Deus deveria saber ciência, e não poderia “ditar” revelações que não fossem compatíveis com todos os descobrimentos científicos presentes e futuros. Mas Deus não ditou a Bíblia, nem inspirou seus escritores humanos com revelações científicas oniscientes. Deus respeita a cultura e a história daquele que recebe a revelação. Tomás conhece este princípio, e o imputa a Moisés, dizendo que muitas coisas são escritas de maneira imprecisa, nas escrituras, por causa da “condescendência” de Moisés para com seu povo, destinatário da revelação, que ainda não seria capaz de entender muita coisa, na sua ignorância. Mas a constituição “Dei Verbum”, do Vaticano II, estabelece, com muita precisão, que esta condescendência, de fato, existe. Mas não por parte do escritor humano: é Deus que é condescendente conosco, e aceita exprimir a verdade transcendente que é necessária à nossa salvação respeitando os limites históricos e culturais do povo que recebe a revelação. Deus se encarna. E a Palavra revelada se encarna na cultura e na história de quem a recebe.
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