1. Primeiras considerações.

Segundo o relato bíblico da criação, que estamos estudando ao longo deste Tratado da Criação, o sol e a lua foram criados com três finalidades: separar o dia da noite, servir de sinal e marcar o tempo, os dias e os anos (Gn 1, 14). Os versículos 17 e 18 reiteram que eles foram criados para iluminar a terra, presidir ao dia e à noite e separar a luz das trevas.

Dentro da teoria das quatro causas de Aristóteles (causa material, causa formal, causa eficiente e causa final), parece que o texto bíblico aponta, nestes versículos, a causa final do sol e da lua. E é esta a discussão a ser desenvolvida agora.

2. A hipótese controvertida.

A discussão, como vimos, vai girar em torno da verdadeira causa final da criação do sol e da lua. A hipótese controvertida, que dará início ao debate, vai afirmar que estas causas finais descritas na Bíblia, e mencionadas nos versículos 14 e 17-18 são inadequadas. São cinco os argumentos objetores iniciais, que tentarão fundamentar esta hipótese controvertida.

3. Os argumentos objetores.

O primeiro argumento objetor afirma que seria muito inconveniente que o sol e a lua fossem criados para “servir de sinais”, como diz o versículo 14, quando o Profeta Jeremias (10, 2) adverte ao povo: “Não nem temais os sinais celestes, como os temem os pagãos”. Ora, se o sol e a lua fossem criados para ser sinais celestes, todos deveriam observá-los e respeitá-los. Mas a palavra do profeta diz o contrário! Logo, conclui o argumento, não é adequado dizer que estes astros foram criados para servirem de sinal.

O segundo argumento diz que a noção de “sinal” não está na mesma categoria que a noção de “causa”; na verdade, seriam noções opostas, já que a causa é algo que desencadeia os efeitos, mas os sinais, ao contrário, são causados, ou seja, são desencadeados pelos efeitos e apontam para estes. Ora, a descrição bíblica parece dizer que os astros, ou seja, o sol e a lua, são sinais da luz, do dia e da noite e da sucessão do tempo. Mas eles não são sinais destas coisas, mas verdadeiras causas delas. Logo, o argumento conclui que a descrição bíblica é inadequada.

O terceiro argumento diz que o relato bíblico da criação, neste quarto dia, diz que o sol e a lua foram criados com o fim de separar o dia da noite e marcar a sucessão do tempo, dos dias e dos anos. Mas ocorre que a sucessão do tempo, em especial do dia e da noite, já ocorrem desde o primeiro dia da criação, enquanto a criação do sol e da lua só ocorre no quarto dia. Logo, o argumento conclui que os astros não podem ter sido criados com este fim.

O quarto argumento diz que, na ordenação entre meios e fins, aquilo que é superior nunca pode ser considerado um meio para aquilo que é inferior. Aquilo que é perfeito, consumado, não pode ser um meio para que o fim seja imperfeito, inferior, inconcluso. É próprio da razão de fim ser a conclusão, o aperfeiçoamento daquilo que é meio. Ora, prossegue o argumento, os astros celestes são muito mais perfeitos, mais plenos e mais importantes do que este planetinha que chamamos de terra. Assim, não pode ser adequado dizer que eles foram criados com o fim de nos servir, iluminando-nos, conclui o argumento.

O quinto argumento questiona o fato de que a narrativa bíblica declara que a lua foi criada para presidir à noite, como se diz no versículo 16. Ora, prossegue o argumento, a lua passa por diversas fases; algumas são visíveis apenas durante o dia, outras, como a lua nova, praticamente não têm um brilho capaz de fazer diferença à noite. E diz mais: uma vez que a contagem dos ciclos da lua se inicia pela lua nova, ela provavelmente surgiu como um astro opaco, o que contraria uma pretensa designação divina para que ela seja a “presidente da noite”. Por isto tudo, o relato bíblico é inadequado, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra. Palavras finais.

Por fim, o argumento sed contra simplesmente reafirma a autoridade da Bíblia. Mas isto é, obviamente, insuficiente. Um intérprete não pode simplesmente responder a um interlocutor: as coisas são assim porque estão na Bíblia.

É fundamental, portanto, dar boas razões para nossa interpretação bíblica. É o que Tomás fará em sua resposta sintetizadora, que examinaremos no próximo texto.