1. Retomando o debate.
Este primeiro relato de criação, que percorre o primeiro capítulo do Gênesis e se encerra em Gn 2, 4, deve ter sido originado num meio sacerdotal, dizem os estudos bíblicos mais recentes. De fato, a criação do mundo é narrada, aqui, como uma verdadeira liturgia, na qual a sequência obedece a objetivos teológicos, não científicos. Não podemos simplesmente presumir que houve um ditado, por parte de Deus, para o autor sagrado, e que portanto ele era onisciente e deveria saber tudo sobre a estrutura científica do universo. A inspiração divina não é um ditado, mas um movimento interior, que respeita os limites, a personalidade e a ciência do escritor. Assim, não devemos nos assustar, ao percebermos que a ordem dos dias, nesta descrição, não corresponde à nenhuma visão filosófica ou científica sobre a origem do universo, mas à necessidade de descrever a relação entre Deus e suas criaturas. Daí que a descrição da criação do sol e da lua, que eram deuses para tantos povos, tenha sido relegada para um quarto dia, ou seja, para algo de pouca relevância estrutural para a criação como um todo. Mas isto causou inúmeras dificuldades interpretativas, como vimos no texto anterior. Agora veremos a interpretação de São Tomás, em sua resposta sintetizadora.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
As três partes deste primeiro relato da criação.
Fundamentado na antiga tradução da Vulgata, Tomás cita Gn 2, 1, que, na leitura de São Jerônimo, dizia: “assim foram terminados os céus e a terra e toda a sua ornamentação”. As traduções atuais costumam registrar, no lugar de “ornamentação”, a palavra “exército”, e o texto ficaria assim: “assim foram terminados os céus e a terra e toda o seu exército”.
Em todo caso, Tomás se vale da tradução da Vulgata para dividir a obra da criação em três etapas:
1. A etapa da criação inicial, em que a matéria informe que daria origem ao céu e a terra foi tirada do nada e predisposta a fazer surgir todas as coisas.
2. A etapa da estruturação, quando a matéria informe original foi como que moldada pelas mãos divinas, de modo a fazer com que tudo ficasse distinto e aperfeiçoado. Assim, a matéria que daria origem ao céu e à terra é devidamente configurada, de modo a permitir que o céu e a terra, tal como o conhecemos, viessem a aperfeiçoar-se.
3. A etapa da ornamentação ou decoração, na qual todas as coisas que povoam o universo e o tornam belo e repleto de vida e dinâmica foram criadas, de modo a preenchê-lo de movimento.
Analogicamente, seria como a criação de uma casa, de um belo lar: primeiro, juntamos os materiais de construção, depois erguemos as paredes e o telhado e, por fim, a pintura e a decoração. As três etapas são, portanto, bem distintas entre si em natureza e objetivo, diz Tomás. A etapa de estruturação diz respeito à perfeição intrínseca do universo, à sua estruturação. A obra de ornato é extrínseca, comparável em função àquela que a roupa tem para o nosso corpo.
A etapa de ornamentação. A simetria entre os dias.
Em que consistem, pois, estes ornamentos? Das coisas que estão sujeitas ao movimento local, ou seja, das coisas que se deslocam para cá e para lá, explica Tomás. Este é o grau máximo de individualização. De fato, uma montanha é algo distinto de um vale, mas ambos não chegam a constituir-se como indivíduos, porque, afinal, são apenas acidentes geográficos da terra. Mas a vegetação, os animais e, no caso do céu, os corpos celestes que movimentam-se no céu, estes são distintos e individualizados.
A estrutura da criação (que pertence à segunda etapa) consiste, basicamente, em céu, água e terra. A estruturação do céu dá-se no primeiro dia da criação, quando se faz a luz e sua alternância com as trevas. A estruturação das águas dá-se no segundo dia, quando separam-se as águas superiores das inferiores, com o firmamento antepondo-se a elas. E, finalmente, a estruturação da terra se dá no terceiro dia, com a formação dos corpos d’água e a aparição do solo enxuto.
Assim, há uma simetria entre a obra de estruturação e a obra de ornamentação. O que foi estruturado no primeiro dia (o céu) é agora ornado, no quarto dia, com os luzeiros (o sol e a lua). O que foi estruturado no segundo dia (as águas) receberá, no quinto dia, seu ornamento (os peixes e animais marinhos em geral). Por fim, aquilo que foi estruturado no terceiro dia, que é o solo enxuto, receberá, no sexto dia, seu ornamento: os animais terrestres, que se movem por ele. Este seria o esquema básico de simetria, diz Tomás.
Assim, este esquema explica a razão pela qual a criação dos astros dá-se no quarto dia: trata-se do trabalho de ornamentação do céu. Paralelo ao segundo dia.
E quanto a Santo Agostinho, que sempre tem suas posições destacadas por Tomás, por causa das peculiaridades de sua interpretação bíblica?
Santo Agostinho não tem uma interpretação diferente, neste particular. Ele apenas ressalta que, no caso dos astros, não há apenas uma criação potencial, virtual, como no caso das plantas e animais. De fato, Agostinho registra que, no versículo 10, Deus ordena que a terra produza as plantas (o que indicaria que nem todas as plantas foram criadas de uma só vez no início da criação). Mas, ao criar os astros, Deus não determina que “o firmamento produza astros”, como seria de se esperar se houvesse apenas uma criação “potencial” ou “virtual”. Astros não são seres vivos, reprodutivos. Eles foram criados por Deus de modo atual, efetivo, na sequência da criação.
4. Palavras de encerramento.
Esta última observação de Tomás não nos deve levar a imaginar que ele está ultrapassado, em sua interpretação. De fato, a astrofísica moderna sabe que os corpos celestes são gerados e corrompidos, ou seja, surgem e desaparecem com o tempo. Não são permanentes e definitivos, incorruptíveis, como imaginavam os antigos. Portanto, poderíamos dizer, hoje, que os corpos celestes também foram criados apenas potencialmente por Deus num primeiro momento, já que muitos deles demoraram bastante para formar-se, e outros formam-se e desaparecem ainda hoje.
Mas não podemos fazer esta observação sem deixar bem claro: a Bíblia, nos relatos de criação, trata da relação entre Deus e sua criação, e não faz ciência, no sentido contemporâneo do termo. Não façamos uma leitura ingênua do seu texto.
No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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