1. Vamos retomar a discussão.
No texto anterior, vimos o debate (sobre a afirmação do relato de criação bíblico) de que existem águas sobre o firmamento. Esta afirmação é posta em dúvida pela hipótese controvertida, que coleciona três argumentos de natureza empírica, científica, para negar a veracidade factual desta afirmação. O argumento sed contra limitou-se a reafirmar a autoridade da Bíblia, neste particular. Estávamos neste ponto, quando introduzimos duas ideias da Constituição Dogmática Dei Verbum, do Concílio Vaticano II: uma, a de que a inerrância da Bíblia envolve apenas as verdades necessárias para a nossa salvação, e não as afirmações empíricas de cunho científico, e dois, de que a correta interpretação deve levar em conta os limites culturais e científicos do autor humano das Escrituras, inclusive o contexto da época em que escreveu. E mencionamos, também, que esta referência às águas acima do firmamento podem ser lidas, alegoricamente, como uma profecia sobre as águas batismais, capazes de nos trazer a vida eterna. Mas passemos ao exame da resposta sintetizadora de São Tomás.
2. A resposta sintetizadora de São Tomás.
Tomás vai iniciar citando agostinho, para afirmar que confia mais na autoridade das Escrituras do que em qualquer descoberta da inteligência humana. Assim, diz ele, deve haver águas sobre o firmamento. Mas que águas são estas? E onde estão? Estas perguntas têm obtido diversas respostas ao longo dos tempos, diz Tomás, e estas respostas são interessantes para que possamos notar que é possível preservar a verdade das escrituras sem violar a razão humana; basta ter abertura de espírito e inteligência, evitando as leituras fundamentalistas. É por isto que Tomás quer destacar o fato de que, ao longo da história, este trecho teve várias interpretações. E ele passa a resgatar algumas, comentando-as, de tal modo a estabelecer critérios para harmonizar a verdade da fé com as verdades descobertas pela razão humana.
A posição de Orígenes
O primeiro grande intérprete bíblico citado por Tomás é Orígenes.
Orígenes interpretava a menção à água, neste versículo 7, como uma referência alegórica a entes espirituais. Ele defendia que este trecho deveria ser interpretado em harmonia com o Livro de Daniel, 3, 60: “Águas e tudo o que está sobre os céus, bendizei o Senhor!“. Ora, somente seres inteligentes podem louvar o Senhor, pensava ele. Logo, se há “águas que estão nos altos céus” que são capazes de louvar o Senhor, então devem ser seres espirituais, ou seja, uma referência alegórica aos anjos, achava Orígenes.
Mas São Basílio discorda. Este Canto das Criaturas, que está no Livro de Daniel, capítulo 3, versículos 57 e seguintes, e que a igreja sempre adotou em sua liturgia, não se refere às próprias criaturas como capazes de, por si mesmas, louvar a Deus. Na verdade, o que este texto significa é que o ser humano, contemplando as criaturas, é capaz de louvar o criador por elas. Porque o texto refere-se a outros entes, como o vento, o fogo, a neve, como louvando ao Senhor, e eles não são seres inteligentes. Logo, diz Basílio, a referência às “águas dos altos céus”, aí, não pode ser remetida a uma alusão aos anjos. Assim, diz Tomás, o versículo 7 fala de “água” como referindo-se à água mesma, ao elemento material “água”, e não como uma alegoria aos anjos.
Que águas são estas?
Mas que águas são estas? Estabelecido o fato de que não é uma alusão alegórica aos anjos, Tomás passa a relacionar os vários sentidos que o substantivo “água” pode ter, nesta passagem.
A primeira opinião é a daqueles que, como Empédocles, defendem que o firmamento é composto pelos mesmos elementos que compõem a realidade terrena. Para quem pensa assim, a menção às águas acima do firmamento não constitui problema: haveria água no espaço sideral, como há na terra, e pronto.
Mas há aqueles que, como Aristóteles, entendem que no firmamento, ou seja, no espaço sideral, não há os quatro elementos da terra, quer dizer, a água, o fogo, o ar e a terra. Eles acreditam que o espaço sideral é formado por um quinto elemento, dada a sua característica de ser incorruptível. Assim, para estes, esta menção a “águas acima do firmamento” deve ser uma menção a algum tipo de formação similar à água que conhecemos aqui na terra, mas não se trata do mesmo elemento. A interpretação deste texto, para estes, deve seguir o rumo da analogia: existe algo, acima do firmamento, que é similar à água aqui debaixo, mas não é a mesma coisa.
De fato, diz Tomás, é possível imaginar, no caso dos que pensam como Aristóteles, uma interpretação que preserva o texto, mas que o compreende de um modo analógico. Como o velho escritor grego Estrabão, ao fazer menção ao chamado “céu empíreo”, dizia que ele poderia ser chamado de “céu de fogo” por causa do seu brilho, embora seja uma realidade espiritual e não haja nenhum fogo nele, a mesma analogia pode ser usada, diz Tomás, para chamar de “céu aquoso”, por similaridade, os grandes espaços transparentes no firmamento, já que a água é translúcida. E assim se preserva o texto bíblico.
Ou ainda, pode-se compreender que esta afirmação de que a criação do firmamento separou as “águas de cima” das “águas de baixo”, que é o versículo 7, diz respeito à matéria informe, ainda indeterminada, que existia antes da criação; aos que entendem como Aristóteles, que defende um “quinto elemento” no céu, poderíamos dizer que, neste segundo dia, Deus separou a matéria informe que daria origem aos quatro elementos terrestres, deixando-a aqui mesmo na terra, da matéria informe que daria origem ao quinto elemento, elevando-a ao firmamento. Neste caso, uma vez que a água é fluida e a matéria-prima é informe e indeterminada, haveria uma analogia entre as duas coisas, no texto bíblico, chamando de “água” o que, na verdade, seria matéria informe. E Tomás cita Agostinho em reforço a esta leitura. De fato, Agostinho chegou a afirmar, na obra “Sobre o Gênesis contra os Maniqueus”, que toda massa sólida é capaz de separar águas de águas. Assim, a separação entre a terra e o firmamento seria capaz de separar a massa líquida da matéria informe dos quatro elementos, de um lado, e a massa líquida da matéria informe do quinto elemento, do outro, Assim, a leitura bíblica é preservada, mesmo se a posição de Aristóteles for verdadeira.
O firmamento é a atmosfera terrestre?
Mas há ainda outra possibilidade, lembra Tomás; aquela que consiste em entender “firmamento” não como o espaço sideral, mas como a atmosfera terrestre. Neste caso, as “águas sobre o firmamento” seriam simplesmente as nuvens, nas quais a água evaporada se condensa.
No entanto, diz Tomás, não se poderia estender essa interpretação a ponto de defender que essas águas evaporadas subiriam até o espaço sideral ou além. Ele dará algumas razões para isto, fundamentadas na visão de ciência do seu tempo e na visão de mundo que ele próprio tinha, e elas nos parecem muito obscuras e estranhas, porque nossa visão de mundo é muito diferente da dele. De fato, ele acreditava que as abóbadas superiores do firmamento era sólidas, impedindo a passagem dos vapores d’água. Além disso, acreditava que a abóbada na qual as nuvens se condensavam era abaixo da abóbada do sol, até porque nós podemos observar que as nuvens se formam em baixa altitude, abaixo até de certas montanhas. Além disso, a evaporação tem um limite de densidade, e não se pode admitir que a água se torne rarefeita a tal ponto que possa subir ilimitadamente ou penetrar em qualquer fresta, porque qualquer coisa material, como a água, tem um limite de rarefação. Assim, a água não sobe acima da atmosfera, e portanto não há como defender que este versículo 7 trata de algum tipo de evaporação que leve as águas acima do firmamento.
3. Palavras conclusivas.
A sensação de que qualquer leitura harmonizadora entre a ciência e a Bíblia é destinada a ficar obsoleta para as gerações seguintes é muito clara, nestes artigos de São Tomás. Portanto, o melhor é acompanhar sua lição, de que nenhuma leitura deve ser estreita a ponto de tornar ridículo o texto bíblico.
24 de maio de 2023 at 20:31
Vapor de água é detectado no cinturão de asteroides do Sistema Solar pela primeira vez!
Por Julio Batista -maio 23, 20230
https://universoracionalista.org/vapor-de-agua-e-detectado-no-cinturao-de-asteroides-do-sistema-solar-pela-primeira-vez/?fbclid=IwAR2As-igNeJov3U4In8s5zNW_T2SHK0CE02e0htRu8S5kzmHlIDWMGMcpqY
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25 de agosto de 2024 at 06:19
é maravilhoso vê a ciência confirmando e constatando o poder ilimitado do nosso Deus
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5 de setembro de 2024 at 18:35
Pois, a água em cima do firmamento nada mais é que o AR…. EM gênises 1 vs 20 O senhor disse : povoem se as águas de exames de seres vivente; e voem as aves SOBRE A TERRA, SOBRE O FIRMAMENTO DOS CEUS.
Deus falou sobre OS CÉUS. Na semana da criação Em nenhum momento Deus fala sobre o AR
além do volego de vida que assim nos deu.
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26 de setembro de 2024 at 19:06
Obrigada, ainda fiquei confusa 😮💨👏
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26 de setembro de 2024 at 19:46
Não é fácil mesmo…
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26 de dezembro de 2024 at 22:10
Águas acima do céu são aquelas existentes fora do nosso planeta.
A ciência já comprovou isto
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