O presente artigo traz uma discussão muito interessante, que é para nós, pessoas do século 21, como que um incentivo a lembrar de uma causa que está muito esquecida para nós, mas que sempre foi considerada a mais importante de todas: a causa final. Ela explica a razão, o porquê da existência da coisa. Nós, humanos de hoje, achamos que as causas mais importantes são a causa material e a causa eficiente: queremos saber de que uma coisa é feita (de madeira, de ferro, de aço?) e como se faz (é artesanal? É industrial? É natural?), mas pouco nos interessa a causa final, ou seja, por qual razão ela existe, ou seja, qual é a sua finalidade. É exatamente o que vamos debater agora.

A hipótese controvertida, aqui, para provocar o debate, é a de que a causa final da criação das coisas materiais não é a bondade de Deus. Ou seja, elas não teriam sido criadas simplesmente porque Deus é bom, e tendo em vistas esta bondade, e elas não se destinam, em última instância, a encontrar seu bem em Deus.

São três os argumentos objetores, aqui.

O primeiro argumento cita o Livro da Sabedoria de Salomão, 1, 9: “Deus criou tudo para a existência”. Assim, diz o argumento, a causa final da criação das coisas é a própria existência delas. Vale dizer, conclui o argumento, as coisas são criadas porque devem existir, não em razão da bondade divina.

O segundo argumento lembra que o bem sempre tem razão de fim. Assim, segundo o argumento, aquilo que, dentre as coisas, é melhor, deve ser o fim daquilo que não é tão bom. Vale dizer, as coisas mais perfeitas, mais elevadas, uma vez que são providas de um bem maior, são o fim das menos elevadas, que são providas de um bem menor e devem existir para as melhores. Exemplos disso seriam o fato de que as coisas inanimadas são o substrato das plantas; estas são alimento dos animais e estes servem aos seres espirituais, que são os humanos e anjos. Assim, o argumento conclui que o fim das coisas criadas é o bem que existe nas coisas que são melhores do que ela, e não o próprio bem divino.

O terceiro argumento parte de uma ideia de justiça que é muito comum, ainda hoje, em certos movimentos gnósticos e reencarnacionistas: a ideia de que a justiça de Deus, para ser perfeita deveria ser igualitária, ou seja, todas as coisas criadas deveriam ser absolutamente iguais. Se Deus é bom, dizem, ele deve ser justo. Ser justo é tratar a todos de modo igual, na medida da sua igualdade, e tratar os diferentes de modo diferente, na medida de sua desigualdade. Mas a desigualdade que justificaria um tratamento diferente das criaturas por Deus seria somente a desigualdade resultante do próprio livre-arbítrio das criaturas, não as diferenças naturais entre elas. A única forma, pois, de haver esta pluralidade de criaturas (inanimadas, vegetais, animais, anjos) tão desiguais em perfeições e atributos, segundo este argumento, é se, de algum modo, algum livre arbítrio gerou estas diferenças, justificando que Deus criasse as coisas diferentemente, premiando as boas escolhas e punindo as más. Seria o caso, por exemplo, de se imaginar que Deus criou primeiro muitos anjos, e depois estes anjos fossem fazendo escolhas boas e más, resultando estas escolhas na criação, por Deus, de coisas melhores e piores, como recompensa ou punição. A justiça de Deus estaria preservada, se a pluralidade das coisas resultasse, por exemplo, do mérito ou demérito dos anjos. Logo, conclui o argumento, a causa final da criação é o livre-arbítrio e a respectiva retribuição, que causa as diferenças entre as criaturas, e não a simples bondade de Deus.

Como argumento sed contra, cita-se Provérbios, 16, 4, na redação da Vulgata: Tudo o que Deus fez, fez por causa de si mesmo. Assim, o argumento contrário invoca a autoridade das Escrituras para concluir que a causa final de todas as coisas é a bondade divina.

Em sua resposta sintetizadora, São Tomás resgata o ensinamento de Orígenes, velho Padre da Igreja entre os séculos II e III, que, numa tentativa de harmonizar os relatos bíblicos da criação com as filosofias que conhecia na época, ensinava que as coisas materiais não estavam, originalmente, na intenção criadora de Deus. No princípio, conforme Orígenes ensinava, Deus planejou criar apenas os seres espirituais, ou seja, os anjos. Muitos anjos converteram-se para deus e permaneceram com sua natureza espiritual original, diz Orígenes, Mas muitos anjos, abusando da liberdade, caíram, e foram punidos, conforme a gravidade de seu pecado, sendo transformados em coisas materiais, tão grosseiramente inferiores quão maior foi seu pecado.

Esta opinião, diz Tomás, não pode sustentar-se. E nos dá duas razões pelas quais esta opinião é equivocada.

A primeira razão é bíblica. As Escrituras, ao narrarem a criação no capítulo 1 do Livro do Gênesis, especifica que Deus criou diretamente as criaturas materiais. E que, após criá-las, declarou que eram boas, como que para dizer que sua existência mesma era boa. Ora, se é verdade o que Orígenes ensina, as criaturas materiais não existiriam por serem boas, mas como punição para algum mal que os anjos houvessem feito, e portanto elas seriam verdadeiros castigos, penas, males, enfim. Uma pena é sempre um mal que pune outro mal. Não poderiam, pois, ser declarados como coisas boas por Deus.

Por outro lado, a segunda razão é que a criação das coisas materiais não pode ter ficado ao acaso, ou seja, não pode ter decorrido do pecado dos anjos. A natureza tem uma ordem, em que cada coisa tem sua função, seu número, seu lugar. O sol, por exemplo, existe na ordem correta do sistema solar; este, em razão das galáxias e assim por diante. Imaginemos, então, como seria se Deus precisasse criar sóis para punir anjos, e não para ordenar os sistemas solares. Certamente, os planos de Deus e a própria ordem do universo estaria submetido ao pecado dos anjos, não à razoabilidade intrínseca do sistema. Isto traria como consequência que o universo não fosse intrinsecamente ordenado, mas resultante do acaso, da desordem das escolhas de alguns anjos. Isto seria impensável, conclui Tomás.

Então, por que as criaturas foram criadas? É o que veremos no próximo texto.