No último texto, introduzimos o debate sobre a criação das coisas materiais, concretas, com que nos deparamos no nosso cotidiano. Normalmente, é fácil admitir que, há muito tempo, lá no começo, Deus criou o universo, talvez na forma daquela explosão que chamamos de Big Bang. Mas admitir que cada coisa existente, em sua concretude hoje, é uma criatura saída das mãos de Deus, é mais difícil, não menos para nós do que para os do tempo de Tomás. A concepção de criação como “ex nihilo”, quer dizer, como tirar do nada, pode induzir a imaginação a visualizar uma espécie de mágica: Deus estalando os dedos e algo surgindo do nada. Mas daí a imaginar que ele criou tudo o que existe hoje talvez seja mais difícil de conceber.

De fato, Tomás inicia lembrando que não foram poucos, mesmo dentre teólogos que se consideravam cristãos, os que afirmaram, hereticamente, que os seres visíveis, isto é, os seres dotados de matéria em sua estrutura, não foram criados por Deus, mas por algum princípio mau. Estes, diz Tomás, chegam mesmo a citar São Paulo, em 2 Coríntios 4, 4: “para os incrédulos, cujas inteligências o deus deste mundo obcecou a tal ponto que não percebem a luz do Evangelho,” como se esta passagem comprovasse que haveria um “deus deste mundo”, distinto do único Deus Trindade de Jesus Cristo, e que este “deus deste mundo” seria o criador das coisas visíveis deste mundo.

Isto é inadmissível, diz Tomás. Há uma unidade na criação, lembra ele, e toda unidade se resolve num princípio fundamental que estabelece a relação entre os seres unificados. Este critério, embora esteja presente em todos os elementos, existe, de certo modo, além deles mesmos, e causa a unificação do conjunto. É assim, por exemplo, que o conjunto dos corpos aquecidos tem a sua unidade no princípio do calor, que é o fogo.

Ora, se há alguma coisa capaz de unificar todas as criaturas, é a existência. Todas as criaturas são. Este é o princípio que as unifica, quer sejam criaturas imateriais, quer sejam criaturas materiais. Todas as criaturas podem reunir-se num único conjunto de coisas que existem. Portanto, deve haver algo que lhes causa o ser, unificando-as neste conjunto de coisas que são. E o princípio do ser, capaz de unificar todas as criaturas por serem existentes, nós o sabemos: é Deus e nenhum outro.

É certo que São Paulo chama o Diabo de “deus deste mundo”. Mas não é uma atribuição literal, mas metafórica. Sabemos que o Diabo é uma criatura, um anjo; não é nenhum deus, portanto. Mas Paulo se refere a ele como “deus deste mundo” como uma forma de denunciar aqueles que o servem e idolatram. Ele faz isto em outra passagem, para denunciar falsos apóstolos que vivem de modo mundano, “cujo deus é o ventre”, diz em Filipenses 3, 19. Não se deve concluir daí que São Paulo acredite que haja algum outro Deus; mas apenas que os idólatras transformam em deuses aquilo que não o é. Assim, há apenas um Deus, e ele criou tudo o que há. Como diz o credo Niceno-Constantinopolitano, ele é criador do céu e da Terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis.

Colocados os critérios para a solução da polêmica, Tomás revisita agora as objeções iniciais.

O primeiro argumento objetor cita duas vezes as Escrituras, para tentar fundamentar a ideia de que Deus só cria coisas eternas, mas as coisas materiais, visíveis, são contingentes e, portanto, não são criadas por Ele.

Esta objeção tem um sabor quase platonista; quer reduzir o mundo material à ilusão, e o mundo das ideias à categoria de única realidade. A contingência, no entanto, não retira de nenhum ser a condição de criatura. Tomás vai responder que a criação não é contingente. E até mesmo as coisas contingentes, sujeitas à corrupção, não estão sujeitas ao desaparecimento. Destruídas, deixam sua matéria, que comporá outra coisa.

Até aqui, diz Tomás, vê-se o cuidado de Deus com sua criação: quanto mais perfeita é uma criatura, quanto mais semelhante a Deus, menos contingente, menos destrutível ela é.

Aquelas criaturas inanimadas, ou mesmo aquelas animadas que não são dotadas de alma espiritual, como plantas e animais em geral, tendem a desaparecer e deixar sua matéria para compor outro ser substancial; aqueles seres cuja alma é espiritual, como o ser humano, conhecem a corrupção, mas subsistem em sua espiritualidade, eternamente, ao tempo em que sua matéria permanece para compor outros seres, como as demais criaturas materiais.

Por fim, aquelas que são puros espíritos, como os anjos, não estão sujeitas à corrupção; uma vez criadas, permanecem no ser eternamente. Mas, uma vez que são criaturas, mesmo estas estão sujeitas à mudança, como vimos no estudo do processo salvífico dos anjos.

Vê-se, pois, que há uma dimensão de dinâmica, de impermanência, na criação, mas há também uma dimensão de estabilidade, de permanência, que se torna mais efetiva na medida da perfeição da respectiva criatura.

Quanto à citação que o argumento faz de 2 Coríntios 4, 18, em que São Paulo diz que “as coisas que se veem são temporais e as que não se veem são eternas”, São Tomás contextualiza o dito de São Paulo, lembrando que ele está tratando, aqui, daquilo que as pessoas buscam como fim ou prêmio para o ser humano; nestes casos, diz ele, é menos sábio buscar fins transitórios, materiais, como a honra, o dinheiro, o poder político, quando a busca de fins eternos, por imateriais, como o amor de Deus e a felicidade da bem-aventurança, é muito mais sábia. Esta passagem não pode, pois, ser aduzida para provar que Deus não criou as coisas visíveis.

O segundo argumento traz uma citação de Gn 1, 31, na qual Deus olha sua criação e vê que tudo era “muito bom”. Ora, nem todas as coisas visíveis que existem, diz o argumento, são muito boas. Algumas são péssimas, como as cobras venenosas, ou o sol inclemente do deserto, por exemplo. Assim, o argumento conclui que, se só as coisas “Muito boas” foram criadas por Deus, teríamos que admitir que há muitas outras que não o foram.

Tomás, em sua resposta, vai lembrar o seguinte: somente Deus é bom sob todos os pontos de vista possíveis, porque ele é o bem universal e absoluto. As criaturas concretas são sempre individuais, e portanto, mesmo sendo muito boas por existirem e serem conformes ao plano de Deus, podem ser avaliadas sob determinados aspectos que, talvez, não sejam bons. Isto porque, no curso dos fatos, o bem particular de uma delas pode se contrapor ao bem particular de outra, que será eliminado – o que é um mal.

Ora, algumas pessoas, considerando a conveniência de determinado aspecto das criaturas, ou de seu comportamento, podem afirmar que algumas coisas são más de modo absoluto, como o fazem aqueles que não gostam de serpentes venenosas. No entanto, lembra Tomás, aquilo que parece mau de um ponto de vista (o da vítima, por exemplo, no caso dos predadores), pode ser um bem do ponto de vista dos predadores ou mesmo do controle populacional ou do equilíbrio ecológico. Portanto, as próprias coisas são boas, ou muito boas, embora o equilíbrio dos interesses e das interações entre elas possa eventualmente causar males concretos. O que só se dá em razão da bondade essencial das coisas, já que todo mal resultante daí é acidental, circunstancial.

O terceiro e último argumento afirma que tudo o que vem de Deus não pode nos afastar dele, mas apenas nos conduzir a ele. Mas as coisas materiais, diz o argumento, podem nos afastar de Deus, de acordo com as Escrituras. E cita mais uma vez 2 Coríntios 4, 18, em que o Apóstolo Paulo adverte para que não nos apeguemos aos bens materiais. E disto conclui que as coisas visíveis não podem ter vindo de Deus.

Todas as criaturas, materiais ou imateriais, conduzem sempre a Deus, diz Tomás. As criaturas materiais existem para tornar visíveis para nós as perfeições invisíveis de Deus. Eis um pensamento muito bonito, muito contemplativo, de Tomás. Olhar para as criaturas, mesmo as mais simples, e contemplar sua beleza, sua perfeição, sua harmonia, é ser levado a contemplar, analogicamente, a própria beleza invisível de Deus. Esta é a chamada “revelação natural”, que São Paulo menciona em Romanos 1, 20: “Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras”.

Não se pode negar que há pessoas que se perdem pelo abuso das coisas materiais. Mas isto se dá pela própria falta de sabedoria e prudência destas pessoas que abusam delas, não por alguma maldade intrínseca às próprias coisas. É por isto que o Livro da Sabedoria, 14, 11, diz que algumas coisas materiais tornaram-se “laços para os pés dos insensatos”.

Mas até isto prova que elas saíram das mãos de deus. De fato, é por serem criaturas de Deus que são boas, e é por serem boas que atraem a vontade desordenada dos insensatos, afastando-os de Deus. O que há de maldade, aí, está na vontade desordenada deles, não nas coisas; a capacidade que elas têm de atrair a vontade prova justamente o contrário.