Estivemos discutindo, no tratado que acabamos de encerrar, a criação dos anjos. Sendo, como são, criaturas essencialmente espirituais, é fácil concebê-las como criaturas de Deus, imateriais, inteligentes, não sujeitas ao tempo e ao espaço, quase divinas em sua natureza. Mas não são elas as criaturas mais próximas de nós em nossa experiência diária. Podemos dizer, mesmo, que, neste mundo dos anjos, que, como já vimos, é um mundo de grandes poderes e conflitos profundos, somos como que pequenos soldados cegos e desarmados, participando de uma guerra que é real, mas que escapa aos nossos sentidos.
Por outro lado, somos seres espirituais. Alguém já disse que a natureza dos seres humanos é a de “animais espirituais”. Mas é muito comum, e acontece repetidamente, que a religiosidade humana despreze o material e valorize o puramente espiritual. Nem o cristianismo mais puro, que é o cristianismo da encarnação e, portanto, tem o princípio sacramental da matéria como veículo da graça, esteve livre de tendências espiritualizantes, que desprezaram a matéria. Daí a importância de debater o que se debate neste artigo: será que as coisas materiais, como tais, vieram de Deus? São criaturas também?
Não podemos esquecer que a ciência contemporânea conta com um relato cósmico de desenvolvimento evolutivo a partir de uma expansão inicial (Big Bang), no qual as coisas foram surgindo por meio de forças, de aglomerações, fusões, explosões, reações e seleção natural. Demócrito, o antigo pensador grego, de certa forma previu uma forma atomista de pensar, que reduz todas as formas substanciais acima do átomo como acidentais. Hoje, há uma tendência até mesmo a acreditar que o átomo é uma união acidental de partículas ainda mais básicas, e a busca pela partícula fundamental prossegue. Por fim, esta partícula fundamental pode ser, segundo alguns, reduzida a energia, e portanto toda a matéria não passaria de um fenômeno energético que ilude nossos sentidos; o universo seria apenas energia combinada e recombinada. Como energia é um conceito muito aberto, e no fundo imaterial, há uma tendência a espiritualizar mesmo o corpóreo, o que nos devolve à ideia de que debater a criaturalidade do universo material é uma tarefa urgentíssima para nós.
A hipótese controvertida, portanto, para provocar o debate, é a de que as coisas materiais existentes não são, em si mesmas, criadas por Deus. Esta afirmação poderia sair de um relato cosmológico contemporâneo, que descreve estas coisas apenas como resultado de combinações e recombinações evolutivas, ou mesmo de uma visão grega clássica, em que a matéria era vista como eterna e os deuses, apenas como moldadores dela. Ou ainda de certas correntes new age que têm uma visão da matéria como má, como energia estagnada, como acúmulo kármico, e portanto não digna de um universo evoluído; muitas destas correntes espiritualistas contemporâneas entendem a “elevação espiritual” como uma progressiva caminhada para fora das “prisões materiais”; logo, a matéria é vista como algo mau em si. Como algo mau pode ter sido criado por um Deus bom? Vê-se, pois, quão importante e atual é este debate. É claro que Tomás não conhece estes problemas (seríamos anacrônicos se achássemos que eles estavam claros para Tomás; não estavam). Mas certamente sua profunda visão sobre o assunto poderá nos ajudar com princípios capazes de esclarecer os debates ainda hoje.
São três os argumentos objetores, no sentido desta hipótese controvertida inicial.
O primeiro argumento cita Eclesiastes 3, 14: “Reconheci que tudo o que Deus faz dura para sempre, sem que se possa ajuntar nada, nem nada suprimir.” Ocorre que a nossa experiência demonstra que as coisas materiais não duram para sempre; ao contrário, são passageiras, destroem-se com o tempo. A própria Escritura nos diz, em 2 Coríntios 4, 18: “Pois as coisas que se veem são temporais e as que não se veem são eternas.” Assim, Deus pode ter concebido tudo, pode ter criado a própria matéria, pode ter criado as formas, as ideias e os processos, mas as coisas, em sua concretude individual, não são criadas por ele, conclui o argumento.
O segundo argumento cita Gn 1, 31, onde se declara: “Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom”. Ora, prossegue o argumento, quem já sofreu queimaduras fortes do sol numa área desértica, ou mesmo já sofreu uma picada de cobra ou uma mordida de animal, quem já contemplou um desastre natural, um terremoto numa área habitada, por exemplo, sabe que não se pode dizer que tudo o que existe no mundo material é “muito bom”. Logo, se as coisas que Deus criou eram todas “muito boas”, certamente isto não inclui as coisas materiais, que podem trazer em si muita malignidade, conclui o argumento.
O terceiro argumento diz que, quando uma coisa é criada por Deus, ela ajuda a nos aproximar dele, e não a nos afastar. Mas as Escrituras estão repletas de conselhos a respeito do cuidado que devemos ter com as coisas materiais, pela capacidade que elas têm de nos afastar de Deus. O argumento cita, inclusive, uma passagem de 2 Coríntios 4, 18: “Porque não miramos as coisas que se veem, mas sim as que não se veem. Pois as coisas que se veem são temporais e as que não se veem são eternas”. Ora, disto o argumento conclui que as coisas visíveis, ou seja, as coisas materiais, não podem ter saído de Deus, porque a ele não nos conduzem.
O argumento sed contra cita o Salmo 145, 6: “É esse o Deus que fez o céu e a terra, o mar e tudo o que eles contêm”. Ou seja, há fundamento bíblico, diz o argumento, para concluir que Deus criou também todas as coisas materiais.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.
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