Vimos, nos textos anteriores, que o mal é uma privação de um bem esperado, um não-ser relativo a um bem, que se instala no bem como um parasita, tendo o bem como seu hospedeiro, ou sujeito. Mas, ao apresentar-se assim, em que medida o mal destrói o bem que ali se encontra? As coisas más deixam de ser boas em toda a medida? Esta é a hipótese controvertida apresentada agora, para provocar o debate. Parece que o mal, ao apresentar-se em alguma coisa, destrói completamente o bem. São três os argumentos objetores no sentido desta hipótese controvertida inicial.

O primeiro é um argumento de lógica. Na lógica, diz o argumento, um dos contrários aniquila completamente o outro, quando se faz presente. A luz desfaz a escuridão, e a escuridão se apresenta na ausência da luz, por exemplo. Ora, prossegue o argumento, bem e mal são contrários. Logo, apresentando-se o mal, o bem resta completamente aniquilado, conclui.

O segundo argumento é ontológico. Cita Agostinho, que afirma que o mal é nocivo porque suprime o bem. Ora, diz o argumento, o bem não é algo que se possa quantificar, porque não é uma coisa, mas uma dimensão transcendental do próprio ser. Logo, o bem tem que ser uniformemente semelhante a si mesmo, sempre; não se pode pensar, diz o argumento, num “bem reduzido”. Logo, apresentando-se o mal, o bem resta suprimido, conclui o argumento.

O terceiro argumento vai exatamente pela via do quantitativo. O mal, ao apresentar-se, retira alguma coisa da bondade do ser. Ora, diz o argumento, o bem criado é sempre finito. Assim, não se poderia admitir que o mal pudesse retirar indefinidamente a bondade dos seres, sem que esta bondade restasse em algum momento eliminada. Assim, o mal, diz o argumento, elimina completamente a bondade dos seres em que se manifesta.

O argumento sed contra também cita Agostinho que, definitivamente, é a autoridade mais citada, nos argumentos contra e a favor, na Suma. Aqui, é apenas uma frase em que ele afirma categoricamente: o mal não pode consumir o bem completamente.

Postos os termos do debate, São Tomás vai passar a dar a sua própria resposta sintetizadora.

O mal não pode aniquilar completamente o bem. Esta é uma resposta muito consentânea com a visão de mundo medieval, escolástica, que via tudo como essencialmente bom, e o mal como adventício e secundário. Diferente da visão pós-moderna, que é essencialmente pessimista, negativista, e tende a ver o nada, o mal, como fundamento último, ou antes como falta de fundamento da realidade. Não é assim, a visão de Tomás.

O bem é transcendental do ser. Ele é, portanto, fundamento estrutural de tudo. Assim, o mal nunca o pode consumir totalmente. Há, diz Tomás, três maneiras pelas quais o bem e o mal se relacionam.

1. Há uma relação em que o mal elimina completamente aquele bem ao qual se opõe diretamente. Assim, as trevas são a eliminação da luz, como a cegueira é a privação completa da visão.

Há uma outra relação em que o mal não é capaz de suprimir o bem, nem sequer de diminuí-lo. Trata-se, aqui, do bem que é o sujeito, o hospedeiro daquele mal que atinge outro aspecto daquela existência. A dignidade da pessoa não é, de modo nenhum, atingida, supressa ou mesmo diminuída pelo mal da cegueira que eventualmente a atingir. As trevas que reinam quando eu apago as luzes da minha casa não atingem a própria substância da casa; mesmo o ar que, aparentemente, torna-se denso e impenetrável pelo olhar, na casa escurecida, revela-se perfeitamente diáfano e translúcido quando volto a acender as luzes.

Há uma terceira relação entre o bem e o mal. Trata-se daquela relação em que a presença do mal reduz a capacidade daquele ser que lhe hospeda, que é sujeito daquele mal, para atingir suas próprias perfeições. E precisamos ter atenção aqui, porque esta discussão vale para a natureza humana, maculada, mas não destruída pelo pecado original. O pecado, como mal que habita em nós, em nossa natureza humana, reduziu decerto sua capacidade de agir, de alcançar a perfeição, de atingir seu ato, mas não destruiu a própria natureza humana, e nem poderia, diz Tomás, porque o mal não pode destruir inteiramente a natureza daquele que é o seu sujeito. Mais tarde, alguns séculos depois de Tomás, Lutero vai discordar de Tomás, e vai afirmar que o mal, na forma do pecado original, corrompeu totalmente a natureza humana. Mas este é apenas um parêntesis que eu coloco aqui, para ressaltar a diferença de visão que ainda se mantém, entre católicos e protestantes, neste ponto, como se vê da “Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação”, firmada em 31 de outubro de 1999 entre os católicos e os luteranos, na qual se evidencia que esta diferença de visão ainda persiste.

O debate que se segue, portanto, é um pouco complexo, e vale uma atenção mais detida; por isto, prosseguiremos no próximo texto.