No último texto, terminamos exatamente no início da resposta sintetizadora de São Tomás, no ponto em que ele explica que o mal existe no bem como em seu sujeito, ou seja, é de fato o bem que hospeda o mal, como ausência. E não como uma ausência qualquer. Não se trata da simples inexistência, a simples negação do existir. O filho sonhado, mas ainda não concebido, não é um mal na vida do casal recém-casado. O fato de que o ser humano não pode respirar sob a água como os peixes, ou voar por suas próprias forças, como as águias, não é um mal da espécie humana. A ausência, para constituir-se como mal, deve apresentar-se como privação.

De fato, é de se esperar que um ser humano tenha em si a capacidade de enxergar. Assim, se um ser humano for cego, eis um mal. Mas uma pedra não tem, nem pode ter, a capacidade de enxergar, e por isso a ausência de visão numa pedra não é um mal.

Portanto, diz Tomás, o mal apresenta-se sempre como a privação da perfeição numa potência. Se os seres humanos têm a potência de ver, mas não enxergam, há aí um mal presente.

Ora, diz Tomás, o sujeito da potência em sentido absoluto é a matéria-prima. Ela está em potência para toda e qualquer forma; mas a matéria-prima não existe em “estado puro” na natureza, e por isto não poderíamos dizer que a matéria-prima, quando privada de qualquer forma, seria algo como o mal em estado absoluto. Porque ela simplesmente não existe neste estado. Para que ela exista, precisa estar especificada por uma forma qualquer. E o simples fato de estar especificada por uma forma qualquer, e portanto, existir, é um bem, já que, como vimos, nesta situação ela é; e o ser é conversível com o bem. Assim, os seres materiais, existindo, são bons, na medida de sua existência.

Ora, esta forma que especifica a matéria, no entanto, não se apresenta desde logo perfeita e consumada. É próprio do ser material existir como um misto de atos e potências, de perfeições e potencialidades, portanto. Assim, aquilo neste ser que se apresenta em ato (a sua existência, as perfeições que já possui) são, em si e por si mesmos, bens. E quanto às suas potências? São bens também, mas bens em promessa. As potências apontam para uma perfeição, como a semente de feijão aponta para um pé de feijão adulto, perfeito e produtivo. As potências são, pois, bens, na medida que apontam para o bem. Mas elas podem falhar, podem ficar na promessa, podem não alcançar o bem que prometem, podem ser privadas da capacidade de atingir a perfeição, e eis aí o mal. É portanto no bem da existência, e no bem da potência, que o mal pode habitar como num sujeito. E é neste sentido que se diz que o mal existe no bem como num sujeito.

Colocados, assim, os critérios de sua resposta, São Tomás passa a enfrentar as objeções iniciais.

O primeiro argumento objetor lembra que o Pseudo-Dionísio afirma que o mal não é algo existente, ou que esteja nas coisas existentes; disto, o argumento conclui que o mal não tem o bem como sujeito.

São Tomás nos ensina que o Pseudo-Dionísio está afirmando, aqui, que o mal não é uma natureza, algo que esteja intrinsecamente nas coisas de forma natural, ou mesmo que seja uma entidade. Ele não quer dizer que o mal não seja uma privação relativa a um bem esperado nas coisas, e que portanto esteja nelas como, analogicamente, um parasita está no hospedeiro sem ser parte da sua entidade.

O segundo argumento lembra que o mal não é um ente, enquanto o bem é o próprio ser, visto transcendentalmente como fim. Ora, o bem relaciona-se intrinsecamente com o ser, mas o mal, sendo um não-ser, não precisa de um ser como sujeito, para apresentar-se.

De fato, diz Tomás em resposta, não se poderia apontar um sujeito para o não-ser, do ponto de vista absoluto; seria mesmo contraditório fazê-lo, já que não existir, não ser, é incompatível, absolutamente, com estar num sujeito. Mas o mal não é o não-ser absoluto. O não-ser absolto simplesmente não é. O mal é o não-ser relativo, vale dizer, o não-ser que implica uma privação de um bem esperado num sujeito, e neste sentido o mal existe no bem.

O terceiro argumento diz que contrários não podem ser sujeitos um do outro, como, por exemplo, o preto não pode ser sujeito de brancura. Uma vez que o bem e o mal são contrários, diz o argumento, então o bem não pode ser sujeito do mal.

De fato, diz Tomás, o mal não poderia habitar no bem que se opõe a ele; assim, a cegueira não pode ter como sujeito a própria visão, mas o animal que deveria ver e não vê. Há quem diga, citando Santo Agostinho, que, neste caso, a regra da dialética que diz que contrários não podem subsistir simultaneamente não se aplica. Mas se aplica, sim, só que bem entendida. De fato, quando tratamos de contrários que são específicos, como o preto e o branco, o doce e o azedo, a regra se aplica estritamente: existindo um, o outro some. Mas o bem não é uma característica específica, ou, como diziam os antigos, o bem não está num gênero, mas, sendo um transcendental do ser, ele transcende todos os gêneros, porque tudo o que há, em todos os gêneros, tem que ser, antes de mais nada. Ora, tudo o que é, ou seja, tudo o que existe, é bom na exata medida em que existe. Por isto, neste ou naquele ente, o bem pode existir simultaneamente com a privação de algum outro bem. Assim, o mal não existe no bem que lhe é contrário, mas no ser que deveria ter o bem naquele aspecto, mas não o tem.

Por fim, a quarta objeção diz que nós chamamos de branco aquilo que é sujeito da brancura. Logo, deveríamos chamar de mau aquilo que é sujeito da maldade. Mas se o bem é o sujeito da maldade, teríamos que chamar o bem de mal, o que é, inclusive, condenado biblicamente em Isaías 5, 20: ai daqueles que chamam o mal de bem e o bem de mal. Assim, o argumento conclui que não devemos considerar que o mal existe no bem como num sujeito.

Mas esta é uma má interpretação bíblica, diz Tomás. O profeta condena quem chama o mal de bem e o bem de mal sob o mesmo aspecto, invertendo a valoração das coisas. Mas não é isto que se está afirmando aqui, como vemos da resposta da objeção anterior. O mal não convive com o bem sob o mesmo aspecto, nas coisas em que ele reside.