Dissemos, no debate do artigo anterior, que o mal é como que um parasita do bem. Sendo ele um não-ser, uma privação, ele não é um não-ser absoluto, mas uma privação de um bem esperado. Assim, ele depende do bem para existir.

Ou não? Esta é a hipótese controvertida proposta aqui, para fomentar o debate. Parece que o mal não depende do bem para existir, ou, como diziam os escolásticos, parece que o mal não tem no bem o seu sujeito. O que quer dizer isto?

Se o mal é algo como um parasita do bem, então o bem é sempre o hospedeiro do qual o mal depende para existir. O modo de expressar esta ideia, nos tempos de Tomás, era o de chamar o bem de sujeito, no qual o mal se hospedaria e proliferaria. E a hipótese controvertida aqui é a de que o mal não é um parasita do bem, ou seja, o mal não depende do bem como hospedeiro, como seu sujeito.

O primeiro argumento, na linha dos chamados “transcendentais do ser”, afirma que todos os bens são existentes. Mas o pseudo-Dionísio, lembra o argumento, afirma que o mal não é existente, e não está nas coisas existentes. Assim, seria falso, diz o argumento, deduzir que o mal tem no bem o seu sujeito, o seu hospedeiro.

O segundo argumento afirma que o mal, como já foi debatido nos artigos anteriores, não é um ente; mas o bem é. Ora, prossegue o argumento, o não-ser não se hospeda num ser, nem depende de um ser como sujeito; ele simplesmente não é. Assim, o mal não depende do bem como sujeito.

O terceiro argumento é lógico. Dois contrários não podem existir um no outro, um como hospedeiro do outro. Ora, diz o argumento, o bem e o mal são contrários, logo a existência de um implica a inexistência simultânea do outro. Assim, o argumento conclui que o bem não pode ser o hospedeiro, o sujeito do mal.

O quarto e último argumento tenta um jogo linguístico. Quando dizemos que algo é branco, estamos afirmando que ele é hospedeiro da brancura, ou seja, ele é o sujeito da brancura. Assim, se algo é hospedeiro da maldade, temos que dizer, analogicamente, que esta coisa é má, por ser o sujeito do mal. Assim, se admitirmos que o bem é hospedeiro da maldade, teríamos que afirmar que o bem é mau, o que, além de absurdo, vai contra o texto das Escrituras, que proclamam, em Isaías 5, 20: ai daqueles que chamam o mal de bem e o bem de mal! Disso o argumento conclui que o mal não está no bem como seu sujeito.

Como argumento sed contra, uma citação que resgata a autoridade de Santo Agostinho, ao afirmar simplesmente: “o mal não pode existir senão no bem!

Em sua resposta sintetizadora, São Tomás vai iniciar afirmando que, de fato, o mal existe no bem como em seu sujeito, ou seja, é de fato o bem que hospeda o mal, como ausência.

Mas é preciso ter muito cuidado aqui, diz Tomás. Não é qualquer ausência de bem que se constitui em mal. O bem pode estar ausente de duas maneiras: 1) como negação e 2) como privação.

A ausência de bem como negação não se constitui em mal. Se fosse assim, as coisas simplesmente imaginadas, desejadas, mas não existentes, seriam más. Imaginemos, por exemplo, um casal que, na cerimônia de casamento, sonhasse com três filhos. Estes filhos seriam maus filhos porque ainda não existem? Claro que não. A simples não existência, portanto, a negação da existência não é um mal. O ser humano não apresenta nada de mal por não poder voar como as águias ou respirar sob as águas como um peixe. Não é este tipo de ausência que se constitui em mal.

O que seria, então, o mal? Como ele se constitui? Como privação. Veremos isto no próximo texto.