Dizíamos, no final do texto anterior, que parecia maravilhoso que São Tomás tenha construído sua resposta em discordância com os consensos científicos de sua época sobre a duração do universo, e principalmente em discordância com aquele que ele próprio chama de “O” filósofo, Aristóteles, e, no entanto, suas conclusões estejam em sintonia com o que a ciência do século 21 sabe a respeito do início do universo, e da natureza do espaço e do tempo como interligados com a própria existência do universo, ou seja, simultâneos a este.
Agora examinaremos a resposta sintetizadora de São Tomás,
Nada, exceto Deus, pode ser eterno. É assim que Tomás inicia sua resposta. Conceitualmente. A eternidade, lembremos, não é um tempo infinito, mas estar fora do tempo. Estar no tempo, portanto, é próprio da criação. E estar na eternidade, próprio de Deus. Não há concorrência entre as duas categorias, aqui. É certo que esperamos participar da vida eterna de Deus; mas a nossa participação não nos fará deuses: seremos, ainda, criaturas às quais, por graça, foi concedida a participação na eternidade.
O fato é que, diz Tomás, a criação ocorre por uma decisão de vontade de Deus. Deus não cria por necessidade, como se fosse uma força cega, uma máquina de criar. A criação decorre de uma decisão livre, que ele não precisava tomar; toma-a por amor.
Deus, portanto, não precisava nos querer. Deus não precisa de nada, a não ser de si mesmo. A vontade de Deus dirige-se a si mesmo, porque, sendo amor perfeito e bondade absoluta, ele não poderia deixar de amar-se. Mas nós, criaturas, não somos seres perfeitos, não temos em nós a bondade absoluta, logo, Deus não precisa querer-nos. Somos limitados, porque somos contingentes, e Deus nos quer assim; por isto nos fez. A nossa contingência se manifesta, assim, no fato de que somos no tempo e no espaço; o tempo e o espaço são, pois, a marca da contingência da criação, e, portanto, são criaturas também. Portanto, o mundo não é eterno, no sentido de que ele não existe para além do próprio tempo e do próprio espaço que marcam seu modo de ser. Com isto, é preciso que fique claro que não há algo como um tempo em que o mundo não existia, ou um espaço no qual ele não estivesse, como veremos nas respostas analíticas de Tomás, adiante. Não há tempo nem espaço fora da própria criação.
Estabelecidos estes critérios, São Tomás passa a examinar o pensamento de Aristóteles, a quem ele tem tanto respeito a ponto de quase justificar as razões pelas quais o grande filósofo não atinou explicitamente com esta realidade.
Assim, ele aduz que Aristóteles, ao defender a eternidade do mundo, não estava, a rigor, colocando razões cogentes, de ordem filosófica, pelas quais o mundo deveria ser eterno; estaria apenas negando os maus argumentos de filósofos anteriores que defendiam que o mundo começara de modos impossíveis. Assim, diz Tomás, o fato de que Aristóteles provou que o mundo não pode ter principiado do modo absurdo como os filósofos anteriores o defenderam não significa que ele tenha, indiscriminadamente, rejeitado a ideia de que o mundo possa ter tido um começo. São três as situações, diz Tomás, em que Aristóteles afasta a ideia de que o mundo teve um começo:
1. Quando ele afasta as ideias de Anaxágoras, Empédocles e Platão sobre o começo do mundo. Ele está demolindo estas hipóteses antigas, mas com razões que não são capazes de atingir os fundamentos da visão cristã de criação.
2. Quando ele coleciona testemunhos antigos a respeito da eternidade do universo. Neste caso, diz Tomás, ele traz a persuasão de que o mundo é eterno, mas opiniões de antigos não são argumentos de necessidade. Também nesta argumentação não há força, nos argumentos aristotélicos, para refutar a visão cristã da criação.
3. São Tomás resgata um trecho do Livro I dos Tópicos de Aristóteles, em que o filósofo expressamente afirma que há questões dialéticas para as quais não há uma resposta final, e cita como exemplo justamente a questão da eternidade do mundo.
Disto tudo Tomás conclui que não há argumento filosófico substancial contra a conclusão, adotada a partir da Revelação cristã, de que o mundo não é eterno. Trata-se de dado revelado que se harmoniza com a razão, portanto. E com base nestes critérios ele passa a examinar os argumentos iniciais.
O primeiro argumento parte da ideia de que, para existir, o mundo tinha que ser possível, ou seja, tinha que estar em potência para existir. Ora, diz o argumento, a potência para ser qualquer coisa está na matéria; logo, para o mundo existir, a matéria teria que preexistir. Mas não existe a matéria-prima em forma bruta, logo as coisas precisariam existir desde sempre.
São Tomás, em sua resposta, admite que a existência do mundo tinha que ser possível, para que o mundo existisse. Mas esta possibilidade, diz Tomás, não se manifesta como potência passiva, como na matéria-prima, mas como potência ativa, na onipotência divina. Deus concebeu o mundo desde a eternidade em sua inteligência, e o quis em seu coração. E o criou quando quis. Neste sentido o mundo é possível. Há um outro sentido em que o mundo é possível, diz Tomás; trata-se da noção de que tudo aquilo que não envolve contradição de razão, contradição lógica, é possível. Assim, um triângulo de quatro lados é impossível, ou que Deus criasse outro Deus ingênito. Mas a existência do mundo não envolve nenhuma contradição deste tipo, logo, também do ponto de vista lógico, o mundo é possível, sem que se precise pressupor a existência da matéria.
O segundo argumento parte da ideia, corrente na ciência de então, de que o céu e os corpos supralunares seriam incorruptíveis. Se não podem ser destruídos, diz o argumento, tampouco poderiam ser gerados; logo, existiram desde sempre.
Mas São Tomás não se deixa levar por este erro. O fato de que as coisas podem eventualmente ser incorruptíveis (como defendia a ciência que ele conheceu) significa que não podem ser destruídas, e que não podem ser alteradas. Tampouco podem ser geradas. Mas não significa que não possam ser criadas, ou seja, tiradas do nada pelo poder onipotente de Deus. Nada no pensamento de Aristóteles, diz Tomás, leva a imaginar que os argumentos que ele aduz contra a ideia de que os céus e os seres supralunares possam ser corrompidos ou gerados sejam válidos contra a ideia de que eles foram criados. Aliás, a física posterior, desde o renascimento, desmentiu a física aristotélica neste ponto, e Tomás mostrou-se, mais uma vez, um bom profeta, já que as novas descobertas coadunam-se perfeitamente com suas posições teológicas.
Continuaremos examinando este artigo no próximo texto.
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