Eis um tema que, facilmente, defenderíamos que é de cunho científico, hoje em dia: o universo existe desde sempre, ou teve uma origem em algum momento? De fato, o atual paradigma científico parece tender a admitir um evento instaurador, que foi chamado meio ironicamente de “Big Bang”. No entanto, alguns cientistas querem defender que, na verdade, o Big Bang não é o início do conjunto total das cisas existentes, mas apenas uma etapa de um universo eterno que expande e contrai eternamente, numa sucessão infinita de “Big Bangs” que dão origem a uma sucessão infinita de universos que, por seu turno, expandem-se e contraem-se, e assim por diante. Outros, ainda, defendem que o nosso universo é apenas um dentre todos os multiversos possíveis, originados de inúmeros Big Bangs simultâneos ou sucessivos, mas cada um destes multiversos seria estanque com relação a todos os outros, e, portanto, presos em um deles, jamais teríamos condições de conhecer qualquer outro. Temos que convir, no entanto, que falar de “outros universos” que são absolutamente incognoscíveis a nós por definição não é ciência, mas um ato da mais pura crendice. Nem sequer é um ato de fé, porque a fé, como já vimos em nossos textos anteriores, supera a razão, mas não a despreza nem a contradiz. Definir, independentemente inclusive de qualquer revelação minimamente consistente, a existência de algo que por sua própria definição a razão humana não pode nem sequer conhecer, portanto, não é fé; é crendice. Está além da possibilidade da ciência, mas está além da possibilidade da filosofia e da própria teologia. Talvez esteja melhor situado no campo dos contos de fada. Mas voltemos ao artigo.

A hipótese controvertida, proposta aqui para provocar o debate, é a de que o universo não começou, mas existiu eternamente. Neste ponto, devemos lembrar de algumas coisas: primeiro, já sabemos que a eternidade, para Tomás, não é simplesmente um tempo que dura para sempre, mas a posse simultânea de uma vida plena. Qualitativamente diversa, portanto, a eternidade do tempo. Nós, humanos, somos do tempo, mas podemos, por graça, participar da eternidade. Deus é eterno, e por isto é senhor do tempo. Segundo, Deus está na história, participa dela, ele a governa, mas não se submete a ela. Ele tem outro plano de existência: não é uma coisa entre as coisas. Destes dois fundamentos, podemos ver como esta discussão é importante. É tão importante que este artigo tem nada menos do que dez argumentos objetores, que nos darão um certo trabalho para enfrentar. Vamos a eles.

O primeiro argumento procura negar que o universo tenha um começo pela construção de um raciocínio que reduza ao absurdo a ideia de um começo para o cosmos. Tudo o que existe, diz o argumento, existe porque é possível que exista. Se fosse impossível que alguma coisa existisse, ela não existiria. Portanto, as coisas com as quais nos deparamos foram possíveis, antes de efetivamente existirem, prossegue. Mas há algo cuja definição é exatamente a da pluripossibilidade para a existência – é a matéria, mais especificamente a matéria-prima. Logo, se todas as coisas são possíveis antes mesmo de existirem, isto significa dizer que todas elas foram matéria-prima antes de serem efetivamente existentes em ato. Mas a matéria-prima, diz o argumento, não existe por si mesma: sendo plena possibilidade, plenipotente, ela não pode conter em si nenhum ato, logo ela é plena não-existência atual. Portanto, ela só existe se estiver associada a alguma forma, que vem a ser corrompida para que a matéria-prima possibilite a existência de outra coisa. Portanto, matéria e forma existiram antes que qualquer coisa possa existir. Ora, matéria e forma são exatamente as coisas que formam o universo, diz o argumento. Assim, para que nós afirmássemos que é possível que o universo exista, temos que admitir que ele tem que existir para que ele seja possível. Logo, conclui o argumento, o universo não pode ter tido um começo.

O segundo argumento parte da física de então, de raiz aristotélica. De acordo com a visão de universo que a ciência de então defendia, havia coisas incorruptíveis no universo, como os corpos supralunares, além dos seres de razão, incorpóreos, como os entes matemáticos. Ora, diz o argumento, aquilo que existe incorruptivelmente tem, em sua natureza, a característica do existir sempre, porque não está sujeito à corrupção, ao desgaste, à destruição. Nunca sai do ser, e, portanto, tampouco entra no ser – não está sujeito à geração. Mas as coisas que começam a existir não são incorruptíveis, porque agora são, mas um dia não foram. Assim, conclui o argumento, o fato de que há corpos incorruptíveis, e mesmo seres incorporais, provaria que o universo não teve um começo.

O terceiro argumento lembra que Aristóteles defendia que o céu não é gerado, ou seja, não começou a ser. Como também afirma expressamente que a matéria não é gerada. Assim, conclui o argumento, há suficiente base filosófica para provar que o universo, uma vez que contém o que é ingênito, como a matéria e o céu, tampouco tenha começado a existir.

O quarto argumento parte da ideia de vácuo. De fato, é difícil imaginar o nada que precederia o começo da existência do universo; concebe-se, então, este nada como aquilo em que não há, mas poderia haver, corpo. Ora, então, se imaginarmos um começo para o universo, teríamos que imaginar que ele foi precedido pelo vácuo, entendido como ali onde pode haver o corpo que não há. Mas se havia o vácuo antes que houvesse o universo, então não se pode dizer que, antes do começo era o nada, porque o vácuo é alguma coisa. Logo, admitir que o universo tivesse um começo, diz o argumento, é admitir que ele foi precedido por alguma coisa que possibilitou que ele viesse a ser, o que seria contraditório. Logo, o argumento conclui que o universo não poderia ter um começo.

O quinto argumento parte do movimento que existe no universo, as suas transformações. Se alguma coisa começa a ser transformada, diz o argumento, isto significa que ela é transformada por alguma coisa que já alcançou a transformação que agora provoca, e que age sobre alguma coisa que, antes de ser transformada, existe. Portanto, aquela coisa que age transformando existia antes, tendo sido transformada para atingir a capacidade de, por sua vez, transformar outras coisas que existem mas ainda não foram transformadas. Ora, a transformação, então, pressupõe uma dinâmica de preexistência e de potência, e portanto, aquilo que transforma foi transformado anteriormente; mas, se foi transformado, então significa que já existia e era capaz de transformação. Disso o argumento conclui que a existência da transformação demonstra que o universo não pode ter começado a existir, já que o movimento sempre pressupõe algo anterior, para ocorrer.

O sexto argumento parte da ideia das circunstâncias que devem estar presentes sempre que há uma modificação na realidade. Quando essa modificação é causada por alguma força natural, é preciso que estejam presentes as circunstâncias que desencadeiam este movimento natural; digamos, a percepção de uma presa enfraquecida desencadeia a ação do predador. No caso dos agentes voluntários, diz o argumento, ele é capaz de perceber se estão presentes as circunstâncias que desencadeiam o seu agir neste momento, ou se é necessário esperar por um momento mais favorável para agir; em todo caso, diz o argumento, se não houvesse a percepção das circunstâncias como favoráveis agora ou possivelmente favoráveis no futuro, a vontade não se moveria mais para agir hoje do que amanhã ou em qualquer momento. Mas se é assim, diz o argumento, é o movimento das circunstâncias que desencadeia o movimento da força natural ou da decisão voluntária. Ausente a modificação nas circunstâncias, não haveria estímulo ou razão para que o agente, natural ou voluntário, viesse a agir agora ou planejasse agir depois. Mas isto significa, diz o argumento, que o movimento natural ou a ação voluntária, para ocorrer, precisam que exista algum movimento ou atividade que as desencadeiem; portanto, há sempre movimentos que antecedem os movimentos. Disto o argumento conclui que o universo não pode ter tido um começo, já que não haveria um movimento que desencadeasse o movimento de criação, e portanto nada existiria.

O sétimo argumento objetor parte de uma construção curiosa: algo que está no início não está no fim, e algo que está no fim não está no início. Ora, diz o argumento, cada momento do tempo marca o início do futuro e o fim do passado. Então cada momento temporal sempre pressupõe um passado que acaba e um futuro que começa, e, por isto, seria inimaginável, diz o argumento, que o próprio tempo conhecesse um momento que não fosse, ele mesmo, o fim de um passado ou o início de um futuro. Logo, o argumento conclui que o tempo não pode ter início nem fim, já que cada momento é sempre início do futuro e fim do passado. E como o tempo marca o movimento físico, tampouco a matéria pode ter conhecido início ou pode conhecer fim, conclui.

O oitavo argumento parte da comparação entre o tempo do universo e a eternidade divina. Se a eternidade divina é diferente, em sua natureza mesma, do tempo do universo, eles não podem ser comparados quantitativamente, e portanto não se pode dizer que Deus é anterior ao universo; a eternidade de Deus, por relação, implicaria a duração eterna do universo, sem que as duas coisas se confundam. Mas se a diferença entre o tempo da criação e a eternidade de Deus é quantitativa, isto significaria admitir que, se Deus é anterior ao universo, então haveria um tempo de Deus anterior ao tempo do universo, ou seja, teríamos que admitir um tempo antes do tempo, o que seria contraditório. Logo, o argumento conclui que não se poderia defender que o universo, como conjunto da criação, tenha um início.

O nono argumento parte da noção de causalidade. Se alguma coisa causa outra, ela pode causar de maneira condicionada ou de maneira suficiente. De maneira condicionada quando, por exemplo, a semente precisa da chuva para brotar. Mas uma causa é suficiente quando não precisa de nada, quando tem em si todas as condições para produzir o efeito. As causas condicionadas são imperfeitas, portanto, diz o argumento. Mas Deus é causa do mundo; é causa eficiente, porque o cria. É causa final, porque ele é a bondade a qual todas as coisas tendem como a seu fim. E é causa exemplar, porque em sua sabedoria contém a razão de todas as coisas criadas. Ora, se Deus é causa suficiente do mundo, e ele é perfeito e eterno, nada o condiciona para criar o mundo; logo, se ele é perfeito e eterno, o mundo, como efeito da sua perfeição, deve ser eterno também; é o que conclui o argumento.

O décimo argumento parte da ideia de que agir, em Deus, não é um acidente. Ele age por sua essência mesma, ou seja, agir em Deus é substancial. Mas a substância de Deus é eterna. Então seu agir é eterno. Mas o universo é efeito do agir de Deus. Logo, conclui o argumento, o efeito, seguindo a causa, deve ser eterno também.

Como argumento sed contra, uma citação da Bíblia. Evangelho de João, capítulo 17, versículo 5. Diz Jesus: “Agora, pois, Pai, glorifica-me junto de ti, concedendo-me a glória que tive junto de ti, antes que o mundo fosse criado”. Ora, diz o argumento, Jesus fala da glória dele, que é eterna, em comparação com o mundo, registrando que a criação do mundo não é coeterna com a glória do Filho. O argumento cita ainda o Livro dos Provérbios (8, 22), em que a Sabedoria de Deus personificada declara: “O Senhor me criou, como primícia de suas obras, desde o princípio, antes do começo da terra”. A autoridade das Escrituras suporta, pois, diz o argumento, a afirmação de que a universo teve um começo.

No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás. Mas registremos, desde logo, como parece maravilhoso que São Tomás tenha construído sua resposta em discordância com os consensos científicos de sua época sobre a duração do universo, e principalmente em discordância com aquele que ele próprio chama de “O” filósofo, Aristóteles, e, no entanto, suas conclusões estejam em sintonia com o que a ciência do século 21 sabe a respeito do início do universo, e da natureza do espaço e do tempo como interligados com a própria existência do universo, ou seja, simultâneos a este. Curiosamente, foi um sacerdote católico, o Pe. Lemaître, que desenvolveu o paradigma científico do Big Bang (aliás, chamado assim pelos cientistas da época de modo um tanto arrogante, como se a teoria fosse apenas uma tentativa de reintroduzir o criacionismo bíblico na ciência. Não era. É mais do que uma hipótese: é uma teoria muito bem alicerçada na física e na matemática contemporâneas, e consensual, hoje, na Academia. No entanto, como Tomás nos ensinou, não devemos amarrar a teologia nos modelos científicos de um determinado momento, porque modelos científicos são, por definição, superáveis).