Eis o último artigo desta parte da Suma que procura aprofundar-se no nosso conhecimento teológico sobre Deus. É muito interessante que terminemos esta parte com a afirmação de que o verdadeiro conhecimento de Deus é o conhecimento amoroso, que santifica porque retifica o coração da criatura, e decorre, antes de mais nada, de uma missão do próprio Deus em nossos corações para fazer-se conhecido e amado por nós. Ou seja, se caminhamos adequadamente até aqui, e se agora conhecemos mesmo um pouco mais sobre Deus isto se deu porque ele esteve em nós e, de certa forma, encontra agora mais moradia em nós do que quando começamos.
Para terminar o nosso estudo sobre Deus, nós nos debruçamos, nesta última questão, sobre as chamadas “missões divinas“, pelas quais as Pessoas da Trindade são enviadas a nós, suas criaturas inteligentes, para, pela graça, habitar em nossos corações e mentes. Vimos quais Pessoas são enviadas, vimos em que consiste esse envio e vimos que existem missões visíveis e invisíveis também. A pergunta agora envolve descobrir quem envia.
Já vimos, em debates anteriores, que é próprio da missão que a Pessoa enviada seja uma Pessoa procedente. É por isto, já vimos, que o Pai nunca é enviado em missão; ele é ingênito, vale dizer, ele não procede de nenhuma outra Pessoa, e todas as outras Pessoas procedem dele. Ele é originário, as outras Pessoas são originadas. Ser uma Pessoa originada, portanto, é condição para ser enviada em missão. Mas surge agora uma pergunta: será que somente aquela Pessoa que origina a outra teria autoridade para enviá-la em missão? A pergunta vai envolver diretamente o Espírito Santo; ele procede do Pai e do Filho, mas não dá origem a nenhuma outra Pessoa. Assim, seria de se esperar que o Pai pudesse enviar o Filho e o Espírito Santo, e o Filho pudesse enviar o Espírito Santo, mas não pudesse enviar o Pai. O Espírito Santo, por sua vez, poderia ser enviado por qualquer uma das outras Pessoas, mas não poderia enviar ninguém. Esta é exatamente a hipótese controvertida proposta agora: parece que nenhuma Pessoa da Trindade pode ser enviada, senão por aquela outra da qual procede eternamente.
São três os argumentos objetores que tentam justificar esta hipótese controvertida inicial.
O primeiro argumento objetor lembra que o Pai não é enviado em missão, porque não procede de nenhuma outra Pessoa; e lembra que este é um ensinamento que conta com o respaldo do próprio Santo Agostinho. E disto o argumento conclui que, se o fato de ser procedente de outro é fundamental para ser enviado, então somente a Pessoa que origina pode enviar a que é originada.
O segundo argumento lembra que o envio pressupõe a autoridade de quem envia sobre quem é enviado. Autoridade, em matéria de Trindade, é algo que precisa ser muito bem compreendido. Numa realidade em que a igualdade de dignidade corresponde à unidade essencial divina, falar em autoridade entre as Pessoas da Trindade só pode significar que uma é “autora” da outra. Ou seja, fala-se em autoridade para significar a origem de cada Pessoa: aquela que origina é “autora” da originada, e por isso, e só por isso, tem “autoridade” sobre ela, inclusive para enviar em missão. Disso o argumento conclui que somente há missão quando a pessoa procedente é enviada pela Pessoa que a origina.
O terceiro argumento afirma que, se uma Pessoa da Trindade pode ser enviada por uma outra pessoa que não aquela que a origina, nada impediria que, por exemplo, uma pessoa humana enviasse uma Pessoa divina em missão. De fato, obviamente as Pessoas da Trindade não procedem dos seres humanos, mas se a origem, a procedência, não for o critério para o envio, então nada impediria, ao menos em tese, que uma pessoa não divina pudesse enviar uma Pessoa divina em missão. Mas, prossegue o argumento, o próprio Santo Agostinho expressamente exclui a possibilidade de que uma pessoa humana pudesse enviar uma Pessoa divina em missão. Logo, o argumento conclui que somente a Pessoa originante pode enviar a originada.
o argumento sed contra cita Isaías 48, 16, que registra: “Agora o Senhor Deus me enviou com seu Espírito“. E o argumento lê, nesta passagem, uma revelação de que o Espírito também envia a nós o Filho em missão. E conclui que uma Pessoa da Trindade pode ser enviada por uma outra pessoa que não aquela da qual procede.
Postos os termos do debate, São Tomás passa a oferecer a sua resposta sintetizadora. Na qual, curiosamente, ele não vai tomar posição em favor desta ou daquela resposta. Há várias opiniões sobre este assunto, diz Tomás; há quem defenda que uma Pessoa só pode ser comissionada por outra Pessoa da qual proceda; os que pensam assim defendem que, a rigor, o Espírito Santo, uma vez que nenhuma Pessoa procede dele, não pode enviar ninguém em missão. Estes, diz Tomás, interpretam as passagens nas quais as Escrituras mencionam que o Filho de Deus foi enviado pelo Espírito Santo como referindo-se apenas à natureza humana assumida pelo Filho na sua missão visível. Há uma outra opinião, diz Tomás, que, fundamentando-se em Santo Agostinho, defende que o elemento “ser procedente” refere-se apenas à capacidade de ser enviado, mas não à capacidade de enviar. Assim, segundo estes, apenas o Filho e o Espírito podem ser enviados em missão, mas qualquer Pessoa trinitária pode enviar.
As duas posições têm, a seu modo, um fundo de verdade, diz Tomás. Podemos falar de “Pessoa que envia” em dois sentidos: 1) como origem do envio e 2) como causa do efeito, visível ou invisível, da própria Missão.
Se encararmos a missão a partir de sua origem, diz Tomás, então temos que admitir que a Pessoa é enviada apenas por aquela da qual se origina. O Pai envia o Filho e o Espírito, porque ambos procedem dele. O Filho envia o Espírito; mas o Espírito, sob este ponto de vista, não envia ninguém.
Mas se tomarmos a expressão no sentido de causa do efeito da missão, então temos que admitir que é a Trindade que envia a Pessoa em missão; de fato, o efeito da missão é sempre a inabitação da Trindade na criatura destinatária. Neste caso, portanto, É a Trindade que envia, porque é a Trindade que, pela graça, vem habitar na alma humana.
É por isto, por causa do efeito da missão, que depende da graça santificante, que uma Pessoa divina jamais poderia ser enviada por uma criatura, mesmo por uma criatura, como o ser humano, que tenha dignidade pessoal. É que o efeito da missão só pode ser produzido em nós pela graça, e o ser humano jamais poderia ser a origem da graça necessária para que o efeito da missão ocorra. Por isto é que uma Pessoa divina só pode ser enviada por outra Pessoa divina, ainda que, neste último sentido (o envio para a inabitação trinitária) o envio envolva mesmo aquela Pessoa que não dá origem a outra, mas nunca por uma pessoa criatural – incapaz de produzir no destinatário a graça que é condição para o próprio sucesso da missão. Podemos rogar a Deus para que envie o Filho ou o Espírito, mas isto é apenas uma oração; trata-se de rezar pela conversão ou salvação, nossa ou do outro. Mas a nossa oração não é um envio, é apenas uma petição.
São Tomás uma vez que respondeu de um modo a harmonizar adequadamente as posições em debate, considera-se dispensado de enfrentar as objeções iniciais. Reconhece em cada uma delas, bem como no argumento sed contra, a dose de razão que lhes cabe, com as ressalvas que estabelece.
Seria interessante concluir com uma observação: o culto eucarístico, em que celebramos o mistério pascal que nos salvou pela missão trinitária que recebemos no Filho e no Espírito, veio a ser chamada de “missa”, exatamente a partir do nome latino que decorre do verbo “mitere”, quer dizer, enviar em missão. Como as Pessoas divinas são enviadas para nossa salvação, agora somos nós os enviados para a salvação de tantos. Assim como faz a Trindade, que é amor, devemos fazer nós, por amor.
Eis que terminamos o chamado “Tratado sobre Deus”, três anos e três meses depois de iniciar este blog, com quatrocentos e vinte e quatro textos, que somam aproximadamente novecentas páginas digitadas. Se você chegou até aqui, pode deixar abaixo o seu “curti”.
8 de outubro de 2021 at 12:10
Obrigado pelo dom de sua vida .
Que Deus lhe abençoe ricamente.
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8 de outubro de 2021 at 15:52
Amém! A ti também!!
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