Já sabemos, pois, em que sentido podemos dizer que “dom” é um nome próprio de Pessoa trinitária, em Deus. Este artigo quer descobrir a qual pessoa ele se refere. A hipótese controvertida é a de que ele não se refere ao Espírito Santo.

São três os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento é bíblico. Após definir “dom” como “aquilo que é dado”, o argumento busca uma citação de Isaías (9, 6), em que o profeta anuncia que “um filho nos foi dado”. Desta passagem, o argumento conclui que o Filho também é um dom para nós; logo, conclui o argumento, ser “dom” tanto seria próprio do Espírito Santo quanto do Filho.

O segundo argumento afirma que tudo aquilo que pode propriamente nomear uma Pessoa trinitária representa alguma propriedade desta Pessoa. Mas a noção de “dom” não descreveria, diz o argumento, nenhuma propriedade do Espírito Santo. Logo, o argumento conclui que não é um nome próprio do Espírito Santo.

O terceiro argumento lembra de um debate que foi realizado na questão 36, artigo 1, no qual ficou estabelecido que, do mesmo modo que nós, humanos, podemos chamar o Pai de “Pai nosso”, também podemos chamar o Espírito Santo de “Espírito nosso”. Mas, se podemos chamá-lo de “Espírito nosso”, e se os nomes próprios das Pessoas divinas podem ser intercambiados livremente, poderíamos chamá-lo de “Dom nosso”? Ele estaria à nossa disposição para que nós, qualquer um de nós, humanos, pudesse doá-lo a alguém? O argumento conclui que não. O Espírito Santo, prossegue o argumento, é, propriamente, dom do Pai, que pode doá-lo a quem quiser, mas não é um dom nosso, porque não podemos doá-lo a quem quisermos. Logo, o argumento conclui que “dom” não é nome próprio do Espírito Santo.

Como argumento sed contra, uma citação de Santo Agostinho, na qual ele lembra que, do mesmo modo que chamamos o Filho de “nascido” por proceder do Pai, também chamamos o Espírito Santo de “Dom de Deus” por proceder do Pai e do Filho. Ora, se chamá-lo de “dom” decorre do fato de que ele procede do Pai e do Filho, e se proceder do Pai e do Filho é o que caracteriza propriamente o Espírito Santo, então “dom” é um nome próprio da pessoa do Espírito Santo, conclui o argumento.

São Tomás passa a nos oferecer a sua resposta sintetizadora. E começa logo afirmando que “dom” é nome próprio do Espírito Santo.

O que é um dom? É o que nos pergunta São Tomás, logo no início de sua resposta. Um dom é aquilo que se dá, que não se vende, que não se negocia. O dom, diz São Tomás, citando Aristóteles, existe para ser presenteado, ele é gratuito, não espera retorno. A lógica do dom é a lógica contrária à da mercancia. Ela é contrária à própria lógica da justiça, entendida como a proporção equânime entre dois interesses contrapostos. Na lógica do dom não há contrapartida, não há contraprestação. Um lado dá alguma coisa ao outro lado simplesmente porque quer-lhe o bem, quer enriquecê-lo, sem esperar nada de volta. Ou seja, o dom fundamenta-se no puro amor.

Mas, diz São Tomás, quando damos alguma coisa a alguém por amor, é porque queremos o bem deste que recebe o nosso presente. E, quando queremos o bem de outro, é porque o amamos. Assim, antes mesmo de dar-lhe algum presente, é preciso que, primeiro, tenhamos dado a ele o próprio amor com que o amamos.

Ora, diz São Tomás, então o primeiro dom é o próprio amor, que lastreia e fundamenta todos os outros dons. Ocorre que, se o Espírito Santo procede como Amor, ele necessariamente é o primeiro dom, pelo qual todos os outros dons são entregues. Lembremos sempre que “primeiro”, aqui, não tem simplesmente o sentido cronológico, de vir antes de todos os outros dons; tem o sentido lógico mesmo, de ser fundamento de todos os dons.

Com isto, acrescentamos, vê-se que São Tomás põe a gratuidade como uma característica estrutural em Deus e, portanto, como característica fundante da própria criação. A gratuidade, e não o comércio, revela-nos quem somos de verdade. Isto mostra quão longe está o pensamento de Tomás dos mercantilismos e dos materialismos, capitalistas ou socialistas, da nossa contemporaneidade – que não sabe pensar a realidade senão a partir da noção econômica de comércio. A troca, a justiça, o dinheiro, a produção, a venda, tudo isto existe e é bom, mas a doação, o amor, a gratuidade são muito mais fundamentais. Arraigam-se em Deus mesmo.

Para concluir seu raciocínio, São Tomás traz uma citação de Santo Agostinho, no mesmo sentido do que ele acaba de expor: é pelo dom, que é o próprio Espírito Santo, que os muitos dons específicos são distribuídos entre os Membros de Cristo!

Posto isto, São Tomás passa a responder às objeções iniciais.

A primeira objeção cita Isaías (9, 6) para afirmar que o Filho é o dom de Deus para nós, e não o Espírito Santo.

A resposta de São Tomás deve ser lida com muita atenção, porque é uma aula de teologia trinitária.

As Pessoas Trinitárias guardam entre si características semelhantes; por isto, devemos lidar com cuidado com estas características. Tomemos como exemplo a noção de “Imagem”, que estudamos na questão 35.

O Filho, diz São Tomás, procede do Pai como Palavra, pelo modo intelectual. Assim, cabe a ele, de modo próprio, ser chamado de “Imagem” do Pai. Mas com isto não se pode ignorar que o Espírito Santo, que procede como Amor, não guarde em si a imagem do Pai. Mas esta não é uma característica própria do Espírito Santo, não é algo central nele como é no Filho – que, por ser palavra, tem em si o ser Imagem como próprio.

O Espírito Santo, por outro lado, procede do Pai e do Filho como Amor. Ora, como vimos na resposta sintetizadora, o Amor é o dom fundante, é o primeiro dom, que desencadeia todos os outros. Assim, embora o Filho realmente nos seja dado, como demonstra a passagem bíblica citada, ele nos é dado porque Deus nos ama. E São Tomás cita aqui a passagem de João 3, 16: “Deus tanto amou o mundo que deu seu Filho único”. Logo, é pelo Espírito Santo que o Filho é dom, o que equivale a dizer que ser Dom não é central para o Filho como é para o Espírito Santo, e é por causa do dom do Amor que Deus nos faz o dom do Filho. É por isto que “Dom” é nome próprio do Espírito Santo e, a rigor, não é nome próprio do Filho.

O segundo argumento objetor lembra que, para que uma noção seja um “nome próprio” de Pessoa trinitária, deve descrever alguma característica, alguma propriedade da respectiva pessoa. Mas, diz o argumento, a noção de “dom” não descreveria uma propriedade do Espírito Santo.

Não é assim, diz São Tomás. Como vimos no debate do artigo anterior, ser dom é ser de alguém, de tal modo a estar apto a ser doado. O Espírito Santo é do Pai e do Filho no sentido de ter se originado deles. Assim, está apto a ser doado por eles, em razão da sua processão mesma. Logo, São Tomás conclui que “dom” é nome próprio do Espírito Santo.

O terceiro argumento lembra que, se nós humanos podemos chamar o Espírito Santo de “Espírito nosso”, então, se ser “dom” é nome próprio dele, ele deveria estar disponível para que nós o doássemos a quem quiséssemos; como não está, então ser “dom” não é nome próprio do Espírito Santo, conclui o argumento.

São Tomás vai fazer uma distinção para tornar a discussão mais precisa; aquilo que é dom pertence ao doador até ser doado. Somente depois de doado ele passa à posse do receptor. Por isto, quando chamamos o Espírito Santo de “dom”, estamos designando a sua capacidade intrínseca de ser doado, mesmo antes que existissem seres humanos. Assim, somente quando Deus doa o seu Espírito aos seres humanos é que ele passa a ser “Espírito nosso”; ser recebido, porém, não é propriedade do Espírito como o é ser doado.