Já vimos que “Amor” é um nome pessoal, e é o nome pessoal do Espírito Santo, ou seja, trata-se de uma palavra capaz de nomear um aspecto central da pessoa do Espírito Santo. A discussão segue agora na mesma linha, e vai examinar a noção de “Dom”, em Deus. Esta é uma discussão muito relevante: há alguma coisa em Deus que ele nos possa dar, alguma doação que ele possa fazer a nós? E que doação é esta?

Na sua infinita bondade, Deus reservou aquilo que ele tem de mais precioso, de mais excelente, para nos doar: ele mesmo. Mas em que sentido podemos dizer que Deus quer dar-se a nós? Que dom é este que Deus tem para nos dar? Será este dom, em Deus, uma realidade essencial ou uma realidade pessoal na Trindade? O que Deus tem para nos dar?

Se Deus quer doar-se a nós, podemos imaginar que ele se doa a nós do mesmo jeito que nos cria: ele doa a sua própria essência. Assim, o que Deus tem para nos dar, parece, não é uma Pessoa divina, mas sua própria essência. Esta é a hipótese controvertida que São Tomás nos apresenta agora, para provocar o debate: a noção de dom, ou seja, o presente que Deus tem para dar não é uma noção pessoal, em Deus, mas uma noção essencial. E ele junta quatro argumentos em favor desta hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento parte da ideia de que toda noção pessoal, em Deus, envolve algum tipo de distinção, de diferenciação pela origem. Mas a noção de “dom”, como aquilo que é apto para ser presenteado, não implica nenhuma distinção, nenhuma diferenciação, em Deus. E o argumento cita Santo Agostinho, que diz que o Espírito Santo é dado como dom de Deus, e é dado como Deus. Ora, se ele é dado como Deus, isto significa que Deus se dá por sua unidade essencial, como um todo, e não por alguma Pessoa trinitária. E disto o argumento conclui que “Dom” não é um nome de realidade pessoal, em Deus.

O segundo argumento lembra que a essência divina não se constitui em pessoa, em nenhuma hipótese. Ela é uma realidade divina unitária, não pessoal. Mas, prossegue o argumento, o pai, sendo ingênito, doa ao Filho, ao gerá-lo, a essência divina que compartilham. Ora, conclui o argumento, se a essência divina é um dom do Pai para o Filho, então a noção de “Dom”, em Deus, não nomeia uma realidade pessoal.

O terceiro argumento parte da afirmação muito justa de que, entre as pessoas divinas, não há lugar para hierarquias, submissões ou poder de domínio. Mas se houvesse uma Pessoa que pudesse ser chamada de “Dom”, teríamos que admitir que ela estaria à disposição de um doador, submetida a ele para ser doada, e, uma vez presenteada, cairia sob o domínio daquele que recebesse o presente. Assim, seria impensável que houvesse uma realidade pessoal, na Trindade, que pudesse propriamente ser chamada de “dom”.

Por fim, o quarto argumento parte da ideia de que, se uma Pessoa divina pudesse ser propriamente chamada de “dom”, ela o seria por poder ser presenteada àquilo que não é divino, ou seja, às criaturas. Mas as criaturas não são eternas, mas temporais. Logo, a noção de “dom” não designaria uma relação eterna em Deus, senão apenas uma relação temporal, com as criaturas. Mas relações temporais não podem constituir uma Pessoa divina, que é eterna por definição. Assim, o argumento conclui que “Dom” não pode ser nome próprio de uma Pessoa divina.

Como argumento sed contra, uma citação de Santo Agostinho: assim como o corpo das criaturas carnais não é outra coisa senão a própria carne do corpo, do mesmo modo o dom do Espírito Santo nada mais é do que o próprio Espírito Santo. Se o Espírito Santo, sendo pessoa trinitária, é o próprio dom, então há que se concluir que “Dom” é um nome próprio do Espírito Santo.

Colocados assim os termos do debate, São Tomás passa à sua resposta sintetizadora.

Ele começa logo definindo o que significa a palavra “dom”. Ela significa, diz São Tomás, uma aptidão para ser dado, para ser presenteado. Assim, quando eu digo que alguma coisa é um “dom”, estou dizendo que é próprio dela estar pronta a ser dada em presente a alguém. Assim, diz ele, há uma dupla relação, que é própria de todo dom: 1) uma relação com quem e 2) uma relação com quem recebe. De fato, por um lado, ninguém pode dar aquilo que não é seu; por outro lado, aquele que dá, dá para que o presenteado possa se apossar, receber o presente, o dom, que passa a ser seu.

Ora, diz São Tomás, como poderíamos dizer que uma Pessoa divina é de outra? Pela origem, diz São Tomás; é neste sentido que o Filho é do Pai, porque origina-se no Pai, e que o Espírito Santo é do Pai e do Filho, porque origina-se deste abraço de amor entre os dois.

E em que sentido poderíamos dizer que uma Pessoa divina poderia ser recebida em presente, como dom, por alguém? Quem recebe este dom deve ter a capacidade de apossar-se dele, usufruir dele, tê-lo conscientemente como seu. Mas somente um ser inteligente, diz São Tomás, teria esta capacidade. Assim, o receptor deste presente deve necessariamente ser inteligente e livre, e deve necessariamente não ser divino por natureza (se o fosse, já seria conatural com o Espírito Santo, e não seria, portanto, um destinatário adequado de tal dom). Assim, o receptor perfeito do dom pessoal de Deus é a criatura inteligente que se une a Deus.

E quanto às criaturas não inteligentes? Elas podem, de fato, ser passivamente movidas pelas Pessoas da Trindade; mas não têm a capacidade de usufruir, de apossar-se delas para desfrutar seus efeitos maravilhosos. Não são, assim, destinatárias adequadas para tal dom.

As criaturas inteligentes, por outro lado, podem chegar a relacionar-se frutuosamente com Deus, participando da própria Trindade, ao conhecê-lo por seu Verbo, ao amá-lo por seu Dom. A criatura inteligente é, portanto, a destinatária adequada para o Dom de Deus. Esta capacidade, porém, não significa que a criatura inteligente possa chegar a Deus por suas próprias forças, que possa conhecê-lo por seus próprios esforços, que possa amá-lo por seu próprio amor. O amor de Deus é um Dom, não uma recompensa. É dado do alto àqueles que Deus quer. Temos, é certo, a capacidade de recebê-la, mas nunca de conquistá-la. É exatamente isto que significa ser presenteado com um dom: significa ter alguma coisa como recebida de outrem! Eis uma contemplação muito bela de ser feita; a relação entre Deus e a criatura é uma relação de graça, não de conquista nem de negócio. Não é à toa que, em português, a expressão “de graça” designa algo que não custa dinheiro, que não é comprado nem trocado, mas simplesmente é dado. É por isto, por ter em si esta aptidão de ser dada, que a Pessoa do Amor, em Deus, pode ser propriamente chamada de “dom”.

Estabelecidos então os critérios, São Tomás passará a responder às objeções iniciais.

O primeiro argumento objetor parte da noção de que todo nome pessoal, na Trindade santa, envolve alguma distinção, diferenciação pela origem que não existiria no caso da noção de “dom”. Assim, este não poderia ser um nome pessoal, em Deus.

Mas São Tomás diz que há, na noção de “dom”, uma relação de origem capaz de representar uma distinção trinitária pessoal, ou seja, de constituir uma Pessoa divina. De fato, todo dom relaciona-se com alguém que é o doador, e que o possui originariamente. Ou seja, se disponho de alguma coisa para presentear quem quer que seja, eu tenho uma relação com este dom, com este presente, que é a relação de origem: sou eu quem, tendo-o, posso dá-lo a quem eu quiser.

É certo, diz São Tomás, que o Espírito Santo, tendo a dignidade de Pessoa, pertence a si mesmo; por isto, antes de mais nada, o Espírito Santo faz dom de si mesmo, porque é dono de si mesmo, capaz de fruir de si mesmo; Santo Agostinho costumava dizer que nada é mais teu do que tu mesmo. Isto se aplica ao dom de Deus, em sua pessoalidade: é livremente, é por dispor de si mesmo que ele se doa. Esta é uma lógica muito contrária, aliás, ao individualismo contemporâneo, que não consegue compreender a doação de si, mas, ao contrário, a autonomia tem sempre um sentido de autopossessão e de isolamento. Não é assim em Deus: ser dono de si, em Deus, é ser capaz de doar-se.

O dom, diz São Tomás, sempre é do doador. Mas há muitas maneiras de entender esta relação entre o dom e o doador. E esta distinção será essencial para que possamos compreender exatamente de que São Tomás está falando.

O primeiro sentido é aquele que foi mencionado no parágrafo anterior: a minha identidade pessoal, determinando que eu sou capaz de possuir a mim mesmo, me torna capaz de ser doador de mim mesmo. Este é o primeiro sentido de ser dom. Por identidade entre o doador e o dom. Neste caso, diz São Tomás, o dom não se distingue daquele que doa; distingue-se apenas daquele que o recebe. É neste sentido que podemos dizer que no matrimônio os noivos fazem o dom de si. Neste sentido, não se pode imaginar que a noção de “dom” designe uma realidade pessoal, em Deus. Não é como autodoação de Deus que se fala em Dom como pessoa divina.

O segundo sentido é quando o dom é algo diverso do próprio doador, diverso em essência mesmo. Neste caso, há, por parte do doador, uma relação de propriedade, ou dominialidade, com aquilo que é doável. Mas, neste caso, o dom tem que ter uma natureza diversa daquela do doador. E, portanto, quando algo é dom de Deus neste sentido, será sempre algo criado. É assim que reconhecemos, por exemplo, um milagre de cura, uma eventual ajuda material inesperada, ou até mesmo o dom de um cônjuge ou de um filho, tudo como dons de Deus; mas tampouco é neste sentido que se pode falar em Dom como nome próprio de uma Pessoa divina.

O terceiro sentido em que se pode falar de uma relação entre o dom e o doador é quando o dom é do doador porque originou-se nele. É neste sentido que um pai ou uma mãe podem referir-se a um filho como meu filho. Alguém é filho de outro porque originou-se dele, e é neste sentido que um pai pode, por exemplo, dar a mão da sua filha em casamento a um pretendente. O dom que ele faz da sua filha é um dom livre, pessoal, que envolve toda a dignidade da filha e a respeita, mas é um dom verdadeiro.

É neste exato sentido, diz São Tomás, que dizemos que, na Trindade, o Filho é do Pai, ou que o Espírito Santo é do Pai e do Filho. Há, aí, uma relação de origem que permite uma relação de doação. Ora, São Tomás nos lembra que as relações de origem, em Deus, fundamentam as realidades pessoais. Se podemos, portanto, identificar, no dom de Deus, um sentido em que há uma relação de origem entre o doador e o dom, então a noção de “dom” designa, realmente, neste caso, uma realidade pessoal em Deus.

O segundo argumento objetor lembra que o Pai doa a essência divina ao Filho, ao gerá-lo. Mas a essência divina, embora indiscutivelmente seja um dom do Pai para o Filho, não é uma realidade pessoal, em Deus. Assim, o argumento conclui que não se pode dizer que a noção de dom designe uma realidade pessoal, em Deus.

A resposta de São Tomás é simples; ele lembra que, na resposta à primeira questão, ele distinguiu três maneiras, ou seja, três sentidos pelos quais se pode entender a noção de dom, referida a Deus: 1) o dom de si mesmo, 2) o dom de algo que não é Deus mesmo e 3) o dom de uma Pessoa que se relaciona pela origem. Quando falamos, pois, que o Pai doa a essência divina ao Filho, estamos falando de “dom” no primeiro sentido, e não no terceiro, que é o sentido propriamente pessoal.

O terceiro argumento objetor afirma que tudo aquilo que alguém tem para dar a outro, ou seja, como dom, ele tem como proprietário, como algo que está submetido a si. Mas se houvesse uma pessoa trinitária que pudesse propriamente ser chamada de “dom”, então ela estaria submetida às outras, que poderiam doá-la a terceiros. Mas não pode haver hierarquia entre as pessoas trinitárias, diz o argumento. Logo, “dom” não pode ser um nome pessoal, em Deus.

A resposta de São Tomás volta àquela distinção entre os três sentidos da noção de “dom”. No terceiro sentido, aquele pelo qual a relação entre as pessoas é de origem, não há nenhuma sujeição envolvida; lembremos do exemplo do pai que dá a mão de sua filha ao noivo. Trata-se de uma relação interpessoal, que implica e envolve a dignidade e a liberdade dos envolvidos. A doação, porém, é real, diz São Tomás, e implica verdadeira recepção do dom por parte do destinatário. Assim como o noivo recebe efetivamente a noiva, para com ela viver a nova situação de casados, também aquela criatura que recebe o Espírito Santo, dom de Deus, recebe-a verdadeiramente, para usufruir do amor de Deus em sua vida.

Por fim, a quarta objeção afirma que, se houvesse uma Pessoa divina que pudesse propriamente ser chamada de Dom, ela o seria por poder ser doada por Deus, e neste caso o receptor teria que ser diverso do próprio Deus, ou seja, seria necessariamente uma criatura. Mas as criaturas não existem eternamente; nem mesmo a criação como um todo. Portanto, o “dom” seria uma realidade temporal, não eterna, e portanto não poderia ser algo divino. Assim, conclui o argumento, não haveria a possibilidade de haver uma realidade pessoal, em Deus, que pudesse ser chamada propriamente de “dom”. Outrossim, diz o argumento, tudo que, em Deus, tem relação com as criaturas, é essencial, não pessoal. Logo, se o dom de Deus é para as criaturas, ele tem que ser uma característica essencial, e não pessoal, de Deus.

São Tomás mais uma vez vai fazer uma correção que muda tudo; ele afirma que a noção de “dom”, no sentido de algo a ser presenteado, não designa algo que efetivamente foi presenteado, mas algo que existe para sê-lo, ainda que o destinatário não exista então. Assim, existindo um doador e existindo aquilo que será presenteado, existe o dom, embora ainda não exista a própria doação. É fácil imaginar isto, quando pensamos, por exemplo, num casal recém-casado que, antes mesmo de uma gravidez, já comprou uma casa com um quarto adequado para a sua prole. O quarto é um dom para um destinatário (a prole) que não tem a existência atual. Analogicamente, dizemos que o Espírito Santo é um dom, desde a eternidade, para as criaturas que existirão no tempo.

Como último esclarecimento, São Tomás diz que não existe nenhuma evidência de que Deus se relacione com as criaturas apenas essencialmente, nunca pessoalmente; em todo caso, diz ele, a relação de Deus com as criaturas sempre envolve a essência divina, isto é certo. Mas as pessoas da Trindade são unas na essência divina, e por isto nada impediria que houvesse relação entre as criaturas e as Pessoas. Na verdade, diríamos, não se pode separar a essência da pessoalidade, em Deus. Deus é trinitário em sua unidade, e uno em sua trindade. É o que veremos quando estudarmos a questão 39.