A discussão, aqui, como vimos nos textos anteriores, é a de saber se podemos afirmar que o Pai e o Filho amam-se pelo Espírito Santo. Vimos no texto anterior, estudando a resposta sintetizadora de São Tomás, que há um sentido em que esta proposição é falsa; é quando se lê a preposição “pelo” como indicando origem, fonte; de fato, é o amor essencial de Deus que explica, como fonte, o amor do Pai pelo Filho. Mas há um sentido em que a proposição é verdadeira: o fruto do amor do Pai e do Filho é o Espírito santo, ou seja, ao amarem-se eles o fazem espirando o Espírito. Neste sentido, não há outro amor entre o pai e o Filho senão o Espírito Santo.

Com isto em mente, enfrentamos agora, sempre guiados por São Tomás, as hipóteses controvertidas iniciais e suas respectivas respostas.

O primeiro argumento lembra que Santo Agostinho prova que o Pai não é sábio pela Sabedoria Gerada, que é o Filho. O Pai é sábio por sua própria essência, e a pessoa do filho é a sabedoria do pai que se relaciona com sua origem. Assim, como o Filho, que é a Sabedoria procedente, o Espírito santo é o Amor procedente. Mas, seguindo a analogia, diz o argumento, se o Pai não é sábio pelo filho, então, conclui o argumento, também não se poderia dizer que ele ama pelo Espírito.

São Tomás vai responder que “ser sábio” ou “ser inteligente” são afirmações que descrevem um aspecto da própria essência de Deus; assim, não seria adequado dizer que o Pai é sábio (ou inteligente) pelo Filho. É certo que o Filho é gerado como imagem pela inteligência do Pai, mas a própria inteligência não os opõe entre si, logo continua sendo essencial.

No caso do amor de Deus, porém, ele pode ser afirmado de Deus como essência; de fato, a essência de Deus é o amor. Mas o exercício do amor, em Deus, é, em si mesmo, uma noção trinitária: quando o Pai e o Filho impulsionam-se pelo amor, geram, neste mesmo movimento, o Espírito Santo. Vale dizer, não há, em Deus, como amar sem espirar, e não há como espirar sem provocar a processão do Espírito. Assim, é neste sentido que o Pai e o Filho amam-se pelo Espírito Santo.

O segundo argumento tenta exatamente desconstruir que a proposição “o Pai e o Filho amam-se pelo Espírito Santo” possa ser verdadeira em qualquer sentido. O argumento diz que, se entendermos a proposição em sentido essencial, ela seria falsa, porque, se admitíssemos que o Pai ama pelo Espírito, teríamos que admitir que ele intelige pelo Filho, o que não é verdade. Por outro lado, se a tomássemos como verdadeira a proposição em sentido nocional, teríamos que afirmar que o Pai espira pelo Espírito Santo e gera pelo Filho, o que seria falso também. E assim o argumento nega que esta proposição possa ser verdadeira em qualquer sentido.

São Tomás responderá com uma explicação linguística bastante precisa. Para descrever as ações, diz São Tomás, há que se atentar na relação da ação com o efeito. Quando eu digo, por exemplo, que uma árvore está florida, eu digo isto em razão das flores que foram produzidas, e neste caso falo do efeito, mais do que a ação de chegar a ele. Mas se eu disser que a árvore floresce, eu não estou descrevendo o efeito, que são as flores, mas a capacidade, o ato de florescer. Neste caso, não posso dizer que a árvore floresce pelas flores, porque ela floresce por sua essência de árvore, não pelas próprias flores. Assim, não posso dizer que é pelas flores que a árvore produz flores, mas pelo fato de que tem raiz, caule, tronco, folhas, os nutrientes e a iluminação adequados.

Aplicando isto a Deus, diz São Tomás, eu nunca posso dizer que o Pai gera pelo Filho, nem que espira pelo Espírito, no sentido de dizer que a geração pressupõe logicamente a própria Pessoa que ela gera, ou que a espiração pressupõe a Pessoa espirada. O próprio ato nocional, então, como aptidão, como espiração ou geração, é o pressuposto lógico do seu efeito, não pode ser nomeado a partir do seu efeito.

Mas, prossegue ele, eu posso afirmar que o Pai se expressa pelo seu Verbo, ou seja, que ele diz pela sua Palavra, quando quero afirmar que o efeito do ato nocional é a Pessoa procedente dele. Do mesmo modo, neste sentido, posso dizer que o Pai e o Filho amam-se pela Pessoa do Amor, que é o Espírito Santo. Portanto, no sentido nocional, a proposição é verdadeira quando nomeia o ato nocional pelo seu efeito, como vimos no texto anterior, em que estudamos a resposta sintetizadora de São Tomás.

A terceira objeção afirma que o Pai se ama, ama-nos e ao Filho pelo mesmo amor. Não há dois tipos de amor, nem dois modos de amar, em Deus. Assim, prossegue o argumento, o Pai não poderia amar a si mesmo pelo Espírito Santo, porque, se tomamos o verbo “amar’ como um ato nocional – (ou seja, um ato que caracteriza uma pessoa divina) se admitíssemos que o Pai ama a si mesmo pelo Espírito Santo, teríamos que admitir que o Pai espira a si mesmo, o que seria um absurdo, como se disséssemos que ele gera a si mesmo. Nenhum ato nocional pode refletir-se sobre o princípio deste mesmo ato, diz o argumento.

Mas tampouco poderíamos admitir que o Pai nos ama pelo Espírito Santo, porque a relação com a criatura é sempre da essência divina (do mesmo modo que é Deus, por sua essência, que nos cria, diz o argumento, então é por sua essência que nos ama). Assim, se o Pai não ama a si mesmo pelo Espírito santo, e não ama a criatura pelo Espírito Santo, e se há apenas um amor em deus, com o qual ama tudo o que ama, então não se poderia admitir que ele e o Filho se amassem pelo espírito Santo e nos amasse (e a si mesmo) pela essência. Assim, o argumento conclui que o Pai e o Filho não se amam pelo Espírito Santo.

Ledo engano, diz São Tomás. É claro que, pelo Espírito Santo, Deus ama o Filho, ama a i mesmo e ama a nós. Se não há dois amores em Deus, não há, nele, amor que não faça proceder o Espírito Santo. De fato, diz Tomás, ao conhecer-se, deus gera o Filho, e é no filho que Deus se conhece e, conhecendo-se, conhece todas as criaturas, porque elas estavam em Deus desde toda a eternidade. Tudo o que Deus conhece, conhece pelo Verbo gerado.

Assim também, analogicamente, ocorre com a pessoa do Amor. Quando Deus ama (no sentido nocional de amar; não simplesmente na sua aptidão, mas na sua dinâmica), isto importa necessariamente a espiração da Pessoa do Amor; e nesta Pessoa está contida o amor do Pai por si, no Filho (que reflete inteiramente o Pai) e o amor deles por toda criatura, que neles tem sua fonte muito antes de serem criadas. É como dinâmica de todo o amor divino que o Espírito Santo é o amor do Pai por si e pelo Filho, e nele por toda a criação. Se o Filho contém (ou melhor, ele é) todo o logos, o Espírito é todo o amor.

E é também todo o dom. Mas trataremos disto na próxima questão.