Já debatemos, no artigo anterior, os motivos pelos quais podemos afirmar que o Espírito Santo procede do Filho. A questão agora é discutir como isto se dá, ou seja, como podemos conceber que ele proceda do Pai e do Filho. A hipótese controvertida, aqui, é de que isto não ocorre sob uma determinada ordem, a ordem que vem do Pai para o Filho. Assim, a hipótese controvertida é a de que ele não procede do Pai pelo Filho.

São quatro os argumentos objetores aqui.

O primeiro argumento questiona a própria ordem de processão proposta. Ele afirma que se algo procede de outro por meio de um terceiro, esta processão não é imediata, mas intermediada, o que parece absurdo. E disto o argumento conclui que não se pode dizer que o Espírito Santo procede do Pai pelo Filho.

O segundo argumento objetor afirma que, se afirmarmos que o Espírito Santo procede do Pai pelo Filho, estamos dizendo que o Pai é a causa da processão do Espírito através do Filho. Ora, prossegue o argumento, aquilo que é causa é o mais importante para explicar o que acontece. Logo, o argumento conclui que, se afirmarmos que o Espírito procede do Pai pelo Filho, afirmamos, na verdade, que ele procede mais propriamente do Pai do que do Filho.

O terceiro argumento lembra que o Filho é gerado, isto é, recebe o ser do Pai. Se admitíssemos, diz o argumento, que o Espírito santo procede do Pai pelo Filho, teríamos que admitir que ele é posterior ao Filho, já que a geração do Filho teria que ocorrer primeiro, para que a processão do Espírito Santo ocorra. Neste caso, estaríamos admitindo que o Espírito Santo não é coeterno com as outras Pessoas, o que seria uma conclusão herética. Assim, o argumento conclui que não podemos dizer que o Espírito Santo procede do Pai pelo Filho.

O último argumento parte de uma afirmação do campo da lógica: se digo que “a” age por meio de “b”, então esta afirmação é conversível, isto é, posso dizer que “b” age por meio de “a”. E o argumento dá um exemplo: se digo que o Rei age por meio de um súdito, então necessariamente posso dizer que o súdito age por meio do rei. Assim, se eu afirmasse que o Espírito Santo procede do Pai pelo Filho, necessariamente eu deveria poder dizer que o Espírito Santo procede do Filho, pelo Pai. Mas, conclui o argumento, não é nem cogitável que o Filho espire o Espírito Santo pelo Pai. Assim, não se poderia dizer também que o Pai o espire pelo Filho.

O argumento sed contra cita Santo Hilário, que, escrevendo sobre a Trindade, pede em oração que Deus guarde esta confissão de fé que faz: pede que sempre possua o Pai, a quem se dirige, e que possa adorar junto também o Filho. E que mereça o seu Santo Espírito, que vem do Pai pelo seu Unigênito. E nesta citação o argumento acha fundamento para defender que o Espírito procede do Pai pelo Filho.

Em sua resposta sintetizadora, São Tomás vai nos dar uma lição sobre o uso da preposição “por”; quando se diz que alguém opera “por” outro, explica ele, a preposição “por”, com relação ao seu complemento (por alguma coisa) significa que esta “alguma coisa” é causa ou princípio daquele ato. Mas há dois sentidos básicos em que as coisas são assim.

O primeiro sentido ocorre quando a preposição “por” aplica-se à causa da ação, quando realizada pelo próprio agente que é o sujeito da frase. Assim, a preposição “por” pode significar a causa final (quando dizemos, por exemplo, que um artesão age por vontade de ganhar dinheiro); a causa formal (quando dizemos, por exemplo, que ele age por sua experiência e habilidade artística); ou, finalmente, a causa motora, quando dizemos que ele age por ordem de alguém que o contratou. O sentido, aqui, é de explicar o porquê da ação em debate.

Mas há um outro sentido para a preposição “por”; é o sentido de causa instrumental, em que o poder de agir está no sujeito, mas o instrumento é o meio pelo qual ele exerce sua causalidade no produto da sua ação. Trata-se, aqui, de explicar o “como” da ação. É o caso, por exemplo, quando dizemos que o artesão agiu por seu martelo. Neste caso, não é o martelo que age; o martelo apenas recebe seu poder causal do artesão, transmitindo-o até o produto final. Também neste sentido é que se pode falar de uma causa instrumental inteligente, que recebe sua autoridade de outro. É quando dizemos que o ministro age pelo rei, caso em que a preposição “por” significa indiretamente a autoridade do rei, que causa a autoridade do Ministro para agir, ou quando dizemos que o Rei age pelo Ministro, caso em que a preposição refere-se diretamente à autoridade do Rei e indiretamente à autoridade do Ministro, que somente tem poder de agir porque o recebeu do rei.

Ora, diz São Tomás, feitas estas distinções, podemos entender melhor o que queremos dizer quando afirmamos que o Espírito Santo procede do Pai pelo Filho. Sabemos que o próprio fato de que o Filho tenha o poder de fazer proceder o Espírito Santo é algo que ele recebe do Pai. O Filho não tem nada de seu, salvo o fato de ser gerado. É neste sentido, portanto, que podemos dizer que o Espírito Santo procede do Pai pelo Filho – no sentido de que o poder de fazê-lo proceder é originário no Pai, originado no Filho, mas é exatamente o mesmo poder.

Apos esta explicação, São Tomás passa a enfrentar as objeções iniciais.

O primeiro argumento objetor parte da ideia de que, se o Espírito Santo procede do Pai pelo Filho, então o Filho é um mediador do Espírito Santo, e ele procede imediatamente apenas do Filho, mas apenas mediatamente, ou indiretamente, do Pai.

São Tomás responde dando uma aula sobre o próprio agir. Em qualquer agir, diz ele, há sempre dois elementos a serem considerados: o agente em sua individualidade concreta (que a Escolástica chama de supósito) e o poder para agir. Assim, diz São Tomás, tomemos o exemplo de uma tocha, que aquece e ilumina um ambiente. A tocha é o supósito que age, enquanto o seu fogo é o poder, a energia (energeia, potência ativa, capacidade de realizar trabalho) pela qual ela aquece e ilumina aquele ambiente. (a rigor, o exemplo de São Tomás aqui é um pouco diferente, já que ele considera sempre que o fogo é o supósito e o calor é o poder; mas esta era a ciência da época, e ele respeitava a ciência que se conhecia então). Assim, diz Tomás, sob o primeiro elemento, o “poder” ou “energia” para espirar o Espírito Santo, não se há de falar em nenhuma mediação. É pelo mesmo poder essencial que o Pai e o Filho espiram-no, já que este não é um ato que os oponha. Do mesmo modo que os dois inteligem pela mesma inteligência essencial, e os dois amam pelo mesmo amor essencial, os dois espiram a Terceira Pessoa por este único e mesmo amor com que amam e se amam.

Quanto ao outro elemento do agir, que é o supósito ou sujeito que age, precisamos lembrar que, embora o Pai e o Filho conheçam pela mesma inteligência e amem pelo mesmo amor, no entanto esta inteligência e este amor são originários no Pai, e gerados no Filho. Assim, parece claro que ele procede de modo imediato do Pai, que ama de maneira originante, ingênita, e mediatamente do filho, que recebe do Pai tudo o que é e todo o poder de agir. Para tentar ilustrar, São Tomás dá um exemplo que ele próprio, depois, ressalva como inadequado: Abel procede imediatamente de Adão, seu pai, se considerarmos a própria paternidade; mas procede apenas mediatamente, se considerarmos que Eva procedeu da costela de Adão e gerou Abel. De fato, o exemplo é muito impróprio, porque envolve toda a questão da materialidade da reprodução humana, mas ajuda a ilustrar o debate, ainda que toscamente.

O segundo argumento objetor alega que, se o Espírito santo procede do Pai pelo Filho, então estaríamos afirmando que o Pai é mais causa do Espírito Santo que o Filho, por ser a causa primeira. O que seria absurdo, porque geraria diferenças hierárquicas dentro da própria Trindade.

São Tomás volta a insistir que o poder de espirar não é distinto, na Trindade, entre o Pai e o Filho, como se tivessem duas vontades distintas, duas capacidades de amar diferentes. O Pai e o Filho amam com o mesmo amor divino, um só amor com que amam e se amam. Assim, é deste único e mesmo amor divino que procede o Espírito Santo; mas este amor está no Pai como originário, ingênito, e no Filho como recebido, gerado. Assim, embora a preposição “pelo” dê uma ideia de ordem (porque, de fato, a ordem existe), esta ordem não implica nenhuma hierarquia entre as Pessoas trinitárias.

O terceiro argumento objetor alega que, se o Espírito Santo procedesse do Pai pelo Filho, ele pressuporia a existência do Filho para poder proceder; assim, haveria um início para o Espírito Santo, e ele não seria coeterno com as outras Pessoas. Assim, o argumento conclui que não se pode propor que o Espírito Santo proceda do Pai pelo Filho sem cair em heresia.

Mas não é assim, diz São Tomás. Não se pode pensar na Trindade em termos temporais, como se o proceder das Pessoas Trinitárias fosse um evento do mundo material. A ordem das processões é lógica, não cronológica. Assim, os três são coeternos: não pode haver um Pai ali onde não há um Filho, e não pode haver amantes ali onde não há o Amor. Do mesmo jeito, pois, que o gerado e o gerador são coeternos, e o Pai não existia antes do Filho, também o Espírito Santo, sendo a impressão do amor comum da Trindade, é coeterno com seu princípio, o Pai e o Filho que o espiram.

A quarta objeção diz que a afirmação “‘A’ age por meio de ‘B’” tem que ser conversível com “‘B’ age por meio de ‘A’”. Mas, como não se pode dizer que o Espírito Santo procede do Filho pelo Pai, então tampouco deveria ser possível afirmar que ele procede do Pai pelo Filho.

São Tomás responde que é falso afirmar que “‘A’ age por meio de ‘B’” tem que ser conversível com “‘B’ age por meio de ‘A’”. De fato, ninguém afirmaria que, uma vez que o marceneiro age por meio do martelo, também o martelo age por meio do ferreiro. O martelo não age, e ponto. Mas nem por isto é falso dizer que o marceneiro age por meio do martelo. O martelo é um simples instrumento, e não age. Portanto, a proposição não pode ser conversível.

No caso de um agente que atua por meio de outro agente, a situação é um pouco diferente, diz Tomás. Quando dizemos que o Rei age por seu ministro, não podemos perder de vista que o ministro também é um agente, senhor dos seus atos, e que, portanto, não é um mero instrumento nas mãos do Rei.

No caso do ministro que age, portanto, temos dois sujeitos agentes e dois poderes de agir; assim, quanto aos sujeitos, dizemos que o Rei age pelo ministro, porque o ministro é o meio pelo qual o Rei age. Mas, quanto ao poder de agir, dizemos propriamente que o ministro age pelo Rei, já que é por causa do poder do Rei que o agir do ministro se torna eficaz.

No caso da Trindade, o poder de agir é o mesmo; não há dois amores em Deus. Mas os agentes são diversos, o gerador (Pai) e o gerado (Filho). Assim, por causa da ordem de origem das Pessoas divinas, devemos sempre dizer que o Espírito procede do Pai pelo Filho, e nunca o contrário. Não há nenhum problema aí, diz São Tomás.