O debate foi posto, nos textos anteriores; trata-se de saber se o Espírito Santo procede ou não do Filho. Vimos que a hipótese controvertida parte da ideia de que ele não procede do Filho, e vimos a resposta sintetizadora de São Tomás, que oferece razões suficientes e cogentes para admitirmos que ele, de fato, procede do Filho.
Agora, São Tomás enfrentará, um por um, os sete argumentos objetores colocados no início do debate, com os critérios estabelecidos em sua resposta sintetizadora.
O primeiro argumento, como nos lembramos, diz que as Sagradas Escrituras jamais fazem qualquer alusão expressa ao fato de que o Espírito Santo procedesse do Filho, e, por isto, tampouco podemos fazer uma afirmação como esta.
São Tomás admite que não podemos falar de Deus senão mantendo atenção ao que está nas Escrituras; mas há duas maneiras pelas quais alguma coisa, algum fato, pode estar nas Escrituras: pela letra ou pelo sentido. E, se podemos admitir que não há, nas Escrituras, nenhuma afirmação expressa, literal, de que o Espírito procede do Filho, não é menos certo que, pelo sentido, esta afirmação é completamente harmônica com a Bíblia. E São Tomás lembra que no Evangelho de João , Jesus, o Filho, faz a seguinte afirmação sobre o Espírito Santo (16, 14): “Ele me glorificará, porque receberá do que é meu, para vo-lo anunciar”. E São tomás vai adiante, afirmando uma importante regra de interpretação bíblica em matéria trinitária: tudo aquilo que as escrituras afirmam do pai, deve-se entender também do Filho; isto é verdade, diz São Tomás, ainda que a frase traga alguma palavra que denote o sentido de exclusão, como “só, somente” ou “apenas”. Isto porque, diz Tomás, o Pai compartilha com o Filho tudo aquilo que não os opõe. Eles são opostos em serem pai e filho (exemplar e imagem, origem e verbo, etc). Em tudo o mais, são o mesmo. Assim, diz Tomás, quando o Evangelho de Mateus (11, 27) diz que ninguém conhece o Filho senão o Pai”, ele não pode excluir o fato de que o Filho conhece a si mesmo tanto quanto o Pai o conhece. Assim, diz ele, mesmo quando as Escrituras afirmam que o Espírito Santo procede do Pai, daí não se poderia deduzir, portanto, que ele não procede do Filho. Mesmo que a Bíblia expressamente dissesse que ele só procede do Pai, diz Tomás, daí não se poderia concluir que ele não procede do Filho, porque espirar não é uma noção que oponha o Pai ao Filho, como seria a noção de ser gerado, exclusiva do Filho, porque o Pai é o que gera, ou seja, está na posição oposta da relação de geração. Com a espiração não há isto.
O segundo argumento lembra que o Simbolo (ou Credo) niceno-Constantinopolitano, originalmente, rezava que o Espírito Santo procede do Pai. Portanto, quem quer que tenha incluído a cláusula filioque (que ele procede do Pai e do Filho) não somente o alterou, como pode ser réu de anátema.
São Tomás explica que cada Concílio instituiu algum símbolo (credo) como resposta a algum erro de fé que fora debatido e condenado ali. Portanto, se este erro de fé não tivesse surgido antes do referido Concílio, não seria de esperar-se que o respectivo Credo fizesse menção a ele. Deve-se ressaltar, no entanto, que o Credo (ou Símbolo) do Concílio posterior, ao reexaminar as declarações de fé do concílio anterior, não as nega ou contraria, mas apenas as completa ou explicita para responder às novas questões de fé que surgiram após o Concílio antecedente. Foi assim que o Concílio de Constantinopla completou o Símbolo de Niceia, e o Concílio da Calcedônia explicitou os ensinamentos sobre o Espírito Santo trazidos pelos Concílios precedentes. Este questionamento, a respeito da processão do Espírito Santo a partir do Filho, diz São Tomás, surgiu muito depois, e foi respondido em Concílios convocados pelo Papa, que confirmaram e explicitaram a mesma fé dos antigos Concílios. Esta declaração, diz São Tomás, representa uma explicitação daquilo que estava virtualmente contido nos antigos Símbolos de fé, e não a sua negação.
O terceiro argumento é uma citação de São João Damasceno, para quem o Espírito Santo é chamado “Espírito do Pai” e de fato procede do Pai; mas não dizemos que ele “procede do Filho” embora seja circunstancialmente chamado também de “Espírito do Filho”.
São Tomás diz que os Nestorianos negaram que o Espírito Santo procedesse do Filho, e foram condenados no Concílio de Éfeso. Tomás acusa São João Damasceno de ter seguido o erro nestoriano neste particular, e portanto de não ser uma boa autoridade neste assunto. Mas, ainda assim, diz São Tomás, é possível interpretar a afirmação do Damasceno de tal modo que, embora ela não afirme a processão do Espírito Santo a partir do Filho, também não a negue cabalmente.
O quarto argumento parte da ideia de que “proceder” implica saída, sendo uma ideia não conciliável com a ideia de “repouso”. E cita um texto da “Legenda de Santo André” que diz que o Espírito Santo “procede” do Pai mas “permanece” no Filho; se permanece, conclui, não pode proceder dele.
São Tomás responderá que não há contradição entre “proceder” e “repousar”, no caso da Trindade, já que as próprias Escrituras dizem que o Filho procede do Pai e permanece nele; lembra ainda que se afirma que o Espírito Santo repousa no Filho como o amor do amante permanece no amado, ou, como diz o Evangelho de João (1, 33), a respeito da humanidade do Filho: “aquele sobre quem vires o espírito descer e repousar, esse é quem batiza com o Espírito Santo”.
O quinto argumento diz que o Filho procede como Palavra de Deus. Ora, prossegue, em nós, criaturas, o espírito não procede de nossas palavras. Assim, conclui, o Espírito Santo não pode proceder do verbo de Deus.
Mas a analogia não se sustenta, diz Tomás, se estamos pensando nas palavras humanas pronunciadas por nós. Notemos, neste ponto, que estamos tratando com uma metáfora que é compreensível nas línguas (como a língua grega) em que a palavra “espírito” é homônima de “sopro”. O que se estaria dizendo, então, é que, em nós, as palavras são formadas de sopro (espírito) e portanto não se poderia imaginar que o sopro proceda das palavras, mas o contrário. Assim, a analogia nega que, em Deus, o Espírito possa proceder do Verbo. Mas não se trata de uma analogia entre as palavras que pronunciamos e o sopro que as faz audíveis; trata-se de uma analogia entre os conceitos mentais que formamos quando conhecemos alguma coisa ou alguém, e o impulso de amor que surge em nossa vontade quando vemos que aquilo que conhecemos é bom. É neste exato sentido, do impulso que a decisão de amar causa em nós quando aquilo que conhecemos e reconhecemos como bom atrai nossa vontade, que podemos fazer a analogia, em Deus, da processão do Espírito como impulso de amor a partir da geração do Verbo pelo Pai na Trindade.
O sexto argumento é de suficiência: se o Espírito Santo procede perfeitamente do Pai, seria redundante, desnecessário mesmo, admitir que ele pudesse proceder do Filho.
Mas São Tomás diz que não é assim. Não só não é redundante, como é absolutamente necessário afirmar que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho. De fato, diz Tomás, o Pai e o Filho são um, salvo naquilo que implique oposição entre eles. Assim, o Filho procede do Pai, mas ninguém jamais poderia admitir que o Filho procede de si mesmo – então, no fato de que o Pai gera e o Filho é gerado eles se diferenciam. Mas não há oposição relativa entre o Pai e o Filho na espiração do Espírito Santo. Logo, se eles são um, necessariamente devem ter em comum a espiração. Por isto, é necessário que o Espírito Santo proceda do Pai e do Filho.
O sétimo e último argumento objetor deste longo artigo, o argumento é que o Filho e o Espírito não precisam ter entre si uma relação de origem para distinguir-se. Eles se distinguiriam apenas por terem o ser do Pai de modo diverso, um por geração, outro por processão, e isto seria suficiente para distingui-los. São Tomás insiste, no entanto, que não haveria modo de distingui-los se não houvesse entre eles uma relação de origem que os opõe, como já explicou na resposta sintetizadora.
No próximo artigo veremos se o Espírito Santo procede do Pai pelo Filho.
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