O debate que se apresenta aqui é exatamente sobre a relação entre o Espírito Santo e o Filho. Debate importantíssimo, porque é a base teológica para o chamado “Cisma do Oriente” em 1054, ainda não completamente superado. A hipótese controvertida inicial é exatamente a posição oriental: parece que o Espírito Santo não procede do Filho.
Em sua resposta sintetizadora, São Tomás já inicia com uma afirmação categórica: é necessário admitir que o Espírito Santo procede do Filho. Dizer que “é necessário”, para Tomás, significa afirmar que existem razões cogentes, suficientes, para demonstrar, de modo perfeitamente razoável, que as coisas são assim e não de outra maneira. E a razão que São Tomás considera necessária e cogente para admitir que as coisas são assim é simples: não há outra maneira para distinguir o Filho do Espírito Santo, senão admitindo que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho. E ele vai explicar.
Em primeiro lugar, diz ele, precisamos lembrar da própria noção de “pessoa”, como a aplicamos a Deus. As pessoas, em Deus, não se distinguem pela substância. São todas da mesma e única substância divina. Diferentemente das pessoas humanas, que são distintas substancialmente. Cada um de nós, humanos, em razão de termos um corpo distinto daquele de outros seres humanos, somos pessoas distintas. Ainda que compartilhemos o que há de formal na espécie humana (temos todos a mesma forma substancial de seres humanos, e por isto somos iguais em dignidade), a alteridade corporal nos faz absolutamente distintos entre nós. Substancialmente distintos. Isto significa que uma pessoa humana se distingue de outra absolutamente, mesmo que jamais a tenha conhecido, mesmo que jamais tenha entrado em contato ou mantido qualquer relação com ela.
Os anjos, por outro lado, têm formas distintas. Não há dois anjos da mesma espécie. E é fácil entender que as coisas são assim: se os anjos são imateriais, eles não poderiam distinguir-se pela corporeidade. Assim, a única maneira pela qual um anjo pode ser diferente do outro é se eles forem, cada um, de uma espécie diferente. Mas como a espécie determina, neles, a individualidade substancial, isto significa que é pela diferença formal, por não compartilharem a mesma forma (como os humanos compartilham) que os anjos individuam-se. Assim, cada anjo tem uma dignidade diferente, e não se pode falar numa “dignidade angelical” comum, como se fala com relação às pessoas humanas.
Mas em Deus as coisas são diferentes. Uma vez que as pessoas divinas não têm matéria, elas não poderiam distinguir-se por corporeidade, como os humanos. Tampouco poderiam distinguir-se por terem formas diferentes, como no caso dos anjos, simplesmente porque compartilham a mesma e única forma divina. Há um só Deus, portanto não pode haver mais de uma forma, em Deus. Assim, como já estudamos em artigos anteriores, apenas pelas relações poderia haver multiplicação de pessoas em Deus. E, dentre as hipóteses de relação real, apenas a relação por origem pode ser fundamento de individualização de pessoas, em Deus.As pessoas divinas têm a mesma substância, diferentemente de pessoas angelicais e humanas, que são substancialmente diversos entre si, uns pela forma, outros pela matéria. No caso das Pessoas divinas, portanto, a menos que haja relação, e relação de origem, entre as pessoas, não pode haver distinção entre elas. É preciso lembrar, também, que a simples multiplicação de relações não necessariamente multiplica as pessoas; é preciso, para multiplicar as pessoas, que as relações sejam opostas entre si. Pensando humanamente, diríamos que é possível que uma mesma pessoa seja pai de alguém e tio de outro, mas não é possível que ela seja, simultaneamente, pai e filho da mesma pessoa. Mas é possível que alguém seja, simultaneamente, filho e sobrinho de outra pessoa, imaginando-se que esta pessoa tenha cometido incesto com a própria filha. No caso, a mesma pessoa pode manter duas relações com a outra, porque estas relações não são opostas entre si, a de filho e a de sobrinho. Assim, se eu disser que aquele fulano tem um filho e um sobrinho, não tenho como saber se ele tem um ou dois parentes. Pode ser que este filho e sobrinho sejam uma pessoa só. Mas se eu disser que ele tem uma mãe e uma filha, estou falando de duas pessoas diferentes, relacionadas com ele, porque estas duas pessoas têm, entre si, uma relação de origem que é oposta: a sua filha é, ao mesmo tempo, neta da sua mãe. Notemos que, no caso dos humanos, podemos até pensar em outras relações, que tornassem necessária a distinção entre as pessoas (como se disséssemos que o filho é duas vezes mais gordo do que o sobrinho. Neste caso, haveria uma relação de quantidade, que não pode existir em Deus).
Usando agora esta analogia para entender as relações intratrinitárias, diríamos: se disséssemos que o Pai deu origem ao Filho e ao Espírito santo, mas não estabelecêssemos nenhuma relação entre o Filho e o espírito santo, nada nos garantiria de que não estamos tratando de uma só pessoa, que fosse a um só tempo Filho e Espírito Santo. De fato, diz Tomás, o Pai tem em si a relação de geração, com o Filho, e a relação de processão, com o Espírito santo. Mas não são duas relações opostas entre si pela origem, e portanto não fazem do Pai duas pessoas diferentes. Há apenas uma pessoa do Pai, que tem duas relações.
Nada impediria, portanto, que houvesse uma pessoa procedente, que mantivesse com o Pai as relações de gerado e procedente, como aquele menino que é, a um só tempo, filho e sobrinho da mesma pessoa. No caso do Filho e do Espírito Santo, a situação é ainda mais complicada, porque eles são da mesma substância divina (não há duas substâncias divinas) e não são materiais. Não haveria, pois, nada que os distinguisse entre si, de modo a configurá-los como duas pessoas divinas, e não a mesma pessoa com duas relações com o Pai. Mas não poderíamos afirmar isto, sem dizer que não há trindade, mas apenas uma dualidade de pessoas em Deus. Isto seria uma heresia, diz São Tomás, porque nega um dogma de fé, a fé em Deus uno e trino. Ocorre que a única distinção possível entre as pessoas, intratrinitariamente, é a origem. Logo, a única maneira de admitirmos que o Filho e o Espírito Santo são pessoas diferentes é admitindo que eles têm, entre si, uma relação de origem. Um tem que proceder do outro.
Agora resta saber quem procede de quem; se é o Filho que procede do Espírito Santo, ou se, ao contrário, este procede daquele. Ninguém jamais defendeu que o Filho procede do Espírito Santo, lembra Tomás. Mas a Igreja Católica sempre confessou, em sua fé garantida pelo Sumo Pontífice romano, que o Espírito Santo procede do Filho. E faz sentido que seja assim, diz São Tomás.
Ele lembra que o Verbo procede do intelecto, como conhecimento expressado na Palavra de Deus. O Espírito santo procede da vontade divina, como impulso de querer. Ora, diz São Tomás, ninguém pode amar senão aquilo que conhece. Portanto, seria lógico que o Verbo originasse o amor, e não o contrário. Ou, usando a linguagem clássica, o Amor procede do Verbo. Mas é preciso advertir: esta ordem de prioridade do verbo sobre o Amor é apenas de origem, não é cronológica.
Mesmo a perfeita unidade de substância precisa de uma ordem, diz São Tomás; a igualdade não implica indiferença, bagunça, relativismo, caos. Igualdade pressupõe e estabelece ordem, porque pressupõe a aceitação da complementariedade e da distinção. A igualdade trinitária não é confusão, mistura, anarquia. E São Tomás lembra que, nas coisas materiais, não importa a ordem com que se originam; ele dá o exemplo de um ferreiro que trabalha fazendo ferramentas. Não importa a ordem em que ele as fabrica, porque a distinção entre elas vem da matéria com que ele trabalha. Cada machado que ele fabrica, mesmo se for feito no mesmo molde e exatamente com a mesma forma, é feito com um pedaço diferente de metal, e, por isto, não há confusão nem mistura entre eles. Mas nas coisas imateriais, diz Tomás, é somente pela ordem intrínseca que as distinções são preservadas. Assim, ele completa, se há duas pessoas que procedem do Pai (o Filho e o Espírito), é preciso admitir entre eles alguma ordem, para que possam ser distintos um do outro – já que não há. Entre eles, nenhuma distinção material. A ordem é a que já mencionamos: o Espírito procede do Pai e do Filho.
E que as coisas são assim, diz São Tomás, alguns teólogos orientais até mesmo vislumbram. Ele relata que há teólogos orientais que admitem que o Espírito Santo é o Espírito do Filho, que procede do Pai pelo Filho, e até mesmo, relata, há casos em que chegam a afirmar que o Espírito Santo promana do Filho, mas não concedem que ele proceda do Filho. Estas meditações orientais, diz São Tomás, podem ser uma porta para um diálogo, já que a própria noção de proceder é muito ampla, e pode permitir que estas separações – que são, talvez, muito mais de linguagem do que de fundo – possam ser um dia superadas. É nossa esperança também.
Veremos no próximo texto as respostas de São Tomás aos argumentos objetores iniciais.
Deixe um comentário