Vimos, pois, ao longo das questões passadas, a conclusão de debates profundos e importantes sobre as relações em Deus, sobre como elas são subsistentes e originam as hipóstases, e em que sentido podemos falar de pessoas, e especificamente de pessoas divinas. O problema, agora, é saber quantas pessoas podem existir, em Deus.

Note-se que São Tomás não foge das discussões que podem parecer óbvias ou limitadas pelo dado revelado de antemão. Ele as enfrenta, para estabelecer que, embora recebidas por revelação, estas informações são perfeitamente coerentes, racionais, e, ao final da discussão, temos a impressão de que não só elas são perfeitamente razoáveis como não poderiam ser de outro jeito. É importante acompanhar São Tomás aqui; ele não parte do pressuposto de que seus interlocutores aceitam gratuitamente o dado revelado, mas quer mostrar como não há nenhuma contradição, nenhuma irracionalidade em aceitar a fé; muito ao contrário. Há a coragem para o debate franco, que põe em jogo até mesmo o dado revelado e, ao final, acaba por fortalecê-lo, estabelecendo a razoabilidade da fé.

A hipótese controvertida, proposta aqui para iniciar o debate, é a de que não deveríamos defender que há multiplicidade de pessoas em Deus. São Tomás coleciona quatro argumentos objetores, que se posicionam no sentido desta hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento parte da noção de pessoa de Boécio. Se a noção de pessoa é a de “substância individual de natureza racional”, então admitir várias pessoas em Deus seria admitir que em Deus há várias substâncias, o que seria contraditório com a fé num Deus uno e simples. Assim, o argumento conclui que não se pode imaginar que haja várias pessoas em Deus.

O segundo argumento ataca diretamente a ideia de que as relações poderiam explicar a multiplicidade de pessoas em Deus. Ainda que admitamos a possibilidade de existirem várias relações em Deus, se o fato de que elas existam pudesse explicar a pluralidade de pessoas, então seria de se esperar que a existência de outras propriedades em Deus, absolutas (quer dizer, não relacionais) como a bondade, a verdade ou a beleza, também pudessem gerar distinção de pessoas nele. Mas a multiplicação de propriedades, em Deus (assim como em nós, criaturas) não gera multiplicidade de personalidades. Assim, tampouco a multiplicidade de relações. Portanto, o argumento conclui que não há multiplicidade de pessoas, em Deus.

O terceiro argumento cita mais uma vez Boécio, grande autoridade em matéria de pessoa; ele dizia que aquilo que é verdadeiramente uno não pode ser quantificado por números. Se Deus é uno, segue o argumento, não se poderia imaginar nele nenhuma pluralidade, porque a pluralidade implica quantificação, ou seja, não se poderia atribuir um número a Deus. Disto o argumento conclui que não se pode falar em pluralidade de pessoas, em Deus.

O quarto argumento também segue na linha da impossibilidade de quantificar Deus: se houvesse, em deus, alguma realidade susceptível de contagem, de modo a que se pudesse atribuir alguma medida, algum número, a ele, então teríamos que admitir, diz o argumento, que Deus tem partes, porque em tudo que tem medida é possível falar em todo ou em partes. Mas isto contrariaria a ideia da simplicidade de Deus, sua unidade e indivisibilidade. Logo, não se poderia falar em multiplicidade de pessoas em Deus, conclui o argumento.

O argumento sed contra resgata o chamado “Credo de Atanásio” (Bispo de Alexandria, século IV), que é considerado um marco da ortodoxia, subscrito pelos católicos romanos, pelos ortodoxos e pelos ramos protestantes tradicionais. Ali, registra-se que uma é a pessoa do Pai, outra a do Filho e outra ainda a do Espírito Santo. Assim, diz o argumento, uma vez que estas são pessoas divinas, há de fato multiplicidade de pessoas em Deus.

Na sua resposta sintetizadora, São Tomás resgata os debates feitos nas duas questões anteriores – a questão 28, que estabeleceu a existência das relações subsistentes em Deus, e a questão 29, que determinou o modo pelo qual estas relações determinam a existência de realidades hipostáticas em Deus, que satisfazem plenamente aos elementos da noção de pessoa. Ora, conclui São Tomás, da pluralidade de relações subsistentes, que compartilham a mesma essência divina, chegamos à pluralidade de pessoas em Deus.

Esta resposta, tão simples, quase uma revisão das questões anteriores, dá lugar agora à avaliação e resposta das objeções iniciais. Que veremos no próximo texto.