É preciso muito cuidado para examinar as questões mais profundamente teológicas, quando estamos debatendo a realidade da Trindade. Falar da própria intimidade de Deus pressupõe uma intimidade com ele. Não se trata de uma discussão especulativa, racionalista, mas da tentativa de expressar, em conceitos razoáveis, aquilo que se recebe numa relação de amor que é a fé. Fora disso, este debate se transforma num jogo vazio, num passatempo desrespeitoso até.

Na Suma, portanto, não estamos tratando com um especulador que se compraz em mostrar sua habilidade com conceitos filosóficos, aplicando-os à Revelação a fim de compelir à fé os não-crentes ou vencer debates intra ou inter-religiosos. Trata-se, ao contrário, de um apaixonado, de alguém mergulhado no amor de Deus que quer compreendê-lo melhor, que quer expressá-lo o melhor que puder, que quer evitar mal-entendidos ou falsificações deste amor, com graves consequências. Lembremos da discussão que foi realizada na questão 27, sobre as duas principais heresias em matéria trinitária; a heresia ariana e a heresia sabeliana. Qual o problema com elas?

Há alguns problemas, algumas consequências graves de se admitir visões equivocadas sobre a Trindade. Uma delas, no caso da heresia ariana, que nega que Jesus seja uma pessoa divina, considerando-o apenas uma criatura, ainda que a primeira e a mais perfeita das criaturas, espalha-se por toda a fé cristã. Se Jesus é uma criatura, então Deus continua sendo aquele ser rigidamente outro, que não se encarnou, que não experimentou a condição humana nem levou a nossa corporeidade para a sua intimidade; por outro lado, se Sabélio tem razão e a Trindade é apenas um modo de manifestação, mas não uma distinção real no próprio Deus, então a relação não é uma categoria substancial em Deus, e toda a nossa concepção sobre a pessoalidade, sobre a essencialidade das relações e sobre o amor como atributo essencial em Deus está equivocada. O que está em jogo, portanto, são consequências práticas do próprio modo de ser de Deus, consequências que são muito importantes e profundas para serem desprezadas. Se a distinção de pessoas em Deus é só aparente, ou se Jesus não é uma pessoa divina, mas mera criatura, isto mudaria tudo.

Isto justifica o cuidado de São Tomás em elaborar muito profundamente, com as categorias de que dispõe, aquilo que ele recebeu e ama, que é o conhecimento revelado da intimidade divina. Estamos no centro da fé cristã; faz toda diferença entender como pode ser que um só Deus seja uma trindade de pessoas, mantendo-se, ademais, a humildade de saber que, diante de um mistério tão profundo, tudo o que chegamos a saber e elaborar é apenas uma fração infinitesimal daquilo que Deus é. O que sabemos sobre o mistério é muito pouco, quase nada. Mas é verdade. Como disse alguém muito sábio, na fé católica a palavra “mistério” não designa aquilo que não se pode de modo nenhum conhecer, mas aquilo que nenhum conhecimento humano, filosófico ou revelado, pode jamais esgotar.

Vamos lidar aqui, portanto, com a categoria das “relações”, tal como São Tomás a aplica à compreensão do mistério da Trindade. Esta categoria é muito interessante, e torna-se muito difícil para nós compreendê-la adequadamente, porque nosso modo de pensar, hoje, está muito distante daquele de São Tomás. Para nós, é difícil compreender que a categoria da “relação” possa designar algo mais do que uma categoria lógica, um modo de falar sobre as coisas que descreve o nosso modo de compreendê-las, mas não o que elas são em si mesmas. Na concepção clássica, porém, as relações podem existir tanto como uma categoria lógica quanto como uma realidade ontológica, como algo que se insere no ser, na qualidade de acidente, mas plenamente objetivo, e cuja existência se dá na própria coisa, e não na inteligência que a descreve.

Quando relacionamos, por exemplo, uma planta com a cor verde de suas folhas, não estamos descrevendo uma relação real, mas uma simples relação lógica, ou de razão; não existe, aqui no plano mesmo das coisas, algo como uma folha sem cor, por um lado, e a cor verde, por outro, como entes separados que se relacionam formando uma folha verde. A folha e sua cor são uma só substância; a separação que nossa inteligência cria entre elas existe apenas como um caminho de aprendizagem. Falamos, então, de uma “relação lógica”, ou de uma “relação de razão”, entre a coisa e sua cor.

Mas isto não é assim, por exemplo, quando descrevemos duas pessoas como “pai” e “filho”; o pai existe de fato, o filho também, e a relação entre eles é da ordem das coisas mesmo. Não é uma relação que se esgota na cultura, nem nos costumes variáveis entre tempos e lugares; também a prova de que alguns povos conheceram a desconsideração da paternidade, adotando “modelos de família” em que as crianças cresciam sob responsabilidade coletiva ou mesmo de alguma liderança educacional não apaga o fato de que alguém engendrou, originou biologicamente outro alguém, por um lado, e de que, por outro, alguém foi engendrado. Aquele que foi engendrado jamais passará a ser o originador, e o engendrador jamais passará a ser originado. Trata-se, portanto, de uma relação real, que ultrapassa a ordem lógica para manifestar-se na ordem real, das coisas.

Há, é claro, um terceiro tipo de relação, na concepção clássica; a relação que é real para uma das extremidades, mas apenas de razão, para outra. Tomemos o caso do astrônomo que observa e descreve a lua. Ele tem uma relação real com a lua, porque o que ele observa e descreve, o que ele apreende e conhece, é a lua e não outra coisa. Mas a lua não tem uma relação real com ele, senão apenas uma relação lógica, de razão, por ser o objeto de conhecimento do astrônomo. Ser conhecida pelo astrônomo não “põe nada” na lua. Ela continua a ser a velha lua de sempre.

Colocadas estas considerações iniciais, que visam apenas sinalizar a profundidade inesgotável do assunto de que trataremos neste artigo, passemos à avaliação concreta do seu debate. No próximo texto.