Já sabemos que há processão em Deus, e já sabemos que não há só uma; há pelo menos duas, uma gerada e outra espirada ou respirada (talvez fosse melhor, se me permitem a ousadia, dizer “suspirada” com aquele suspiro dos que amam). Mas haverá ainda outras? A hipótese controvertida agora, que São Tomás propõe para iniciar o debate, é a de que há mais de duas processões em Deus. E ele apanha três argumentos no sentido desta hipótese.
O primeiro argumentos lembra que as processões até agora estudadas surgem da inteligência e da vontade de Deus; mas estes não são, segundo o argumento, os únicos atributos de Deus.  Ele também é onipotente.  Logo, o argumento conclui que deveria haver uma terceira processão, a do poder de Deus.
O segundo argumento começa afirmando que o bem é o princípio de todas as processões, porque o bem tende à sua própria difusão: é próprio do bem “contaminar” ou “expandir-se” . Assim, o argumento conclui que seria necessário admitir uma processão do bem, em Deus.
O terceiro argumento lembra que, em nós, cada vez que conhecemos algo, forma-se um conceito, um “verbo” em nossa inteligência, daquilo que conhecemos. Ou seja, em nós, em nossa inteligência, não há somente uma, mas muitíssimas processões “de verbo”. Do mesmo modo se dá com a nossa vontade; para cada coisa que chegamos a conhecer, form-se uma inclinação, que move nossa vontade – uma processão de amor. Ora, diz o argumento,  Deus é muito mais fecundo do que nós.  Se em nós há tantas processões de verbo e de amor, não podemos imaginar, diz o argumento, que em Deus houvesse apenas uma processão do verbo e uma do amor. Assim, o argumento conclui que há mais de duas processões em Deus.
No argumento contrário, São Tomás simplesmente afirma, fundamentado na Revelação e no Magistério da Igreja- sem especificar sua fonte direta – que há apenas dois que procedem, em Deus: o Filho e o Espírito Santo.  Assim, o argumento “sed contra” registra que há duas, e apenas duas, processões em Deus.
Colocados os termos do debate, São Tomás passa a responder aos argumentos objetores iniciais, dando sua resposta sintetizadora. São Tomás nos lembra que a noção de processão sempre envolvem atos que começam e terminam no agente, a vida interior própria dos seres de natureza intelectual. Estes atos são apenas de dois tipos – inteligir (ou seja, conhecer) e querer.
E quanto aos atos sensíveis, como ver, tatear, ouvir, cheirar, degustar, que nós compartilhamos com os animais? Não são eles também atos de conhecimento? Não envolvem e despertam apetites?
São Tomás explica  que os atos da sensibilidade não são, a rigor, atos imanentes; os seres sensíveis não-intelectuais não têm uma vida interior, de reflexão e autodomínio, e por isto não se caracterizam como processões.  Isto não só porque não são atos reflexivos, mas também porque os atos da sensibilidade sempre envolvem uma relação direta do sentido com o mundo exterior- ver é ver alguma coisa, ouvir é ser atingido pelas ondas sonoras, e assim por diante. Assim, somente os atos relacionados com as naturezas intelectuais podem fundamentar processões em Deus. Nem a sensibilidade nem o apetite, mas apenas o conhecimento intelectual (que forma o verbo) e a vontade (que se expressa como amor) são atos imanentes que originam processão.
Estabelecidas as razões pelas quais se pode defender adequadamente que as processões em Deus são duas e apenas duas, São Tomás passa a responder aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor considerou que o poder de Deus seria um atributo tão relevante quanto a s.ua inteligência e a sua vontade, e que portanto deveria haver uma processão do poder. São Tomás responde que as processões são realidades da imanência de Deus, ou seja, envolvem aqueles atributos que se originam e chegam ao sua termo na própria intimidade divina. O poder de Deus, porém, relaciona -se sempre com aquilo que Deus pode fazer, ou seja, com as suas atitudes para fora, ou “transitivas”. A relação de Deus consigo mesmo nunca envolve poder, mas sempre autoconhecimento e amor. Não há nada que Deus possa “fazer” consigo mesmo.
Diferentemente ocorre, no particular, com as criaturas.  Somos seres imperfeitos, em construção, e por isto não é contraditório imaginar, em nós, uma “processão” de poder, necessária para a construção das virtudes, como ato imanente. Mas em Deus isto não é cabível.
O segundo argumento objetor registra que, uma vez que o bem, sendo difusivo de si mesmo ( bonum est diffusivum sui), deveria haver uma processão do bem em Deus. Mas São Tomás cita Boécio, que explica que o bem não é um atributo a mais de Deus, algo que Deus tem, ou que Deus faz. O bem, conforme a velha (e hoje esquecida) doutrina dos transcendentais do ser, é algo que Deus é. Ou seja, Deus é essencialmente bom. É claro que o bem também pode ser visto sob o aspecto de “objeto da vontade”, já que toda vontade, por definição, move-se pelo bem. Mas sob este aspecto, o bem em Deus dá origem à processão do amor, que é a inclinação para, reconhecido o bem infinito que Deus é, determinar nele o amor próprio infinito.
Assim, seria inadequado admitir uma “processão do bem”, porque as processões são operaçoes imanentes de Deus, é o bem não é nele uma “operação”, mas a sua essência mesma, que, conhecida pela sua inteligência, move sua vontade.
O terceiro argumento faz uma analogia com o modo criatural de conhecer e amar, lembrando que, em nós, formam -se tantas processões de verbo e amor quantas são as coisas conhecidas e amadas; assim, se Deus é mais perfeito ainda, teríamos que admitir nele ainda mais processões de verbo e amor do que em nós.
A resposta é simples: diferente de nós, criaturas, Deus tudo conhece e tudo quer numa só operação; tanto seu intelecto quanto sua vontade são simples e unos com sua essência, por um lado, quanto o único objeto do seu conhecimento e do seu amor, sendo ele mesmo (e ao conhecer-se e amar-se de modo perfeito, conhece e ama, em si e por si, tudo o que é e faz) não se precisa imaginar que seja necessário haver mais do que uma processão do verbo e uma do amor para que ele conheça e ame tudo, para que tudo seja abundantemente cognoscível e amável nele e em todas as suas criaturas. Finda, portanto, esta primeira questão, com a identificação e perfeita limitação das processões na Trindade.