Vimos, no debate do artigo anterior, que há em Deus duas processões.  Nos artigos precedentes havíamos concluído que a processão do Verbo origina-se como gerado; e esta segunda processão, que, como descobrimos agora, é a processão do amor, também origina-se por geração? Esta é a hipótese controvertida que São Tomás apresenta agora: parece que a processão do amor também pode ser chamada de geração.  E ele apresenta três argumentos no sentido desta hipótese.
O primeiro argumento objetor lembra que a noção de geração, nos seres vivos, designa aquele processo pelo qual um ser procede de outro compartilhando a mesma natureza.  É o argumento lembra que aquilo que se origina pela processão do amor tem a natureza divina, porque é uma processão na imanência de Deus; se não fosse completamente divino em natureza, seria algo diverso de Deus e já não seria uma processão interna, mas exterior a Deus. Assim, o argumento conclui que a noção de geração deve ser aplicada à processão do amor também.
O segundo argumento começa afirmando que, se a semelhança é da essência do Verbo, então também tem que ser da essência do Amor, já que as Escrituras asseguram que “todo ser vivo ama seu semelhante” (Sr 13, 19).  Assim, se a noção de “geração ” pode ser usada para a processão do Verbo em razão da semelhança que lhe é intrínseca, então, conclui o argumento, também pode ser usada para nomear a processão do amor – que, segundo o argumento, também se caracteriza pela semelhança.
O terceiro argumento parte da classificação em “gênero ” e “espécies”. É um argumento de natureza lógica, portanto. O argumento começa afirmando que duas coisas que são do mesmo gênero devem ocupar alguma das espécies que estão sob este gênero.  Assim, diz o argumento, se há duas processões em Deus, é preciso que elas se identifiquem pelo gênero e se distingam-se pela espécie, como, por exemplo, o cão e o ser humano são do gênero animal mas são de diferentes espécies: um racional e o outro irracional.  Assim, prossegue o argumento, não há outro elemento capaz de identificar o amor de Deus, no gênero “processão “, além da espécie  “geração”. Assim, o argumento conclui que a noção de “geração ” se aplica à processão do amor em Deus.
O argumento sed contra lembra uma afirmação de Santo Atanásio, Padre da Igreja, que nega que a processão do amor de Deus seja gerada; ele diz que “o Espírito Santo vem do Pai e do Filho, mas não como algo produzido ou criado, nem como gerado, mas como ‘procedente'”. Este argumento, é certo,  explica muito pouco, mas nos impede de admitir a hipótese inicial como satisfatória.

Postos os termos do debate, São Tomás passa a dar a sua resposta sintetizadora.  E começa logo afirmando que a processão do amor em Deus não pode ser chamada adequadamente de geração.
A explicação está na diferença entre aquilo que procede da inteligência e aquilo que procede da vontade. O que procede da inteligência é o verbo mental, a própria essência da coisa assimilada que passa a existir intencionalmente naquele que a conhece. Assim, o termo do ato de inteligência é que a semelhança daquilo que é conhecido passe a existir intencionalmente no conhecedor. O ato de vontade, porém, tem um ermo diferente: ele inclina o amante para o amado, e portanto seu termo não é uma semelhança, mas uma inclinação para a causa do amor tal como inteligida; mas não como existência intencional, senão como existência real. O amor não inclina para o verbo, mas para a sua causa. Ou seja, o amor busca aquilo mesmo que a inteligência conheceu, não como conhecido, mas como real.
Assim, a processão intelectual caracteriza-se pela semelhança com a sua causa, e por isto chama-se geração ; mas a processão volitiva não se caracteriza pela semelhança mas pela inclinação, quer dizer, por mover o amante para o amado. Assim, a processão do amor, em Deus, não é chamada de geração, mas, sendo um impulso, uma inclinação que move, é chamada de “espírito”, por analogia à nossa respiração, sinal e causa da nossa vitalidade, do impulso fundamental da vida em nós. Como o respirar marca, em nós, a condição de vivente, de caminhante, o Espírito de Deus marca nele o movimento vital do amor.
Tendo apresentado sua síntese, São Tomás passa a responder aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor parte da ideia de que a geração designa a processão que transmite a natureza divina, e que, uma vez que a processão do amor necessariamente tem natureza divina, a noção de geração lhe cabe necessariamente.  São Tomás responde que tudo aquilo que há em Deus tem natureza divina. Não é, portanto, pela natureza que as processões se distinguem, mas por consistirem respectivamente em atos da inteligência e da vontade. Assim, ter a natureza divina não determina que a segunda processão possa ser considerada como gerada (como a primeira). A geração implica possuir a semelhança, o que é próprio da primeira processão, mas não da segunda. Da segunda é própria a capacidade de mover.
Isto responde à segunda objeção, aquela que afirma que a semelhança é própria das duas processões, e por isto as duas podem ser chamadas de geradas. São Tomás explica que as duas processões relacionam-se diferentemente com a noção de semelhança.  A primeira traz em si mesma a semelhança da causa do conhecimento, ou seja, caracteriza-se por ser, analogicamente  ao conhecimento em nossa mente, uma assimilação, uma absorção da essência conhecida e, portanto, é próprio dela ser semelhante. A processão do amor, porém, é movida pela semelhança para a causa, e, portanto, a rigor, não traz  a semelhança em si própria, mas origina-se dela. Assim, tem na semelhança o princípio do amor – ama porque vislumbra, na semelhança do Verbo, o bem da causa. Assim, a processão do amor não pode ser adequadamente descrita pela noção de geração; antes, aquela processão do Verbo, gerada, é princípio desta outra processão, a do amor.
A terceira objeção diz que, se a noção de processão se aplica às relações íntimas de Deus, então ela é um gênero do qual a geração é espécie. Logo, para estar sob o gênero da processão, aquela do amor tem que estar sob alguma espécie deste gênero- e a única espécie de processão que transmite a natureza, entre as criaturas, é a geração.  Logo, a segunda processão também seria gerada.
São Tomás concorda que devemos usar nossa linguagem criatural para nos referir a Deus, por analogia.  Mas sempre com a consciência de que a nossa linguagem é limitada. Diferentemente das criaturas, Deus pode transmitir sua natureza por uma processão que não é gerada, e não há um nome analógico a partir das criaturas para designar esta espécie de processão.  São Tomás sugere chamá-la por analogia à respiração que, em nós, é sinal de vida e movimento.  Assim, a processão do amor, vida e movimento em Deus, pode ser chamada de Espírito, porque é respiro, vida e movimento.