Nos artigos anteriores, estudamos as dimensões, digamos assim, espaciais, a extensão da onipotência divina. A questão agora é temporal.
Como nós já tivemos oportunidade de estudar em questões anteriores, Deus não está submetido ao tempo. A vida divina pode ser definida como a posse total e simultânea da plenitude, e portanto não há passado, presente ou futuro para Deus. A partir daí uma pergunta se impõe: Deus poderia mudar o passado?
A pergunta é menos banal do que parece. De fato, se não há passado para Deus, então nada impediria que ele simplesmente o mudasse. Não haveria contradição em admitir que, uma vez que tudo lhe é presente, ele pudesse alterar o passado. É claro que uma outra pergunta, sucessivamente, deveria ser feita: Se Deus é Deus, por que ele deveria alterar o passado? Não seria ele o Senhor da História? Não seria poderoso o suficiente para garantir que as coisas dessem certo logo da primeira vez? Que Deus seria este que permite erros na sua obra, para logo depois corrigi-los retroativamente?
E é exatamente esta a questão que será debatida no presente artigo, a partir da hipótese de que Deus pode mudar o passado. E São Tomás coleciona três argumentos em favor desta hipótese controvertida inicial.
O primeiro argumento afirma que aquilo que é essencialmente impossível é mais impossível do que aquilo que é acidentalmente impossível. O argumento afirma que, se o cego é aquele que conceitualmente não vê, e o morto é aquele que conceitualmente já não vive, dar visão ao cego ou reviver um morto é operar diretamente na própria essência da realidade, transformando-a naquilo que é seu oposto. E estas são ações que Deus faz. Quanto ao passado, é sempre possível pensar que não seria impossível, diz o argumento, que aquilo que aconteceu de um modo pudesse ter acontecido de outro, sem nenhuma contradição. Assim, diz o argumento, é contingente que, no dia de ontem, Sócrates tenha corrido de casa até o trabalho, quando poderia perfeitamente ter andado. Em suma, o argumento lembra que a história é contingente, enquanto as essências são necessárias. Alterar o passado, portanto, só é impossível por causa da sucessão inexorável do tempo, mas não por causa de alguma impossibilidade essencial: correr ou andar, para retomar o exemplo, são escolhas perfeitamente possíveis, que se tornam humanamente inalteráveis apenas pelo fato do passar do tempo. Reviver o cadáver, porém, é essencialmente impossível para o ser humano, uma vez que a morte implica uma corrupção substancial. Disso, o argumento conclui que, se mudar a história seria alterar uma contingência, enquanto reviver um morto é alterar uma substância, não seria impossível para Deus alterar o passado, como não lhe é impossível ressuscitar os mortos.
O segundo argumento parte da noção de que o poder de Deus é invariável. Portanto, diz o argumento, Deus pode, ainda hoje, fazer tudo o que já fez alguma vez. E daí o argumento prossegue; quando Sócrates correu, Deus poderia tê-lo impedido de correr. Logo, diz o argumento, guarda ainda hoje o poder de fazer com que Sócrates nunca tivesse corrido. Assim, o argumento conclui que Deus pode alterar o passado.
O terceiro argumento faz uma comparação curiosa entre caridade e virgindade. A caridade, diz o argumento, é uma virtude mais elevada do que a virgindade. O argumento lembra que Deus pode vir a devolver ao pecador a caridade que ele perdeu pelo pecado. Logo, poderia também devolver a virgindade a alguém que a perdeu. Portanto, o argumento conclui, através deste raciocínio, que Deus pode mudar o passado.
O argumento sed contra segue na mesma linha da restauração da pureza sexual; cita São Jerônimo, que afirmava que Deus não poderia devolver a virgindade a alguém que a perdeu. Portanto, diz o argumento, Deus não pode alterar o passado.
Na sua resposta sintetizadora, São Tomás começa por lembrar as conclusões do debate feito no artigo anterior: a onipotência divina se estende a tudo aquilo que não implica contradição analítica interna. Examinando a proposição “mudar o passado”, vê-se claramente que ela implica contradição interna, uma vez que, se o passado se passou, ele não pode ao mesmo tempo não ter se passado, senão já não seria passado. Mudar o passado, portanto, é uma proposição contraditória em seus próprios termos.
E São Tomás nos demonstra com um exemplo: se dizemos, por exemplo, que Sócrates está sentado exatamente agora, não podemos, sem contradição, dizer que ele não está sentado exatamente agora. O fato empírico de que ele está sentado num determinado momento necessariamente exclui o fato empírico de que ele está de pé neste mesmo momento. Assim, se dizemos que Sócrates esteve sentado num determinado momento específico do passado, não poderíamos imaginar que ele não esteve sentado naquele mesmo momento, de modo que “Sócrates esteve sentado” seja verdade para aquele momento mas “Sócrates não esteve sentado” seja verdade para a mesma pessoa no mesmo momento do passado, na suposição de que Deus tivesse alterado o passado para corrigir a posição de Sócrates.
Esta alteração implicaria que houve um passado em que Sócrates esteve sentado e que foi alterado por Deus e agora há um passado em que Sócrates não esteve sentado no mesmo lugar e no mesmo momento, e aquilo que se passou quando Sócrates esteve sentado, embora tivesse de fato se passado, agora seria aniquilado das memórias como se não se tivesse passado. Isto significaria a existência de dois passados no mesmo momento e lugar, envolvendo a mesma pessoa, um que se deu factualmente, outro que foi retrospectivamente alterado por Deus. Então, o que teria acontecido não seria “mudar o passado”, mas multiplicá-lo sem mudá-lo, algo como criar um passado alternativo, caso em que o próprio presente já não existiria em sua unidade, e, pensando bem, o passado não teria sido alterado, senão multiplicado. Claramente, portanto, a expressão “poder mudar o passado” é desprovida de significado empírico, porque implica contradição – já que algo não pode, ao mesmo tempo, ter acontecido e não ter acontecido. Está fora do absolutamente possível, portanto, excluir da história os acontecimentos passados.
São Tomás passará a responder às objeções iniciais.
A primeira objeção diz que o passado é constituído de fatos contingentes, como a escolha de Sócrates entre estar em pé ou sentado. Assim, o argumento prossegue, dizendo que, se o poder de Deus é capaz de alterar situações absolutamente irreversíveis, por implicarem alteração substancial, como dar vida a um morto ou dar visão a alguém irremediavelmente cego, muito mais poder ele teria para alterar situações contingentes, como alguém ter estado em pé ou sentado em algum momento.
São Tomás faz aqui uma distinção: em si mesmos, os fatos contingentes do passado poderiam ter sido de outra forma, quando aconteceram. Mas, depois de ocorridos, é impossível que deixem a categoria de “fatos passados” para adentrar a categoria de “fatos não passados”. Tornar um fato passado em fato não passado é algo conceitualmente contraditório, portanto, e não está no campo do absolutamente possível – e portanto não estão no campo da onipotência divina, por implicar contradição. No entanto, ressuscitar os mortos ou curar os cegos, embora sejam dois fatos além do poder natural, estão no campo do absolutamente possível, ou seja, no campo da onipotência divina. porque não implicam conceitualmente nenhuma contradição.
O segundo argumento objetor afirma que, uma vez que o poder de Deus é imutável, ele pode fazer hoje tudo o que em qualquer momento podia fazer. Logo, se ele podia impedir, no passado, que um fato contingente viesse a ocorrer, ele pode, ainda hoje, segundo alega o argumento, modificar o passado, fazendo com que o fato ocorrido não tenha ocorrido.
São Tomás mais uma vez lembra o princípio de que a onipotência divina se estende ao absolutamente possível, mas não envolve aquilo que implica contradição em seus próprios termos. Assim, aquelas escolhas que estão sendo feitas estão submetidas à permissão de Deus enquanto estão sendo feitas. Assim, enquanto podem ser, estão sempre sob o poder de deus, que pode não permiti-las. Mas, depois de concretizadas historicamente, depois de feitas, tornam-se passado, e a sua alteração implicaria criar um passado não-passado, o que seria uma contradição; assim, não está no campo do absolutamente possível, e portanto incluído no âmbito da onipotência divina, mudar o passado.
A terceira objeção lembra que a caridade é uma virtude mais elevada que a virgindade; e alega que, se Deus pode restituir a aridade perdida, também pode restituir a virgindade perdida, apagando o ato sexual que marcou, no passado, a sua perda.
São Tomás esclarecerá que Deus pode apagar as marcas de qualquer pecado, seja contra a caridade, seja contra a castidade, removendo a culpa e mesmo a corrupção do corpo e da alma que o pecado implica. Mas ele não pode apagar o próprio fato de que o pecado existiu; seremos sempre pecadores redimidos, pela graça de Deus. Só há uma história, só há um passado, só há uma vida. Ao fim de cujo curso seremos julgados, Hb 9, 27. Nenhum de nós pode esperar que Deus mude o passado, ou mesmo que nos reinicie na vida por alguma espécie de recomeço ou “reencarnação” expiadora. O passado é único e indelével, embora, graças à infinitude da misericórdia onipotente de Deus, nem sempre irremediável. Esta é uma lição importantíssima para a nossa vida: traz-nos uma enorme responsabilidade.
1 de julho de 2022 at 10:46
Interessante que muitos “sucessos de bilheteria” têm uma trama baseada na tensão decorrente da possibilidade de o passado deixar de ter existido… no fundo, traduzem bem a angústia de nosso mundo que duvida das leis da lógica, da própria razão: o protagonista ainda resiste, no mais íntimo, a que o verdadeiro venha a se “derreter”.
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