A discussão, aqui, iniciada no texto anterior, era a de saber se Deus, ao criar as coisas, age por natureza, automaticamente (por “necessidade”) ou se ele escolhe livremente criar, elege o que criará e cria conforme a sua vontade. Vimos, no texto anterior, os argumentos que procuravam comprovar que Deus não cria por vontade, mas por necessidade da sua natureza. Chegamos a dizer, ali, que os paradigmas mais correntes, hoje em dia, são que o universo e todas as coisas existem por necessidade, não por vontade de um criador. Seja qual for a força que principia todas as coisas, chamemo-la evolução, dialética hegeliana, seleção natural, “respiração cósmica”, multiversos quânticos ou qualquer outra tentativa de explicação, há sempre a busca de uma força, de um princípio que originou tudo por necessidade, em decorrência de sua natureza intrínseca. É exatamente esta questão que estamos debatendo – para São Tomás, as coisas não eram assim. O universo, para ele, somente poderia ser explicado como criado, e originado de um ser inteligente, por livre eleição de sua vontade.
É o que São Tomás demonstrará agora, na sua resposta sintetizadora, a partir do instrumental filosófico que ele conhece e, em parte adaptou e desenvolveu – o instrumental escolástico, derivado também da filosofia platônica e neoplatônica, mas principalmente da filosofia aristotélica – mas principalmente partindo da contemplação da revelação cristã; e o faz de modo a demonstrar que as coisas fazem ainda mais sentido quando examinadas a partir da revelação.
Ele começa, então, afirmando cabalmente que Deus criou tudo o que existe em razão da eleição de sua vontade amantíssima e infinita. Não se trata, pois, de um universo vindo do acaso e da evolução, ou que existe como uma flutuação quântica, nem mesmo de um cosmos que se baste a si mesmo como explicação. É necessário, diz São Tomás, pressupor um criador voluntário para o universo, e nos dá três razões estruturais para demonstrar quão razoável, quão inteligente e racional é afirmar isto.
A primeira razão parte da natureza das causas. Como sabemos, pela teoria aristotélica, há um conjunto de quatro causas que explicam todas as coisas (lembrando que Deus não é uma coisa, e portanto não precisa de explicação – não está sujeito a uma análise a partir das quatro causas).
Das causas, interessam-nos agora a causa eficiente. São Tomás dirá que há dois tipos de causa eficiente, aquelas que agem “por natureza” e as que agem “por um intelecto”. Nos dois casos, São Tomás nos diz, as coisas que agem fazem-no sempre por um fim.
Abrindo aqui uma digressão, Este é um pressuposto que a maior parte da filosofia contemporânea não consegue compreender ou admitir. Hoje em dia, tendemos a achar que as forças naturais são cegas, mecânicas, sem significado intrínseco, e só podem ser guiadas a partir de fora – a sua aparente inclinação a um fim seria apenas a interpretação que nós, humanos, damos às regularidades acidentais da natureza, em razão do fato de sua repetição. E acreditamos, também que a única inteligência é a humana. Na visão cósmica de São Tomás, as forças naturais são guiadas a partir da sua forma, por necessidade intrínseca, e independem da condução eficiente externa para tender ao seu próprio fim. E esta forma a inclina intrinsecamente a este fim natural que a própria coisa não conhece (porque é desprovida de intelecto), mas que, se não é impedida por outra força externa, alcança de modo necessário.
São Tomás vai nos dizer, então, que toda vez que uma coisa não inteligente age de modo a alcançar naturalmente o seu fim, e o faz porque alguma inteligência lhe deu a capacidade intrínseca de atingir aquele fim, inclinando-a para ele. E nos dá o exemplo da seta, que é analógico com a visão de universo que ele tem, mas não é um exemplo unívoco. Ele diz: quando vemos a seta no ar, sabemos que ela se dirige a um alvo qualquer, em razão de seu próprio deslocamento; mas sabemos também que este movimento, esta força, esta direção foi-lhe atribuída de antemão por um arqueiro, que a lançou naquela velocidade, direção e sentido, de modo a possibilitar que ela atinja o alvo.
Com isto, São Tomás conclui que, necessariamente, as causas inteligentes, que são capazes de discernir o fim e escolher os meios, são mais fundamentais que as causas naturais, predeterminadas ao fim por meios inscritos em si, sem conhecimento do fim e sem possibilidade de eleição de meios. Ora, uma vez que não pode haver uma regressão infinita de causas eficientes (ver a segunda via para Deus, na questão 02 acima), é necessário admitir que a primeira causa deve ser uma causa inteligente, e portanto, uma causa que age por intelecto e por vontade.
A segunda razão também parte da diferença entre as causas eficiente “automáticas”, ou seja, aquelas desprovidas de inteligência, que agem em razão de sua inclinação natural para um fim, e as causas eficientes inteligentes, que conhecem o fim e elegem os meios para alcançá-lo. Será Deus, como causa eficiente de toda a criação, uma destas causas “necessárias e automáticas”, ou será ele uma causa que intelige e elege?
As causas necessárias, que agem em virtude de sua própria natureza – que as inclina por necessidade a um fim – estão inclinadas a produzir naturalmente sempre um único e mesmo efeito, diz São Tomás. Assim é que o fogo queima, a água molha, a gravidade atrai, enfim, para usar as palavras do próprio São Tomás, “a natureza, se não é impedida, opera de uma única e mesma maneira sempre”.
Mas a própria riqueza da criação nos demonstra que ela não pode ser resultado de uma força assim. “se supomos que o aperfeiçoamento das coisas é natural, então esse aperfeiçoamento deve ser muito simples. Pode-se conceber o mundo trabalhando para uma determinada e simples consumação, mas não para um arranjo particular de numerosas qualidades. Voltemos àquele ideal de um progresso para o azul, e imaginemos a Natureza a se tornar dia a dia mais azul, por um processo tão simples que possa ser impessoal. Mas a Natureza não poderá fazer um quadro cuidadosamente composto de várias cores, a menos que haja nela algo de pessoal”, diz Chesterton. É exatamente o que São Tomás nos demonstra agora: as inúmeras e diversas perfeições criadas não são determinadas por natureza, mas devem ser pensadas e escolhidas por um ser inteligente, ao menos que se admitisse que uma causa natural, com sua tendência exclusiva a um fim único e predeterminado, pudesse gerar algo múltiplo, rico e perfeito em todos os sentidos como é a criação. Isto seria contraditório, diz ele. Asim, o Deus que gera uma criação tão rica necessariamente é um ser inteligente agindo por eleição de sua vontade.
A terceira razão faz a análise no sentido inverso da causalidade: parte do efeito para a causa. Como sabemos, nenhuma causa pode gerar um efeito que supere sua capacidade causadora. E isto não é simplesmente por contrariar as leis da termodinâmica, ou mesmo as leis da física; trata-se de uma impossibilidade lógica: nada pode dar mais do que aquilo que contém em si mesmo. Se é assim, temos que admitir que, de algum modo, os efeitos já estão contidos na causa antes mesmo do processo de causalidade começar. É a isto que São Tomás chama de “preexistência virtual”: as coisas estão sempre contidas virtualmente em suas causas. Mas não do mesmo modo que elas existem no mundo real, senão no modo de existência da própria causa. Um exemplo pode tornar mais claro: uma estátua existe no mundo real no material de que ela foi feita; ela pode ser de pedra, de metal ou mesmo de gelo. Mas na mente do escultor esta estátua preexiste virtualmente apenas como ideia, vale dizer, como uma forma intencional, ou melhor ainda, como informação. Isto porque, no mundo real, o suporte de todas as existências é sempre a matéria; mas na mente do escultor, o suporte de existência a estátua, enquanto realidade virtual, é a inteligência.
E São Tomás prossegue: em deus, como já vimos, a sua inteligência é o seu próprio ser. Então, tudo aquilo que ele causa deve existir antes, nele, ao modo de dado inteligível, ideia, forma intencional, inteligibilidade. E, se a inteligência de Deus é seu ser, seu ato de criar é necessariamente inteligente. Mas a passagem do inteligível ao ato é sempre e necessariamente mediada pela vontade, nas causas eficientes inteligentes, já que nós chamamos de vontade exatamente à inclinação a realizar aquilo que foi concebido pelo intelecto. Então, só se pode concluir que a criação é um ato de vontade de Deus.
Posto isto, São Tomás passará a responder aos argumentos objetores iniciais. É ótimo acompanhar suas respostas, porque elas são, igualmente, respostas a toda filosofia ou ideologia que defende que o princípio de todo criado é uma força impessoal necessária.
A primeira objeção cita o pseudo-Dionísio, para comparar a bondade essencial de Deus com os raios de sol, que não iluminam por eleição, mas por necessidade. E conclui que, uma vez que a bondade é da essência de Deus como a luminosidade é da essência do sol, não é da vontade de Deus, mas da sua essência, por necessidade, que surgem todas as coisas. São Tomás fará a devida correção neste argumento. De fato, a bondade de Deus irradia para todas as coisas, mas isto não significa que a vontade de Deus esteja excluída, quanto à própria existência das coisas. O pensamento citado deve ser interpretado, pois, da seguinte forma; as coisas vêm à existência por livre eleição de Deus, ou seja, por um ato de sua vontade. Mas a sua bondade, sendo de sua essência, espalha-se por todas as coisas que existem, iluminando-as como o sol ilumina tudo o que é tocado por seus raios. Assim, a essencialidade da bondade de Deus não exclui de modo absoluto, mas apenas de modo relativo, o fato de que a sua vontade é a origem da bondade das coisas, a que ele dá existência.
O segundo argumento objetor alega que, uma vez que Deus é o primeiro agente, então ele necessariamente tem que agir, para que tudo o mais exista. Então o agir de Deus é necessário, e não procede de sua vontade, mas de sua essência. São Tomás responderá que a essência de Deus consiste em seu próprio inteligir e em seu próprio querer. Então, completa Tomás, dizer que o agir de Deus decorre de sua própria essência implica dizer que ele decorre da sua inteligência e de sua vontade, que lhe são essenciais. Então, deste argumento, não se pode querer separar o fato de que Deus é o primeiro agente, e age por natureza, do fato de que a sua própria natureza implica que a sua ação decorra de sua vontade, e não que aconteça por alguma espécie de automatismo necessário.
O terceiro argumento objetor parte da ideia de que tudo o que é causa de outra coisa apenas por ser do modo que é, é uma causa natural, não uma causa voluntária. E dá o exemplo do fogo: por ser ele próprio a fonte de calor por excelência, ele queima naturalmente, não por eleição. E o argumento conclui citando Santo Agostinho, que diz que, sendo Deus o próprio bem, e a origem de toda bondade, ele origina todas as coisas por sua própria natureza, não por eleição de sua vontade.
Mas São Tomás vai nos explicar que a noção de bem envolve a noção de vontade, porque o bem é exatamente o fim de uma inclinação. E mais uma vez vamos ver o talento de São Tomás de corrigir a leitura ruim que o argumento faz da doutrina de Santo Agostinho sem, no entanto, retirar de modo algum a autoridade do próprio Santo Agostinho.
Ele vai nos explicar que é verdade dizer que existimos porque Deus é bom, como Santo Agostinho diz. É que, sendo ele a própria bondade, a vontade de Deus quer a si mesmo em primeiro lugar, e nos quer em razão do bem que ele próprio é. Assim, ao criar todas as coisas para que encontrem nele a sua perfeição, podemos dizer que é pela bondade de Deus que existimos. Mas isto não significa que a bondade de Deus seja a causa eficiente da criação: ela é a causa final, sem dúvida, mas a causa eficiente é a sua divina vontade, que, ao querer-se cria-nos para que possamos querê-lo também. Isto já foi, aliás, debatido no artigo anterior.
A última objeção diz que uma mesma coisa só pode ter uma única causa. E o argumento prossegue, lembrando que na questão 14, artigo 8, lá atrás, ficou estabelecido que a ciência de Deus, ou seja, seu intelecto, é a causa de todas as coisas; logo, a sua vontade não poderia também ser causa. São Tomás vai responder, em primeiro lugar, com uma analogia psicológica: mesmo em nós, humanos, a inteligência funciona como dirigente do processo de criação, porque concebe e projeta, mas não é capaz, por si mesma, de fazer alguma coisa existir. É preciso que a nossa vontade decida fazer aquilo que o nosso intelecto concebeu, para que o projeto se transforme em fato. Em Deus, diz São Tomás, tudo isto resta unificado, ademais, pelo fato de que nele, ser, conhecer e querer são uma só e mesma coisa.
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