Como vimos no texto anterior, o debate aqui gira em torno da falsidade tal como pode se apresentar nos sentidos. A hipótese controvertida, que São Tomás propõe para abrir o debate, é a de que a falsidade nunca se apresenta aos sentidos. Trata-se, portanto, de estabelecer que tipo de confiança podemos ter naquilo que os sentidos apresentam ao nosso conhecimento. Qual o significado de afirmar que pode haver falsidade em nossos sentidos?
A resposta sintetizadora de São Tomás começa por estabelecer a confiança naquilo que os sentidos nos apresentam, vale dizer, em nosso conhecimento sensível, que, como sabemos, para a filosofia clássica e escolástica, é a base de todo conhecimento intelectual humano – nada há no intelecto que não tenha passado pelos sentidos. É no intelecto que a verdade se localiza, no sentido próprio da noção, já que a verdade é a consciência da exatidão do julgamento – é uma noção reflexiva, portanto, e portanto naturalmente intelectual. Mas é de senso comum que às vezes nossos sentidos podem nos enganar. Como também é do senso comum que os animais, que apresentam apenas conhecimento sensível, sem capacidade de reflexão, são capazes de corrigir o dado sensorial para atingir seus objetivos, como no caso dos pássaros pescadores que, apesar da refração, conseguem mergulhar e capturar o peixe.
São Tomás vai nos dar, agora, uma verdadeira aula sobre conhecimento sensível; ele nos explica que os sentidos conhecem as coisas (usando a linguagem de São Tomás) na medida que guardam em si as semelhanças destas coisas; esta, claro, era a explicação que a ciência, à época de São Tomás, lhe dava, a de que o órgão do sentido possuía em si a semelhança de todos os sensíveis com os quais se relacionava. O olho possuiria em si todas as cores, o tato, todas as texturas, e assim por diante. Hoje, a ciência nos explica que, na verdade, temos sensores nos órgãos dos sentidos que são capazes de identificar todos os sensíveis com os quais entrarem em contato, o que, na prática, dá o mesmo resultado. Portanto, mesmo se a informação científica, no plano fisiológico, mudou desde o tempo de São Tomás, a sua explicação gnoseológica e mesmo filosófica continua válida.
Vale dizer, São Tomás nos explica primeiro que os sentidos podem ser saudáveis ou “indispostos”, vale dizer, podem estar acometidos por algum tipo de patologia, má formação ou defeito que os impeça de receber qualquer tipo de informação sensível adequadamente; assim é que, para alguém gripado, todo alimento, mesmo o mel, parece amargo à língua. Neste sentido, São Tomás está consciente de que os defeitos nos “receptores” dos órgãos do sentido podem levar ao erro na absorção do dado sensível. Mas esta é a exceção, e uma vez que a pessoa humana é essencialmente relacional, a eventual percepção sensorial comprometida por patologia ou má formação pode ser contrastada com a informação intelectual trocada entre os seres humanos, ou mesmo corrigida por alguma órtese, ou ainda desconsiderada. De modo que o falso pode se apresentar, neste caso de imperfeição do órgão dos sentidos, mas pode ser facilmente identificado.
Quando os sentidos não apresentam nenhuma alteração, no entanto, a questão é mais sutil: qual a confiança que devemos depositar neles? São Tomás nos ensinará que os órgãos dos sentidos estão calibrados para obter três tipos de informação: 1) direta, 2) indireta, 3) acidental.
Vamos tratar agora da chamada informação direta, que o órgão do sentido obtém daquilo que São Tomás chama de “sensíveis próprios”. Vale dizer, àquilo para o qual o sentido está naturalmente calibrado para receber. No caso da visão, por exemplo, seu sensível próprio é a cor.
Mas há informações indiretas que obtemos dos nossos sentidos, que São Tomás chama de “sensíveis comuns”; a grandeza e o aspecto da figura cuja cor nossos olhos captam, por exemplo. De fato, pela associação dos diversos dados sensoriais, bem como pela interpretação sensível dos limites entre as cores naquilo que estamos vendo permite-nos formar uma ideia da sua dimensão espacial, do seu volume, e mesmo da sua movimentação, embora a rigor estes não sejam sensíveis próprios dos olhos. É por isto que podemos chamar de “sentidos comuns”, porque não é possível distinguir tão claramente a colaboração que têm os dados de cada sensível próprio para a obtenção destes dados. O deslocamento espacial das cores, visto pelos olhos, pode ser acompanhado do deslocamento do ar, perceptível pelo tato, e do ruído, perceptível pelos ouvidos, para nos possibilitar a ideia de que vemos, por exemplo, alguma coisa grande que se mexe.
Mas há um terceiro modo de perceber, que é o chamado sensível acidental: quando olhamos para um ser humano, a rigor, nossos olhos estão recebendo os seus sensíveis próprios, vale dizer, as cores da figura que está adiante de nós. Mas a forma e a disposição destas cores, o limite entre elas, os seus padrões, podem nos permitir concluir que estamos vendo um ser humano. É assim que, a partir da percepção de cores pelos olhos, acidentalmente vemos um ser humano à nossa frente.
Assim, afastando os casos em que os órgãos dos sentidos podem enganar-se em razão de suas próprias imperfeições – que já examinamos acima – São Tomás passa a analisar a relação entre órgãos perfeitos e seus sensíveis.
Com relação aos sensíveis próprios, São Tomás nos ensina que a sua percepção é basicamente confiável. Os órgãos dos sentidos, quando saudáveis e bem dispostos, obtêm basicamente conhecimento sensível verdadeiro, com relação aos sensíveis próprios. Apenas muito raramente, e de modo acidental, os órgãos dos sentidos são enganados pelos sensíveis próprios, obtendo informações falsas sobre eles. E nestes casos raros a integração entre os órgãos dos sentidos, bem como a possibilidade de intercâmbio de conhecimento inteligível entre os seres humanos, são meios perfeitamente adequados à correção destes erros raríssimos e excepcionais. Não é daí, portanto, que vem a falsidade no conhecimento sensorial.
Com relação aos chamados sensíveis comuns e sensíveis acidentais, a sua percepção é produto de uma interação entre os órgãos dos sentidos, seja na memória, seja na chamada “estimativa”, e portanto está mais facilmente sujeita a engano. É aqui que moram as ilusões de ótica, as percepções ilusórias e as impressões equivocadas, portanto. Mas para a percepção destes sensíveis comuns e acidentais a sensibilidade exerce alguma espécie de julgamento, capaz de compor, integrar e estimar o dado sensorial próprio, bruto, que recebe. Não é exatamente um conhecimento reflexivo no sentido intelectual, porque não chega a ultrapassar o campo da imediatidade e da concretude do dado. Mas há, aí, algum julgamento, mesmo concreto e imediato, que pode conduzir, pois, ao erro. Como o organismo sensível está equipado com diversos órgãos do sentido, e é capaz de composição, memória e estimativa, ele pode se dar conta deste erro concreto e eventualmente corrigir sua falsidade. É neste sentido limitado, portanto, que a teoria do conhecimento realista, mas que não desconsidera a participação ativa do conhecedor no processo de conhecimento, consegue identificar a possibilidade de verdade e falsidade no conhecimento sensorial – ainda que numa noção analógica, derivada, imprópria.
São Tomás passará, agora, a responder aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento é aquele que, lembrando Santo Agostinho, nega que possa haver falsidade nos sentidos, sob o argumento de que, se eles apenas nos transmitem as informações que recebem das coisas com as quais entram em contato, não haveria como eles pudessem nos enganar.
São Tomás dará uma resposta que demonstra a perfeita noção da barreira entre o subjetivo e o objetivo na sua rica teoria do conhecimento. Ele nos diz que os sentidos, de fato, estimulam-se pelo contato direto com seu sensível próprio, que é sempre alguma coisa. Ora, quanto à impressão que eles recebem desta coisa, que é o próprio contato entre o órgão do sentido e a coisa, os sentidos jamais nos enganam: eles nos transmitem exatamente esta impressão. Mas isto não exclui o fato de que os sentidos podem ser afetados de maneira diferente do que é a própria coisa; não é outro o sentido do ditado popular “à noite, todos os gatos são pardos”. De fato, por exemplo, em condições adversas, podemos perceber as cores de modo diferente do que as perceberíamos em pleno sol. Neste caso, os sentidos não nos enganam quanto àquilo que perceberam, ou seja, à cor parda que o gato apresenta à noite. No entanto, podem se enganar com relação ao próprio gato, que, eventualmente visto à luz do sol, é cinza, e não pardo. É neste sentido que São Tomás nos dirá que os sentidos não nos enganam quanto ao próprio sentir, mas podem nos enganar quanto à própria coisa sentida.
A segunda objeção parte de uma citação de Aristóteles (“O” filósofo, na linguagem de São Tomás). Ele afirma, segundo a citação, que, no conhecimento sensível, o falso nunca está nos sentidos, mas na imaginação (phantasiae).
São Tomás vai fazer logo uma precisão: ele afirma que uma tradução mais precisa do que Aristóteles diz seria a de que a percepção dos sensíveis próprios nunca é falsa. Mas a imaginação é exatamente aquele órgão do conhecimento sensível responsável pela formação do “fantasma”, quer dizer, da semelhança da coisa percebida na impressão da memória. Esta impressão permanece mesmo na ausência da própria coisa percebida, mas ela não é a coisa, senão uma impressão, uma imagem, um fantasma. Ao tomar o fantasma pela coisa, tomamos o que conhecemos pelo que é, e isto é sempre falso. É por isto que há sempre um julgamento, mesmo no plano do conhecimento sensível, um voltar à própria coisa, tanto na sua imagem intencional em nós, quanto na sua existência factual, capaz de garantir a veracidade do fantasma. E é este movimento que nos permite diferenciar entre, digamos, um sonho, uma sombra, uma pintura, por um lado, da própria coisa sonhada, retratada ou refletida, por outro. Isto nos permite diferenciar realidade de fantasia, ou, usando o mito de Platão, a caverna de sombras do mundo real. Este realismo relacional e dinâmico de São Tomás sempre nos permite estudar toda a carga relacional e espiritual do conhecimento, mas com um critério forte de realidade que nos lastreia. São Tomás jamais confunde o que é com o que pensamos ou percebemos que é.
O terceiro argumento objetor diz que o lugar próprio do verdadeiro e do falso é no intelecto, capaz de julgar reflexivamente os conceitos que forma por abstração, e não nos sentidos, que são simplesmente responsivos da realidade material com que entram em contato. São Tomás responde a este argumento simplesmente aceitando-o. De fato, apenas de modo analógico e impróprio, como já foi exposto, se pode falar em falsidade nos sentidos. De modo próprio, ela está sempre nop intelecto que julga. É próprio da verdade ser autoconsciente, de modo que, embora o conhecimento sensível possua uma série de sistemas de verificação capazes de corrigir,,quase sempre de modo eficaz, eventuais erros de percepção, esta correção não chega a ser plenamente autoconsciente, vale dizer, ela não chega a caracterizar-se propriamente como enquadrada nas categorias do verdadeiro e do falso.
São Tomás, no plano do conhecimento sensível, acredita e defende não somente a consistência do mundo, quanto a adequação dos sentidos para conhecê-lo. A verdadeira ciência só pode ser construída em cima de bases assim.
2 de janeiro de 2021 at 12:43
O artigo, de difícil acesso para a mentalidade contemporânea, foi muito bem explicado. Parabéns!
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2 de janeiro de 2021 at 13:01
Muito obrigado! De fato, tema difícil! Glória a Deus.
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