Podemos confiar em nossos sentidos? Em que medida? Esta é uma questão fundamental na filosofia, desde os temos pré-socráticos. E continua sendo importante hoje, porque o debate entre empiristas e racionalistas prossegue nos dias atuais. Ademais, há diversas pesquisas, em laboratórios de neurociências, sobre a confiabilidade dos sentidos. Isto para não mencionar o mundo virtual da internet e dos videogames, e a questão do abuso de substâncias psicoativas.

Portanto, é de muita atualidade e de grande interesse discutir sobre a confiabilidade dos sentidos. Em que medida os sentidos podem enganar-se e enganar-nos?

A hipótese controvertida aqui será a de que os sentidos nunca podem enganar-nos; o dado sensorial seria sempre e completamente confiável. Ou, expresso em termos mais tomistas, o falso não estaria jamais nos sentidos. O dado sensorial seria sempre absolutamente verdadeiro e confiável, portanto.

O artigo nos apresenta três argumentos em favor de sua posição. O primeiro argumento cita Santo Agostinho para estabelecer uma espécie de confiança ingênua na veracidade do dado sensorial. Agostinho, segundo a citação aqui transcrita, diz que uma vez que os sentidos corporais nos transmitem suas impressões assim como as recebem, não haveria razão para esperar deles algo diferente disto. Se é assim, diz o argumento, então parece que não somos enganados jamais pelos nossos sentidos. E disto o argumento conclui que não há falsidade de nenhuma espécie nos sentidos.

O segundo argumento cita Aristóteles, que diz, na “Metafísica”, que a falsidade não está propriamente nos sentidos, mas na imaginação, que a filosofia clássica chama de “fantasia”. Assim, seria propriamente a imaginação, ao compor os dados sensitivos ainda no campo material, o lugar próprio do engano na sensibilidade. Portanto, segundo este argumento, a falsidade nunca estaria no próprio sentido.

O terceiro argumento trabalha com a teoria do conhecimento tomista. De fato, se a verdade está propriamente no intelecto que julga (ou que “divide e compõe”, na elegante linguagem tomista), então a verdade ou a falsidade existe exatamente quando o intelecto reflete e testa seu conhecimento. Então como se poderia falar de falsidade no conhecimento sensorial, que, por definição, não é reflexivo? Por causa disto, o argumento conclui que não se pode falar de falsidade no conhecimento sensorial.

No argumento sed contra, São Tomás coleciona uma citação de Santo Agostinho, que lembra que ocorre de enganarmo-nos quanto os dados que nossos sentidos nos apresentam, eventualmente em razão de alguma semelhança sedutora. Ou seja, há sólidas razões para crer que nossos sentidos podem conter falsidade.

São Tomás nos apresentará, então, a sua resposta sintetizadora. Especialmente complexa, neste caso. Ela parte de pressupostos gnoseológicos que nos parecem estranhos ou remotos, simplesmente porque toda a filosofia racionalista e empirista após a crise nominalista e após o cogito de Descartes, sem mencionar toda a teoria do conhecimento kantiana, nos levaram muito longe da forma tomista de pensar, no particular – profundamente lastreada na apreensão da forma pelo intelecto. Vamos lentamente, então.

A primeira afirmação de São Tomás, aqui, é que não se pode falar de verdade, em sentido próprio, nos sentidos. De fato, a verdade em sentido próprio está na fase reflexiva do conhecimento intelectual, porque a verdade consiste em saber de si mesma. Mesmo na etapa propriamente intelectual do conhecimento, a mera apreensão da realidade não incide ainda no julgamento de verdade. Somente quando julgamos o que foi apreendido, pela construção de enunciados sobre o conhecimento que obtivemos na abstração intelectual, é que a verdade se manifesta no sentido próprio. A dimensão reflexiva, portanto, é inseparável da noção de verdade propriamente falando, e ela está ausente do conhecimento sensorial. O conhecimento sensorial é basicamente passivo com relação aos dados com que lida. Assim, não sendo reflexivo, ele não pode, propriamente, dar-se conta da falsidade do dado que recebe a partir do seu contato com as coisas. Eis porque, de regra, não se pode falar de verdade ou falsidade, propriamente, quanto ao conhecimento sensorial. Esta dimensão da autoconsciência do engano ou do acerto não está presente de modo integral nesta dimensão cognitiva sensitiva, porque ela é basicamente não reflexiva.

Mas não se pode negar que os animais têm uma capacidade estimativa muito apurada; em alguns casos, é notável a sua capacidade de corrigir os dados sensoriais e atingir muita eficiência no uso dos sentidos. Basta ver, por exemplo, alguns animais de rapina pescando; eles são capazes de apanhar o peixe de um golpe, mesmo estando fora d’água. Isto significa que são capazes de corrigir o desvio que a luz sofre ao passar da água para o ar, e atingir o peixe ali onde ele está de fato, ainda que, aos olhos de quem está fora d’água, ele pareça estar num lugar diferente daquele onde ele está de fato, graças ao fenômeno da refração. É uma experiência de fato, portanto, que mesmo no caso do conhecimento sensitivo, existe alguma capacidade de verificação e correção, ainda que não intelectual. O conhecimento sensitivo, portanto, conta com a possibilidade de engano e possui algum modo de aferição e correção. Neste sentido, pode-se dizer, ainda que analogicamente, que há possibilidade de se falar de verdade ou falsidade, em algum grau, no conhecimento sensitivo. É disto que São Tomás vai falar agora, dando uma verdadeira aula sobre conhecimento sensível.

É o que veremos no próximo texto.