No texto anterior, debatíamos, com Tomás de Aquino, sobre o sentido da presença do falso nas próprias coisas. Como havíamos aprendido na questão anterior, o lugar próprio da verdade é o intelecto; mas há um sentido analógico, como vimos no começo da resposta de Tomás, pelo qual podemos afirmar que as coisas podem apresentar falsidade; trata-se da relação entre a coisa, por um lado, e o intelecto que a concebe, num extremo, e o intelecto que a conhece e julga, por outro. Poderíamos dizer que a falsidade, nas coisas, tem sempre uma feição triangular: há sempre: 1) uma inteligência que concebe e cria, numa das pontas. Há sempre 2) uma coisa criada ou manufaturada, no meio. E há sempre 3) um intelecto que apreende e julga, no outro extremo.

Assim, São Tomás distingue dois tipos de falsidade que as coisas podem apresentar:

1. A falsidade essencial, absoluta, quando a coisa não corresponde à concepção original do intelecto que a concebeu. É o caso, aqui, das cédulas falsas de dinheiro: elas são essencialmente falsas em si mesmas, porque não guardam relação com o processo de produção das notas verdadeiras, ou mesmo com a autenticidade de sua confecção, ou seja, com a exclusividade de sua autoria pelo sujeito com legitimidade para confeccioná-las.

2. A falsidade num sentido relativo, acidental. A coisa é verdadeira em si, porque guarda perfeita correlação entre o seu ser e aquilo que o intelecto do seu criador concebeu para ela; no entanto, ela é capaz de causar engano no intelecto que a apreende e julga, por causa de algum aspecto que dificulta a apreensão e o julgamento. É o caso do andarilho que, avistando um bicho-pau, toma-o por um graveto quando na verdade ele é um animal com grande capacidade de mimetismo. Mas ele foi concebido, pelo intelecto divino, como um animal com grande capacidade de mimetismo, e, portanto, a falsidade não lhe é essencial, mas acidental, e diz respeito apenas à falsa apreensão que ele causa em quem lhe apreende o ser e o julga.

Neste caso, portanto, como nos ensina São Tomás, há uma diferença clara entre as coisas naturais e as coisas artificiais. Nas coisas naturais, dada a onipotência divina, nunca se poderá falar em falsidade essencial, absoluta; tudo o que Deus concebe ele realiza tal como concebeu. Assim, todas as coisas naturais têm de verdade o que têm de ser. É verdade que a criação sofre os limites da criaturalidade, e sofre também aquilo que São Paulo chama de “sujeição ao pecado”, e geme e chora esperando a libertação da redenção final (Rm 8, 20-22). Neste sentido, nenhuma criatura realiza em seu próprio ser a perfeição da forma concebida por Deus; mas isto também é parte, senão da vontade, ao menos da permissão divina. Não há, pois, propriamente falando, coisas naturais falsas no sentido absoluto, essencial. Mais uma vez, vê-se como São Tomás tem uma concepção da realidade como repleta da sabedoria e do poder divinos.

A exceção, quanto às coisas naturais, seriam as criaturas inteligentes, que têm a capacidade de subtrair-se voluntariamente à ordenação da sabedoria divina; e exatamente aí estão o pecado e a culpa. Trata-se, pois, de uma visão não normativista, não voluntarista, do mal, da culpa, do pecado e da responsabilidade das criaturas inteligentes. O mal, o pecado, não é o simples descumprimento de normas, mas a insubmissão à sabedoria básica que rege à criação. O mistério da iniquidade, portanto, reside propriamente na recusa à razoabilidade ínsita na ordem divina, e não na suposta resistência contra normas ditadas arbitrariamente pela vontade de Deus. E São Tomás estabelece, portanto, que em termos de coisas naturais, somente se poderia falar numa falsidade essencial quando, usando mal sua liberdade, a criatura inteligente escolhe rejeitar a sabedoria divina em sua própria vida. A única criatura essencialmente má é a que rejeita conscientemente deixar-se ser amada pela sabedoria plena de Deus. É neste sentido que a ética tomista é toda construída sobre a verdade, e não simplesmente sobre normas, e é neste sentido também que, lembra São Tomás que a Bíblia chama de falsidade e mentira ao pecado, como no salmo 4, 3, na tradução da Vulgata; “por que amais o que é vão e buscais a mentira?”. Assim, na obediência à verdade, à sabedoria de Deus, está a verdade da criatura inteligente. Mais do que a submissão cega ao poder de Deus, a verdade da liberdade humana vem da aceitação alegre da sua sabedoria. E a falsidade vem da irrazoabilidade da conduta criatural desordenada. E mais uma vez São Tomas vai citar a Bíblia, desta vez o Novo Testamento: quem pratica a verdade vem para a luz (João 3, 21).

Há uma dimensão, entretanto, em que as coisas naturais podem ser chamadas de falsas, de modo acidental: na relação que elas têm com o intelecto das criaturas, que, ao apreendê-las e julgá-las, pode ser induzido ao erro. Neste caso, elas não são falsas de modo absoluto (simpliciter), mas apenas de certo modo, ou relativamente (secundum quid), na sua relação com quem as apreende e julga.

Há dois sentidos, diz São Tomás, em que se pode dizer que as coisas são falsas acidentalmente, secundum quid. O primeiro modo diz respeito a uma falsa opinião que alguém tem sobre a coisa, e que não corresponde àquilo que a coisa é em si mesma. Assim, nesta primeira situação, diz-se que o diâmetro de um círculo é um falso comensurável, porque tem-se a falsa impressão de que se pode estabelecer alguma razão precisa entre ele e o raio do círculo, mas esta razão resulta em um número que não pode ser escrito na forma de fração, em que o numerador é um número inteiro e o denominador é um número inteiro diferente de zero, ou seja, é um número irracional. A impressão de que a razão entre o diâmetro e o raio é um número racional é falsa, portanto. E pode-se dizer que o diâmetro é um falso comensurável. Outro exemplo que São Tomás nos traz é o do ator: quando alguém interpreta, digamos, o papel de Heitor, o ator é um falso Heitor. Neste sentido, todas as coisas que são falsas segundo uma opinião são verdadeiras quanto a outra opinião, ou seja, o falso Heitor é um verdadeiro ator.

O outro sentido em que as coisas dizem-se falsas secundum quid é quanto à sua capacidade de causar engano em nossos sentidos. Uma vez que o nosso conhecimento sempre passa pelos sentidos, e os sentidos atingem apenas os acidentes exteriores das coisas, aquelas coisas que têm exteriormente a mesma aparência são capazes de nos causar uma falsa impressão e portanto um falso conhecimento. Estas coisas são ditas “falsas” com relação àquelas que, por terem a mesma aparência, nós tomamos pela outra. São Tomás nos exemplifica com o fel e o mel, que têm a mesma cor e a mesma densidade, mas são substâncias completamente diferentes. O fel é um falso mel, portanto. Ou ainda o estanho e a prata, por sua semelhança; o estanho, diz São Tomás, é uma falsa prata. Dizemos, pois, que são falsas as coisas que julgamos parecer com as verdadeiras, quer porque pareçam ser quando de fato não são (ilusórias), como uma miragem no deserto que pareça ser água, quer porque pareçam ser aquilo que não são (enganadoras), como uma pepita de pirita parece ser ouro.

Assim, diz Tomás, chamamos de “falso” aquele ser humano que se compraz, que se regozija em falsas opiniões e palavras; não simplesmente por ser capaz de elaborá-las, porque também os sábios e eruditos o são (como São Tomás lembra, citando Aristóteles). Mas porque as difunde como verdadeiras e se alegra em cultivá-las, quer em sua mente, quer na dos outros.

Após nos entregar esta síntese tão sofisticada, São Tomás passará a responder às objeções iniciais. A primeira objeção coloca que, se o verdadeiro é conversível com o ser, então tudo o que é, é verdadeiro, e o falso não poderia jamais ser encontrado nas próprias coisas. São Tomás explica que o falso, nas coisas, é sempre relativa a um intelecto que julga que ela é aquilo que ela não é. Então, uma coisa é falsa não pelo que ela é, mas, a rigor, pelo que ela não é. É por isto que se pode dizer que um ator é um falso Heitor; ele tem em si o ser de ator, mas não o ser de Heitor.

Assim, do mesmo modo que as coisas criadas têm em si um certo não-ser, na relação do ato com a potência (uma semente de feijão ainda não é um pé de feijão, embora tenha a potência para sê-lo, e não para ser, digamos, um pé de milho), as coisas têm em si uma certa razão de falsidade em razão dos seus limites, quando são tomadas como sendo aquilo que não são.

A segunda objeção também nega que possa haver falsidade nas coisas, já que elas só podem mostrar aquilo que efetivamente são. São Tomás nos ensinará que, embora todas as coisas sejam essencialmente verdadeiras, com relação à sua essência, é admissível dizer que a falsidade está nas coisas, no sentido acidental, quando a sua aparência é capaz de enganar-nos com relação à sua essência. E isto nos leva à terceira objeção, que diz que a verdade, em seu sentido mais próprio, está no intelecto de Deus, e que, uma vez que nada do que existe pode fugir à correspondência mais fundamental entre a sua essência e o conhecimento que Deus tem dela, então não se pode dizer que as coisas possam ser falsas. São Tomás esclarece que não se pode dizer que nenhuma coisa é falsa relativamente ao intelecto divino, porque nada é capaz de enganar ao próprio Deus. Mas há coisas que, por sua constituição, são capazes de enganar o nosso intelecto. Neste sentido, mesmo quanto ás coisas artificiais, pode-se dizer que a falsidade, nas coisas (e mesmo nos artefatos), é sempre acidental, com relação à sua substância.

Por fim, São Tomás fará uma pequena correção também ao argumento sed contra. De fato, a unidade não se realiza plenamente nas criaturas, como tampouco se realiza plenamente a bondade e a perfeição. Estes são atributos próprios apenas de Deus. Mas não por isto se pode chamar as coisas de falsas, pela simples deficiência em apresentar a plenitude de um atributo como a unidade. Para que uma coisa seja falsa, é preciso que ela tenha, ademais, a capacidade de induzir uma opinião falsa, como uma característica intrínseca, na maioria das pessoas que a examinar. Não é, portanto, a simples deficiência de perfeição, mas a capacidade de provocar o equívoco, que faz com que uma coisa seja denominada como falsa.

O texto ficou mais longo do que eu intencionava. Mas trata de um problema muito sério, a questão do limite do conhecimento humano, e a relação entre essência e aparência. Trata-se, aqui, da possibilidade de estabelecer alguma objetividade para o falso: o falso não se resolve, diz Tomás, apenas na dimensão gnoseológica; a falsidade pode-se dizer ontológica quando há descompasso entre essência e aparência, ou entre a coisa e o conhecimento que se pensa ter dela. A cédula falsa é papel verdadeiro, mas aparenta ser mais do que isto, e por isto é falsa: porque é capaz de enganar o nosso julgamento.