Na questão 16, discutimos longamente sobre a posição filosófica da verdade no pensamento de Tomás de Aquino: a verdade está propriamente numa mente, em relação com as coisas. E os enunciados são verdadeiros ou falsos na medida que refletem a verdade da mente que os formula; não simplesmente a relação entre o enunciado e a mente, relação que poderíamos chamar de “sinceridade” ou “autenticidade” do enunciado. Mas a relação entre esta mente que formula o enunciado e a coisa que, apreendida, dá origem à reflexão, o juízo, que o enunciado explicita.
Lembrando, porém, que a noção de verdade é um conceito analógico, e que portanto não se diz univocamente sobre a realidade do juízo na mente, no enunciado, em Deus e nas próprias coisas; este modo de encarar os conceitos analogicamente parece ser muito difícil para as nossas concepções contemporâneas, marcadas sempre pela busca de univocidade como sinônimo de cientificidade. Mas com isto há uma perda: as realidades quantitativas e mecânicas podem ser abordadas de modo unívoco. Mas as realidades mais fundamentais, mais profundas, da existência, não podem. Será, pois, uma riqueza retomar o modo analógico de pensar: sem perder a univocidade para aquilo em que ela é essencial, como nas ciências exatas, redescobriremos um modo mais adequado de falar das realidades que não são em si mesmo unívocas.
E este é exatamente o problema enfocado no presente artigo. Em que sentido eu posso falar de falsidade, e em que sentido, mesmo analogicamente, eu posso dizer que esta falsidade está nas próprias coisas? Existem coisas falsas, ou apenas falsos juízos mentais sobre as coisas? Diante digamos, de uma cédula falsa de dinheiro, onde está o falso, na própria cédula ou na mente de quem se relaciona com ela?
A discussão trata, pois, de esclarecer se a verdade é propriamente apenas uma qualidade da mente, ou se podemos falar também em falsidade nas próprias coisas. E é esta a hipótese controvertida adotada aqui: parece que não há falsidade nas coisas.
O primeiro argumento para defender esta hipótese traz uma citação de Santo Agostinho: se a verdade é conversível com o ser, então tudo o que é, é verdadeiro. Então o argumento conclui que o falso não se encontra em nada do que é, ou seja, não se poderia falar em falsidade nas próprias coisas. O segundo argumento cita novamente Santo Agostinho, partindo da seguinte premissa: a noção de falso surge da ideia de engano. Ora, segundo Santo Agostinho, as coisas, quando são objeto de nossa apreensão e julgamento, não nos mostram senão suas espécies, ou seja, sua inteligibilidade essencial intrínseca. Disto o argumento conclui que não se pode dizer que o falso esteja nas próprias coisas. O terceiro argumento lembra que, como foi discutido na questão anterior, a verdade das coisas está na relação de conformidade que têm com o intelecto divino, que as concebeu e criou em primeiro lugar. O argumento faz o seguinte raciocínio: todas as coisas que são, foram concebidas e receberam sua existência do ato criador de Deus, que as concebeu. Assim, tudo aquilo que existe, existe na conformidade da inteligência e da vontade de Deus. Então nada pode ser falso em si mesmo, e desta conclusão o argumento afirma que não há coisas falsas.
Como argumento sed contra, uma outra citação de Santo Agostinho: “todo corpo é verdadeiro corpo e falsa unidade”; de fato, as coisas corporais são sempre compostas de forma e matéria, portanto, embora sejam de fato uma unidade, há sempre composição nelas. Em alguma medida, pois, não realizam completamente a noção de unidade como é realizada em Deus, que é simples em si mesmo de maneira absoluta. Assim, o argumento sed contra conclui que há falsidade em todas as coisas.
São Tomás passará a nos dar sua resposta sintetizadora.
Em primeiro lugar, lembremos que o verdadeiro, em sentido próprio, está no intelecto, como seu sujeito adequado. São Tomás nos explica que, uma vez que o verdadeiro e o falso são noções contrárias, elas devem estar, em sentido próprio, no mesmo sujeito. Ou seja, do mesmo modo que o intelecto é o lugar próprio da verdade, ele é também o lugar próprio da falsidade. Por isto, quando se fala de falsidade com relação a uma coisa, fica implícito que se está falando apenas analogicamente: o falso, nas coisas, sempre decorre da relação entre a coisa e algum intelecto. Assim, quando se diz que uma coisa é falsa, na verdade sempre se está dizendo que ela é falsa em relação a algum intelecto. Neste sentido, há dois níveis em que se pode dizer que uma coisa é falsa:
1. Ela é falsa no sentido absoluto, essencial, sempre com relação ao intelecto que a concebeu e criou, quando ela não realiza aquilo que este intelecto concebeu para ela. É o caso da cédula falsa de dinheiro; ela não contém em si aquilo que a autoridade estatal concebeu como sendo dinheiro, mas apenas uma imitação inadequada da aparência da cédula verdadeira. Neste caso, a sua falsidade é absoluta, porque ela é desconforme com a sua própria concepção existencial no intelecto do qual ela depende essencialmente.
2. Ela é falsa num sentido relativo, acidental, quando ela causa engano num intelecto que a apreende e julga de modo enganoso. A coisa seria, em si mesma, verdadeira, mas provocaria engano naquele que, interpelado por ela, julga-a falsamente. É o caso, por exemplo, de um bicho-pau, que tomamos por um graveto seco quando olhamos rapidamente. Ele é um animal verdadeiro, mas é um falso graveto, porque engana nossa apreensão.
Falaremos mais sobre isto no próximo texto.
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