Há uma posição gnóstica, que reflete uma velha posição filosófica platônica, de que Deus e a matéria são opostos. Deus é bom, a matéria é má; assim, sendo fonte de toda incognoscibilidade, a matéria é obscura, impenetrável, ela é a própria ignorância solidificada. Como reflexo desta posição filosófica, muitas doutrinas religiosas veem a matéria como algo ruim, desprezível; o corpo seria uma prisão, um meio de purificação, e a alma, a condição final do ser humano que atingiu a plenitude e libertou-se da matéria. Esta não é a posição judaico-cristã.

A matéria, na concepção judaico-cristã, é criada por Deus, e por isto não é oposta a ele, nem impenetrável por ele. Ao contrário, ela é boa, e tem o valor de princípio, de causa explicativa das coisas. Dentre as quatro causas que explicam toda a realidade criada encontra-se a causa material. Por isto, para o cristianismo, a matéria não é má, nem prisão, nem desprezível; ela é o princípio de individuação, capaz de tornar diversas as coisas que compartilham a mesma espécie. A teoria hilemorfista, ou seja, aquela teoria que enxerga a matéria como um dos princípios dos entes (materiais), ao lado da forma, defende que a materialidade de um ser é parte de sua perfeição, e não de sua decadência.

Mas para os pensadores influenciados pelo pensamento platônico, ou mesmo pelo pensamento gnóstico, a matéria é o aprisionamento daquelas ideias que são mais reais no mundo transcendente. Ali, as ideias apresentam-se como puras formas, perfeitamente cognoscíveis. Aqui, no mundo material, as coisas são apenas imitações, reflexos toscos da pureza das ideias. Assim, seria indigno de Deus conhecer as coisas na sua individualidade, por causa da sua materialidade. Não é isto que São Tomás pensa, e ele vai mostrar as razões, propondo um debate sobre o assunto.

A hipótese controvertida aqui, portanto, é assim: parece que Deus não conhece as coisas singulares. E São Tomás trará três argumentos objetores, em favor da hipótese inicial controvertida.

O primeiro argumento parte do intelecto humano. Ele lembra que, segundo a teoria aristotélica do conhecimento, o intelecto humano não conhece as coisas singulares; sendo imaterial, o intelecto conhece apenas as abstrações, isto é, os universais. As coisas particulares, em sua concretude material, são conhecidas apenas pelos sentidos, ou seja, pela inteligência sensorial, que os humanos compartilham com os outros animais. Mas o intelecto divino está acima do intelecto humano, quanto à imaterialidade. Portanto, ele não atinge os particulares, e portanto, segundo o argumento, não conhece as coisas singulares.

O segundo argumento também parte do contato sensorial com a realidade; são as potências sensitivas, que se apresentam em nossos sentidos (visão, olfato, tato, audição e gustação), que entram em contato direto com a matéria para conhecer concretamente as coisas particulares, em sua materialidade. Mas as coisas que Deus conhece, em si mesmo, ele as conhece de modo absolutamente separado de sua materialidade. Logo, segundo o argumento, Deus não conhece as coisas singulares.

No terceiro argumento, de sabor platônico, usa-se mais uma vez a velha noção de que semelhante conhece semelhante. Nós somos seres materiais, e por isto conhecemos as coisas individuais, que são materiais, e portanto semelhantes a nós. Mas a matéria-prima, por ser potência pura, é dessemelhante de Deus ao extremo – já que Deus é ato puro, sem mistura de potência. Assim, o argumento conclui que Deus não pode conhecer coisas singulares.

O argumento sed contra, mais uma vez, é bíblico, tirado do Livro dos Provérbios. Diz Provérbios 16, 2, na versão da Vulgata: “Todos os caminhos dos homens são evidentes (patent) aos seus olhos”.

São Tomás passa a apresentar sua resposta sintetizadora. E ele já começa afirmando que Deus conhece as coisas em sua singularidade. De fato, como São Tomás lembra, e nós já vimos em discussões anteriores, todas as perfeições das criaturas preexistem em Deus de maneira excelentíssima. E conhecer as coisas em sua singularidade é uma característica propriamente humana, uma das perfeições do nosso ser. Seria inadmissível, pois, admitir que o ser humano pudesse conhecer as coisas em sua individualidade concreta, mas Deus não o pudesse. E São Tomás transcreve um debate grego clássico, no qual Aristóteles, rebatendo Empédocles, afirma que Deus seria um grande ignorante se não conhecesse a discórdia (as diferenças, ou seja, aquilo que especifica, que separa, que individualiza).

E como Deus pode conhecer os particulares, se, em nós, eles se dão ao conhecimento pelos órgãos do sentido, e não pela inteligência? São Tomás nos explica que aquilo que em nós é composto e separado (o intelecto para conhecer os universais, abstratos, e os sentidos para conhecer o particular, material, concreto) em Deus dá-se de forma simples, unificada, perfeita: na sua inteligência suprema ele pode conhecer tudo quanto há para ser conhecido, seja abstrato, universal, concreto ou material.

O texto se alongou. Continuaremos depois.