Nos últimos textos, nós vimos como as palavras humanas podem ser usadas para falar de Deus, e em especial como podemos expressar, com várias palavras que não são sinônimas entre si, toda a riqueza que em Deus se apresenta como essencialmente una. E principalmente vimos o valor da analogia no uso da linguagem neste contexto. Que não é simples: parece possível imaginar que há várias maneiras de usar a linguagem, para falar de Deus, algumas metafóricas, algumas negativas, algumas causais e algumas afirmativas. Em cada um destes casos, portanto, corremos o risco, que já mencionamos em textos anteriores, de confundir o plano lógico, que diz respeito à forma de organizar nossa inteligência e nosso raciocínio, com o plano ontológico, vale dizer, com aquilo que é realidade em Deus.
O debate, portanto, que se propõe aqui, vai exatamente nesta linha; trata-se de descobrir a ordem de significação das nossas palavras, quando referidas a Deus, bem como a ordem das realidades em Deus e nas criaturas. A questão é: o conceito que as palavras exprimem reflete, em primeiro lugar, uma realidade criatural, para somente num segundo momento significar uma realidade divina? Caso sim, esta realidade, em Deus, é anterior à realidade criatural significada pela palavra?
São Tomás lançará, então, a hipótese controvertida que provoca o debate: parece que, quando usamos as mesmas palavras para as criaturas e para Deus, estas palavras exprimem mais propriamente as realidades criaturais do que as realidades divinas. E nos apresenta três argumentos em favor da hipótese controvertida inicial.
O primeiro argumento é lógico, e parte exatamente desta dualidade entre o lógico e o ontológico, a partir de uma ambiguidade do cronológico com o principiológico. Será que aquilo que vem cronologicamente primeiro no nosso conhecimento é também ontologicamente primeiro, vale dizer, mais fundamental em si mesmo? Na linha desta ambiguidade, o argumento afirma que nós atribuímos nomes às coisas que conhecemos, na ordem em que conhecemos. Ora, diz o argumento, nós sabemos que conhecemos as criaturas antes de conhecermos a Deus. Assim, o argumento conclui que as nossas palavras adequam-se primeiro às criaturas do que a Deus.
O segundo argumento, mais teológico, lembra o ensinamento do [pseudo-] Dionísio, que afirma que sempre nomeamos Deus a partir das criaturas. Portanto, quando predicamos de Deus as palavras que designam as criaturas, como “leão”, “rochedo” e outras similares, estas palavras significam antes as criaturas do que Deus. Assim, o argumento conclui que todas as palavras se predicam primeiro das criaturas do que de Deus.
O terceiro argumento rememora a via da causalidade para afirmar, citando novamente o [pseudo-] Dionísio, que todas as palavras que são predicadas de Deus e das criaturas são atribuídas a Deus como causa de todos os seres. A partir daí, o argumento diz que aquilo que se predica de algo como causa de alguma outra coisa é aplicado à causa de modo secundário, e de modo primário ao causado. E dá um exemplo: quando atribuo a palavra “saudável” a um remédio, por ser causa da saúde de um animal, a palavra “saudável” aplica-se muito mais propriamente ao animal, no qual a saúde encontra-se no sentido próprio, fundamental, do que ao remédio, para qual a palavra “saudável” só pode ser mencionada derivadamente, de modo secundário. E a partir disto o argumento conclui que as palavras são aplicadas mais propriamente, em primeiro lugar, às criaturas do que a Deus.
O argumento sed contra é bíblico. Cita Efésios 3, 14: assim dobro meus joelhos diante do Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, do qual toda paternidade toma o nome no céu e na terra. Assim, segundo este argumento, as palavras aplicam-se em primeiro lugar a Deus, mais fundamentalmente do que se aplicam às criaturas.
Como já vimos, o argumento sed contra não significa, simplesmente, a posição que será adotada por São Tomás. Ele é apenas parte do debate, e sempre insere posições que devem ser devidamente contrabalançadas e ponderadas para uma síntese adequada. São Tomás crê de fato no debate, e não está promovendo um jogo do tipo “o vencedor ganha tudo”. Ele é muito honesto na sua dialética, e é um servidor da verdade – que, ordinariamente, é muito mais sofisticada do que as teses apresentadas nos argumentos iniciais.
Na sua resposta sintetizadora, São Tomás vai distinguir duas situações diferentes, na utilização das nossas palavras com relação a Deus: 1) as palavras aplicadas por analogia e 2) as palavras aplicadas por metáfora.
Para os nomes aplicados por analogia, São Tomás nos dará uma breve lição sobre a atribuição analógica de nomes. Neste caso, há sempre um primeiro termo, ao qual a palavra se aplica fundamentalmente, de modo absoluto, e os termos relativos, ao qual ela se aplica apenas de maneira derivada e limitada, na medida da relação destes termos com o termo primário. O exemplo aqui é mais uma vez o da saúde: somente de um ser vivo pode-se dizer propriamente, em sentido originário, que é saudável. Assim, por exemplo, quando me sinto doente e faço um exame de urina, o médico pode me dizer que a minha urina está saudável, quando o exame não revelou anormalidades nela. Mas neste caso ele está usando a palavra “saudável” para a urina de um modo analógico, impróprio e derivado, embora não errôneo. A urina não é capaz de, em si mesma, gozar de nenhuma saúde. Mas, uma vez que ela é um sinal de saúde do ser vivo que está sendo examinado, a palavra é atribuída a ela analogicamente. Do mesmo modo, se ele me prescreve um remédio que me conduzirá de volta à saúde, ele pode me dizer que este remédio é salutar, ou seja, é um remédio saudável para mim, mas a aplicação da palavra “saudável” para o remédio também é derivada, analógica e, a rigor, imprópria, embora não errônea: o remédio não é capaz, em si mesmo, de gozar de saúde, mas ele é causa do restabelecimento da saúde do ser vivo ao qual se destina. Por isto tudo, o termo saúde é atribuído em primeiro lugar ao analogante, e apenas em segundo lugar aos analogados.
No caso da metáfora, diferentemente do caso da analogia, o sentido forte da palavra não é aquele que ela tem quando aplicado ao ser que é objeto da comparação, senão o sentido que ela tem quando aplica-se ao ser que fornece o critério, o paradigma. . Neste caso, o sentido próprio da palavra é aquela que se aplica à criatura, cuja qualidade ou aspecto se predica daquela a quem a metáfora é atribuída. E São Tomás nos traz o exemplo de uma metáfora: “o prado sorri”. Ora, uma pradaria não pode rir; neste caso, a metáfora diz simplesmente que um terreno bem cultivado ou florido nos é tão agradável quanto o rosto de uma pessoa que sorri. Mas a palavra “sorrir” aplica-se propriamente à pessoa, e não ao prado. Neste caso, quando aplico metáforas a Deus, a palavra é imprópria para designar Deus, e esta designação se dá apenas de modo secundário e derivado, quando aplicada a ele. Se digo que Deus é um leão, digo apenas que ele age fortemente naquilo que faz, como o leão age com suas presas, mas a palavra “leão”, aqui, aplica-se impropriamente a Deus.
Mas no caso daquelas palavras que não são aplicadas metaforicamente a Deus, São Tomás resgata aquela discussão que foi feita no artigo 2 desta questão: se estas palavras estão sendo aplicadas substancialmente a Deus, elas podem sê-lo em duas circunstâncias: pela via da causalidade e pela via da eminência. Aqui, como também no artigo 2, São Tomás nega que a via da causalidade seja a única via para nomear Deus. Quando dizemos, por exemplo, que Deus é bom, não estamos dizendo apenas que Deus é a causa de toda bondade. Se fosse assim, a palavra “bom” aplicar-se-ia mais propriamente à criatura do que a Deus. É como se estivéssemos dizendo assim: olha como as criaturas são boas, e a partir da bondade das criaturas pudéssemos afirmar apenas que Deus é o causador desta bondade criatural, sem afirmar diretamente que o próprio Deus é bom.
Mas no caso da via da perfeição ou da eminência, não é isto que queremos dizer quando designamos Deus. Aqui, dizemos que a perfeição que encontramos nas criaturas existe muito mais propriamente em Deus do que nelas, e por isto as palavras, que formamos pelo conhecimento da perfeição limitada existente nas criaturas, aplicam-se a Deus muito mais propriamente do que a elas. Neste caso devemos pensar em termos de analogia: o primeiro, o termo analogante é Deus, e os analogados são as criaturas. Isto na ordem do ser. Na ordem da linguagem, os nossos conceitos formam-se primeiro do conhecimento que obtemos pelas criaturas, e por isto seu conteúdo exprime mais propriamente as perfeições limitadas destas do que a perfeição substancial e infinita de Deus. São Tomás é muito cuidadoso, sempre, para distinguir adequadamente a ordem do ser da ordem do conhecer, distinção que a filosofia moderna já não consegue fazer tão claramente.
Ele passará a responder aos argumentos objetores iniciais. O primeiro argumento é exatamente aquele que confunde, invertendo, a ordem do conhecer com a ordem do ser. E diz que nós nomeamos assim como conhecemos. São Tomás responderá laconicamente que isto é verdade, mas apenas para a nossa linguagem, ou seja, para descrever a própria maneira com que raciocinamos. Impomos primeiro as palavras às criaturas, depois as impomos a Deus. Mas isto não significa que elas sempre exprimem mais adequadamente aquilo que as criaturas são do que aquilo que Deus é, conforme as distinções que foram feitas na resposta sintetizadora acima.
O segundo argumento objetor é aquele que diz que os nomes das criaturas, que impomos primeiro, são aplicados a Deus sempre impropriamente. São Tomás responde que isto é verdade para as metáforas: quando chamamos Deus de leão, ou de rochedo, estamos de fato procedendo assim. Mas quando o nomeamos substancialmente a situação ocorre de modo diverso, conforme as distinções feitas na resposta sintetizadora.
A terceira objeção quer reduzir todas as palavras que aplicamos a Deus à via da causalidade; assim, o argumento conclui que a causa é sempre nomeada em segundo lugar com relação ao efeito, assim como o remédio, causa da saúde, é chamado de “saudável” apenas de modo impróprio. São Tomás responde que isto seria verdade se todas as nossas palavras fossem aplicadas a Deus apenas pela via da causalidade; mas esta não é a única via para nomear Deus, como já vimos acima.
Esta questão é longa e complexa, mas essencial na compreensão da própria forma com que Tomás usará a linguagem na Suma. Nossos conceitos formam-se primeiro nas criaturas, mas podem refletir aspectos que são mais próprios de Deus do que delas – e neste caso significam mais propriamente o que Deus é do que aquilo que as criaturas são. Carregarão dentro de si, porém, sempre o limite de serem linguagem humana, calibrada para designar a realidade criatural. Somente na visão beatífica, e em razão da luz da glória, este limite conceitual poderá ser superado. Porque conceberemos Deus, então, assim mesmo como ele é, e o seu logos, que é a sua Palavra única, plena e eterna, falará dele em nós.
26 de julho de 2019 at 20:47
Jorge Ben Jor, na música Assim Falou Santo Tomaz de Aquino, faz referência a este artigo da Suma, tanto que canta o versículo citado no sed contra.
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