O conhecimento sensorial, vale dizer, aquilo que conhecemos apenas como informações que nos chegam através dos sentidos, envolve apenas fenômenos materiais. Uma parte da minha pele encosta numa chapa quente, e o tato me informa que corro o risco de queimar-me. Isto se dá por meio de impulsos elétricos, transmitidos de e para o cérebro, a partir do contato entre a coisa e a pele. Os dados relacionados a esta interação ficam na memória que, como demonstra o mundo da informática, tem natureza material, e pode ser replicada em discos magnéticos ou mesmo em cartões de circuitos binários. Trata-se, pois, de conhecimento material que gera informações materiais através do contato material de um órgão material com uma coisa material, e cujo resultado é armazenado materialmente na memória. Temos, portanto, no conhecimento sensível, o contato da coisa com um órgão sensorial material em algum meio adequado (a luz para as coisas visíveis, o ar para as coisas audíveis ou olfativas e o toque para as coisas tateáveis ou degustáveis. o armazenamento da informação (ou species sensível) num órgão material, que é a memória.

No conhecimento intelectual, o chamado “intelecto agente” ilumina os dados da memória (informações articuladas e coerentes construídas pela integração dos dados sensoriais, formando uma imagem sensível que São Tomás chama de “fantasma”) e abstrai dali a forma a partir dos dados sensoriais concretos, permitindo ao chamado “intelecto possível” receber a essência da coisa, que é um universal. A essência ou species da coisa é imaterial, e todo o processo de conhecimento intelectual envolve a capacidade de conhecer abstratamente as formas que se dão a nós de modo material. Nossa inteligência tem, como objeto próprio, as essências das coisas materiais; mas a essência, sendo um universal, é, em si mesma, imaterial. É por isto que o nosso conhecimento intelectual, sendo imaterial, inicia-se com informações particularizadas, mas devidamente estruturadas (species sensível), mas ilumina-se pelo intelecto agente e completa-se no intelecto possível, estruturas humanas estritamente imateriais. Por sua natureza, portanto, o intelecto humano conhece imaterialmente aquilo que percebe como material.

Mas e quanto ao conhecimento de Deus? A coisa a ser conhecida aí não é um ente no sentido comum do termo. É o próprio Deus, e portanto tem uma natureza diferente das naturezas criadas, para as quais nosso intelecto está proporcionado. Se a memória armazena os dados (species) do conhecimento sensível, e o intelecto possível, que é imaterial e criado, armazena as species do conhecimento intelectual das coisas criadas, como se daria o conhecimento de Deus por essência em nós? Não temos uma estrutura capaz de receber a species de Deus, nenhuma criatura tem. Conhecer-se naturalmente é próprio de Deus – como diziam os antigos, o semelhante conhece o semelhante. Os seres estritamente materiais conhecem materialmente, sensivelmente, individualmente. Os seres, como nós, materiais mas intelectuais, são capazes de conhecer imaterialmente o que é material. Os seres espirituais, como os anjos, conhecem intelectualmente de modo imaterial. Apenas Deus conhece sua própria divindade diretamente, porque só Deus é semelhante a Deus.

Mas, como vimos nos textos anteriores, o ser humano tem a potencialidade para conhecer Deus essencialmente, mas é uma potencialidade incompleta, que depende da participação do próprio Deus para atualizar-se. Conhecer Deus essencialmente é uma potencialidade que não podemos mover ao ato sozinhos. É preciso adquirir, de certa forma, uma certa deificação, por participação, para chegar a atualizá-la. É esta deificação que Deus cria em nós, ao iluminar nosso intelecto com a chamada “luz da glória” que ele cria em nós para que possamos vê-lo em essência. Criatura material vê o material materialmente, criatura espiritual vê o material espiritualmente ou mesmo o espiritual criado (anjo vê anjo), criatura iluminada pela glória de Deus vê Deus, tornando-se a ele semelhante.

É isto que São Tomás começará a explicar agora, mas somente terminará de explicar quando concluir a própria Suma. Tudo agora parece misterioso, complexo e incompreensível. Tenhamos paciência e vamos nos contentando com as pistas que São Tomás nos entrega no caminho.

São Tomás nos explica, na resposta sintetizadora deste artigo, que, para que alguma coisa seja elevada acima de sua própria natureza, precisa receber alguma disposição superior. Ele dá o exemplo do ar e do fogo: o ar pode participar da combustão, mas este não é o seu estado natural. Ele é apenas comburente, mas não combustível; para que o ar torne-se chama, precisa que se juntem a ele o combustível adequado e a chama que dará a ignição da queima. Portanto, para que a potencialidade que tem o oxigênio do ar de participar da chama de fogo venha a atualizar-se, precisam estar disponíveis algum combustível e alguma centelha de ignição.

Assim, prosseguindo na analogia de São Tomás, a nossa alma é como que o comburente, na visão de Deus por essência. É preciso que se acrescente a ela o combustível, que é a luz sobrenatural criada (ou lumen gloriae) que aumenta o poder do nosso intelecto para receber nele a própria presença essencial de Deus, e a ignição que é dada pela própria essência de Deus, vale dizer, o próprio Deus que se dá a conhecer de modo imediato. Assim, a visão beatífica de Deus se dá quando a nossa natureza é elevada, pela luz da glória, à capacidade sobrenatural de receber o próprio Deus em si – tornando-se a ele semelhante. Deus cria, portanto, em nosso espírito, a luz sobrenatural que nos permitirá vê-lo ao tornar-nos semelhantes a ele. Só assim, teremos a visão do próprio Deus. Ele será meio e mensagem, capacidade e objeto, como que acrescentando-se a nós para que o recebamos.

Colocada esta resposta maravilhosa, São Tomás passará a responder às objeções iniciais.

O primeiro argumento objetor, que procura defender que a noção de uma luz criada por Deus em nosso intelecto de modo a permitir-nos vê-lo é uma noção equivocada, é aquele argumento que diz que aquilo que é luminoso por si mesmo não precisa de nenhuma luz adicional para ser visto.

São Tomás responderá: não é que esta luz torne Deus visível, ou compreensível. Ele já o é, e em grau máximo e em si próprio. Esta luz, no entanto, dá ao nosso intelecto o poder de conhecê-lo. E ele compara nossa potencialidade para ver Deus com aquelas potencialidades humanas para atividades cuja realização pressupõe a aquisição de uma formação própria – aquilo que São Tomás chama de “hábito”, palavra que, na filosofia dele, tem um sentido um pouco diferente daquela que temos hoje em dia.

Hoje, a palavra “hábito” tem o sentido de um mero costume: nós, de hoje em dia, poderíamos dizer, por exemplo, que uma criança que costuma sentar todo dia à frente do piano e martelar aleatoriamente as teclas tem o “hábito” de tocar piano. Isto seria incompreensível para São Tomás. O “hábito” de tocar piano, para ele, é próprio apenas de quem obteve toda a formação necessária para dominar adequadamente o instrumento. Quer dizer: o piano é, em si mesmo, perfeitamente “tocável”. Todo ser humano, ordinariamente, tem o potencial de ser um pianista. Mas somente aqueles que aperfeiçoaram este potencial através da formação teórica e prática adequada adquiriram o “hábito” de pianista, e portanto são capazes de tocá-lo adequadamente. Neste sentido, analogicamente, a luz da glória se soma à nossa potencialidade de conhecimento essencial de Deus para atualizá-la e permitir-nos vê-lo como ele é.

Usando a física da sua época, São Tomás diz que, do mesmo modo que a iluminação natural põe o olho físico em contato com as coisas vistas, a luz criada da glória põe o intelecto humano em contato imediato com Deus. E este contato imediato é necessário para o conhecimento. São duas, portanto, as condições para o conhecimento: 1. o contato entre o conhecedor e o conhecido, e 2. Que de certo modo o conhecedor torne-se um com o conhecido, ainda que intencionalmente. Aprofundaremos mais isto quando tratarmos da antropologia da Suma. Mas, por enquanto, basta saber que a luz criada permite ao intelecto humano tanto o contato imediato com a essência de Deus quanto a unidade de ser que caracteriza o conhecimento no sentido próprio. Conhecer Deus por essência é mais que encontrá-lo; é fazer-se um com ele, e não é por outra coisa que Jesus ensina: a vida eterna não é outra coisa senão conhecer a Deus. É claro que a noção de conhecer, aí, é muito diferente da noção contemporânea de conhecimento como um saber objetivo, informativo e catalogador. Conhecer, no sentido próprio, é absorver em si aquilo que se conhece e tornar-se um com ele.

A segunda objeção é aquela que diz que postular uma “luz da glória” criada como necessária para que a criatura possa conhecer Deus significa introduzir um intermediário entre Deus e a criatura que conhece, e, portanto, declarar que o conhecimento de Deus pela criatura sempre será indireto, mediado e reflexo; São Tomás responderá que a luz necessária para ver a essência de Deus não é como um espelho ou uma imagem na qual vemos Deus; esta luz é, antes, um aperfeiçoamento do próprio intelecto humano, de modo a torná-lo apto a receber o próprio Deus, essencialmente, num contato direto. Assim, a luz criada da glória não é algo no qual se veja Deus, como eu poderia dizer que o espelho é algo no qual eu vejo a imagem. Ela é, no entanto, algo sob cuja ação se pode ver a Deus; para usar um exemplo da tecnologia de hoje, esta luz seria análoga aos óculos especiais que nos permitem ver as coisas no espectro infravermelho. Nossos olhos não são capazes de ver o espectro infravermelho sem estes óculos especiais, mas uma vez que o usamos, ele se torna realmente visível para nós.

O terceiro argumento objetor diz que, se há uma luz criada para possibilitar a visão de Deus, então é possível imaginar uma criatura em quem esta luz fosse natural, e assim pudesse ver a essência de Deus sem necessidade de nenhuma outra condição, o que seria impossível para qualquer criatura. Com isto, este argumento quer provar que não se pode pleitear a existência de uma luz criada como condição para a visão direta de Deus pela criatura inteligente.

São Tomás responderá com a velha (e verdadeira) noção escolástica de que o conhecimento se dá de semelhante para semelhante. As coisas materiais são capazes de conhecer naturalmente aquilo que é material. É por isto que o olho, sendo um órgão material, é capaz de enxergar uma bola, mas não de enxergar o próprio conceito de esfera. O intelecto, por ser imaterial, mas criado, é capaz de apreender os conceitos referentes às formas criadas, ou seja, sendo criatural, apreende o que é imaterial nas criaturas. Aquilo que é divino somente pode ser conhecido pelo que é divino. É preciso, pois, que Deus crie uma luz capaz de divinizar o entendimento criado, de modo a torná-lo semelhante a Deus e ser capaz de conhecê-lo.

Assim, do mesmo modo que a forma do fogo só é natural para aquilo que está queimando, a forma de Deus só é natural para aquilo que é divino. A divinização requer, pois, a elevação da criatura pela graça. A luz da graça, portanto, é criada, mas não é natural a nenhuma criatura, porque a nenhuma criatura é natural ser divinizado. O argumento, portanto, parece confundir a noção de criada com a noção de natureza. Uma luz criada que eleva a natureza acima de suas forças é sempre sobrenatural, por definição.