Bom, agora vem a pergunta que interessa: se Deus é uno. Esta unidade de um Deus trino deve, então, ficar muito bem esclarecida aqui, antes mesmo de adentrarmos o estudo da Trindade santa.
Trata-se, pois, aqui, de aplicar à compreensão da Revelação as noções que viemos estudando nos artigos 1 e 2 desta mesma questão. Então, para iniciar o debate, São Tomás nos diz que é necessário adotar a hipótese negativa: “parece que Deus não é uno”. O debate será rico, porque estabelecerá exatamente os fundamentos da nossa fé em resposta a quanto não entenderam adequadamente a unidade de um Deus trino. Não são poucos.
São Tomás nos traz dois argumentos objetores, que problematizam a unidade de Deus. O primeiro argumento é bíblico. Cita a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios (8, 5), na qual, no contexto do debate sobre a conveniência, para os cristãos, de comer carne sacrificada aos ídolos, São Paulo escreve: “há, de fato, muitos deuses e muitos senhores”. Desta frase sacada da Bíblia, o argumento conclui que há elementos bíblicos revelados para afirmar que Deus não é uno.
O segundo argumento aplica os conceitos de unidade como número e de unidade como indivisão a Deus, para concluir que de nenhum dos dois modos podem-se aplicar-lhe. Quanto à unidade como princípio de quantificação, o argumento afirma que não se pode quantificar Deus de nenhuma forma. Deus não pode ser medido, quantificado, contado, e portanto não se pode predicar dele a unidade no sentido matemático. Quanto à noção de unidade como indivisibilidade, ela inclui uma noção negativa (a noção de indivisibilidade) e toda noção negativa tem em si um viés de privação, de imperfeição, que é totalmente inconveniente para Deus. Então, o argumento conclui que, se não se pode afirmar que Deus é uno no sentido matemático, nem no sentido da indivisibilidade, então a conclusão é que não se pode afirmar que Deus é uno.
O argumento contrário, ou sed contra, é retirado da Bíblia. Trata-se da célebre oração do Shemá (Dt 6,4), que é a oração básica do judaísmo. Ela é chamada assim porque inicia com as palavras “ouve, ó Israel”, que em hebraico se diz “Shemah, Israel”. A oração, como registrada na Bíblia, inicia assim: “ouve, ó Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor!”.
São Tomás, na sua resposta sintetizadora, apontará três razões pelas quais se deve afirmar a unidade de Deus. São elas:
1. O argumento da simplicidade, ou, diríamos melhor, o argumento da incomunicabilidade. É claro que a simplicidade define-se como a ausência de composição, de partes. O que não tem partes não se pode dividir. Mas São Tomás vai mais longe: ele quer identificar exatamente aquilo que individualiza, que torna um ser incomunicável, que torna impossível que exista mais de um daquela mesma coisa.
Sabemos que, no sistema aristotélico-tomista, Deus é o ser simples por definição: nele não há distinção entre a essência e a existência. Sua essência é existir. Os demais seres têm alguma composição: os anjos existem por dom de Deus, e portanto não têm sua existência como parte de sua essência. São compostos, neste sentido. Como se pode distinguir um anjo do outro? Pela essência. Podemos dizer que cada anjo é de uma espécie diferente: eles são de espécies estritamente individuais. Não há dois indivíduos angélicos da mesma espécie. No caso dos seres materiais, há mais uma composição, além daquela que distingue essência de existência; é a composição entre matéria e forma. Neste caso, a forma é compartilhada por todos os seres da mesma espécie: a forma não individualiza. Ela apenas especifica. Por isto, por exemplo, todas as formigas são da mesma espécie, e por isto compartilham exatamente da mesma forma. E o que as separa e diferencia uma da outra? A matéria. A matéria é fator de individualização nos seres materiais. Uma formiga tem esta matéria aqui, e outra formiga tem aquela matéria lá; mas suas formas são a mesma. Não similares, nem semelhantes. É exatamente a mesma forma, compartilhada por indivíduos diversos pela multiplicação de espécimes na matéria signata. Não há nada que não seja compartilhado entre duas formigas, senão a matéria que as individualiza. Neste sentido, apenas a matéria é incomunicável, entre dois seres materiais quaisquer. A matéria desta formiga está nesta formiga, individualizando-a, enquanto a matéria daquela formiga está naquela formiga, individualizando-a. A forma delas é compartilhada, e por isto não pode ser chamada de incomunicável.
No caso dos anjos as coisas não são assim: a própria forma deles os individualiza, já que eles não têm matéria em sua composição. Então, podemos dizer que os anjos são individualizados pela forma. A sua forma é incomunicável; não há dois anjos compartilhando a mesma forma. Os anjos compartilham entre si a existência, que é um dom de Deus para cada um e para todos eles, mas não a forma. A forma dos anjos é incomunicável.
E quanto a nós, seres humanos? Somos seres materiais, e por isto a matéria signata, ou seja, a matéria que constitui o meu corpo como distinto do teu, seria suficiente para nos individualizar. Mas a nossa alma espiritual, como forma específica da raça humana, seria igualmente compartilhada por todos os seres humanos. A alma humana não seria, então, incomunicável? Isto seria assim, se não tivéssemos uma peculiaridade que nos separa de todos os outros seres materiais: temos uma alma espiritual, ou seja, nossa alma tem dimensões que não se relacionam com a matéria, nem operam através dela. De certa forma, cada alma humana excede seu próprio corpo material, e opera, em parte, para além dele. Neste sentido, cada alma humana tem algo de compartilhado, que é a participação na espécie humana, e algo de incomunicável, além da matéria: a sua própria personalidade. Teremos a oportunidade de estudar a antropologia tomista quando lermos as questões 75 a 102 desta primeira parte da Suma. Por ora, basta lembrar que o ser humano é pessoa, dotado de espiritualidade, de livre arbítrio, e de alma subsistente. O que me torna diferente, digamos, de Sócrates, não é simplesmente que eu tenho este corpo e ele tem aquele: a minha inteligência e o meu livre arbítrio são próprios, são meus, e são diversos dos de Sócrates ou de quaisquer outras pessoas. Em mim, como em qualquer ser humano, são incomunicáveis tanto a matéria que me individualiza, quanto a espiritualidade que me personaliza. Mas compartilho com todas as criaturas a minha existência, que me é dada por Deus em razão da minha criaturalidade, e está fora da minha essência, e a minha forma específica de ser humano.
Como todos os seres materiais, então, os seres humanos são individualizados pela matéria signata, que é incomunicável entre os indivíduos corporais: cada um tem a sua porção de matéria em seu próprio corpo. Nossos professores de física sempre nos ensinaram que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo. Como os anjos, de certo modo, os seres humanos são individualizados pela forma, porque a nossa alma espiritual nos dá, além das características da espécie humana, a pessoalidade, que se apresentam como inteligência e livre arbítrio, individuais. A pessoalidade, em nós e nos anjos, é incomunicável. Mas o ato da existência é comum: tanto nos anjos, como em nós, é um dom externo à nossa essência: compartilhamos com os anjos, e com a criação inteira, a nossa criaturalidade.
E Deus? A sua forma divina não tem composição material. Portanto, não pode se especificar pela matéria. Mas tem em si a existência como essencial, ou seja, sua essência é seu existir. Diferentemente das criaturas, Deus não tem uma existência dada de fora, mas ele é a sua própria existência. Esta é uma característica estritamente divina, incomunicável nele: Deus se individualiza pela sua própria existência. A forma divina se esgota na existência divina, por definição. A divindade mesma é um certo universal concreto: o que é divino existe em Deus e só nele, e é incomunicável a qualquer outro ser que não seja Deus. Neste sentido, por ser isento de qualquer composição, Deus também é isento de qualquer comunicação [no sentido metafísico da palavra]. A divindade é incomunicável, e se individualiza no seu existir essencial e simples.
Se Sócrates esgota a sua “socraticidade” irrepetível e incomunicável em razão da sua matéria signata e da sua personalidade, como cada um esgota sua própria pessoalidade na sua própria pessoa individual e irrepetível em razão dos mesmos fatores, Deus esgota toda a divindade no seu próprio existir divino simples e igual à sua essência. O que Deus é se esgota em Deus. Neste sentido, a indivisibilidade por definição está em Deus, pela sua absoluta incomunicabilidade. Deus é um.
2. O argumento da perfeição absoluta. Como vimos quando estudamos a perfeição de Deus na questão 4, Deus guarda em si todas as perfeições de modo inesgotável. Então como poderia existir mais de um Deus? Algo teria que distinguir um suposto deus do outro, ou seja, seria necessário que um deles tivesse perfeições que o outro não possuísse, e vice-versa. Portanto, cada um destes deuses não teria em si a plenitude da perfeição, porque somente assim poderia distingir-se de outros deuses. Ora, um deus que não tem em si a plenitude da perfeição, mas apenas uma parte delas, pode ser qualquer coisa, menos um Deus verdadeiro. Vale dizer, para que houvesse mais de um deus, seria preciso que cada um deles não satisfizesse os critérios necessários para ser Deus, senão não seria possível distinguir entre eles. Seriam uma espécie de liga de super-heróis…
O que individualizaria um deus de outro, se não puderem se distinguir nem pela matéria, nem pela existência doada desde fora, nem pela diferença entre as perfeições possuídas? Ora, para ser Deus, é preciso não ter matéria, não ter a existência recebida desde fora e acumular em si todas as perfeições de modo inesgotável. Então somente pode haver um ser assim: não há critério de distinção possível para um segundo ser. A divindade, por ser plena em perfeição, é indivisível e incomunicável. Deus é um.
3. O critério do governo da criação. O universo é obviamente um, no sentido de que ele se constitui num todo harmônico. Nele, há uma perfeita interação entre os seres, uma ordem que revela e faz pressupor um só governo, uma só mente (digamos assim) por trás da sua estrutura e do seu direcionamento. De fato, o universo não tem a unidade em si mesmo, porque as coisas criadas são plúrimas. No entanto, como vimos no artigo 1 desta mesma questão 11, toda pluralidade se reduz a uma unidade mais alta: o universo é um conjunto. Isto significa que a unidade entre seus elementos é acidental: decorre do critério unificador do próprio conjunto. Este critério de unidade não pode, portanto, estar substancialmente no interior do conjunto: tem que ser anterior e superior ao próprio conjunto, porque é o critério que estabelece o conjunto, e não vice-versa. Logo, é necessário que a unidade exista substancialmente acima e fora do conjunto; e a única possibilidade de uma unidade substancial, capaz de dar critério de unificação para o conjunto da criação, é a simplicidade divina, em que seus atributos não são acidentais, mas essenciais, por definição. Logo, Deus é um.
Assim, tendo estabelecido de maneira cabal que Deus é um, por sua simplicidade, por sua perfeição e pela ordem imposta à criação, São Tomás passará a responder às objeções iniciais.
A primeira objeção, como nos lembramos, é a citação da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios (8, 5), em que São Paulo diz aos Coríntios: há de fato muitos deuses e senhores. São Tomás nos explica que São Paulo está apenas constatando o fato de que as pessoas, no mundo pagão de então, adoravam muitos deuses e senhores, mas não está afirmando – e nem poderia – que estas pessoas estavam certas em fazer isto. Na mesma passagem, São Paulo afirma categoricamente que há um só Deus, verdadeiro, a quem os cristãos devem culto. Mais uma vez, São Tomás nos mostra quão perigoso é retirar uma passagem bíblica do seu contexto e forçar uma interpretação unilateral.
A segunda objeção é aquela que afirma que não se pode predicar a unidade de Deus, nem como número, nem como indivisibilidade, porque 1. A unidade é um número, e números são medidas, e Deus não pode ser medido, e 2. A unidade que é transcendental do ser é a indivisibilidade, e a indivisibilidade é uma privação, e Deus é perfeito.
São Tomás nos ensinará que, de fato não se pode predicar a unidade, como princípio do número, ou seja, de quantificação, de Deus. Somente os seres materiais são quantificáveis. Deus não é uno neste sentido. O argumento objetor, portanto, está certo, aqui. Esta é a importância das respostas de São Tomás: ele não está aqui para massacrar seus debatedores, mas para aprender com eles, identificar os equívocos e eventualmente acolher e integrar seus argumentos, como faz agora. A figura do São Tomás como professor duro e implacável é falsa.
Mas não é assim com a indivisibilidade. Na verdade, a indivisibilidade, como vimos acima, não é uma privação: é só um jeito humano de falar daquilo que é inteiro, íntegro e pleno. É uma espécie de dupla negação: a divisão é a negação da inteireza, e a indivisibilidade é a negação da negação da inteireza. Ocorre que nossa inteligência humana está “calibrada” para conhecer as coisas compostas, em especial as coisas materiais, que são unas em ato mas divisíveis em potência. Assim, para falar de Deus, temos que excluir aquilo que nas criaturas materiais é a potencialidade de divisão, e fazemos isto pela palavra “indivisibilidade”, que soa como negativa, mas é positiva. É a mesma lógica que usamos para afirmar que Deus é incorpóreo e infinito, por exemplo: pensamos em coisas materiais, que são sempre corpóreas e finitas, depois removemos mentalmente a corporeidade e a finitude e aplicamos a noção a Deus. Esta forma humana de falar será mais aprofundada quando estudarmos a questão 12 e, mais especialmente, a questão 13, que trata dos “nomes de Deus”, ou seja, de como podemos nomear, com a nossa linguagem humana, aquilo que Deus é em si mesmo. A questão 13 é uma questão estrutural. Espero que cheguemos rapidamente a ela, para podermos contemplar mais de perto algumas fundações e colunas desta nossa Catedral.
21 de junho de 2017 at 02:33
Qe beleza, Paulinho! Muito obrigado!
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