Nas diversas questões que já estudamos, a respeito das características de Deus, há sempre uma preocupação de São Tomás em estabelecer em que sentido se pode falar de Deus, e em que sentido se pode falar destas mesmas características nas criaturas. Há, aí, uma estrutura da Suma, que será melhor evidenciada quando estudarmos a questão 13. é como no depararmos com as antigas vigas e colunas desta catedral maravilhosa, e mais tarde teremos a oportunidade de entender mais um pouco sobre as técnicas de sustentação – quando contemplarmos o modo pelo qual as colunas são construídas, estudando a questão 13.

Por ora, ressaltamos a questão da analogia: em cada característica de Deus, desde a sua existência, sua simplicidade, sua perfeição, sua bondade, sua infinitude, sua ubiquidade, sua imutabilidade e agora sua eternidade, existe uma preocupação constante de São Tomás de evidenciar duas coisas: primeiro, em que medida estas características são contempladas nas criaturas para tornarem um pouco mais inteligíveis para nós aquilo que Deus é em si mesmo. As criaturas têm em si semelhanças que nos permitem falar de Deus, de modo muito limitado, mas, sem dúvida, verdadeiro. E se assim não fosse, qualquer possibilidade de uma revelação, ou seja, de uma autodoação de Deus a nós, estaria impossibilitada desde o princípio. Mas não é assim; a doação é possível, porque a inteligência humana – e o próprio ser humano – tem abertura para o infinito. No caso da linguagem, esta abertura é a analogia. O próprio Catecismo da Igreja Católica nos explica isto, nos § 40 a 43. Convido todos a dar uma olhadinha lá.

Além de demonstrar como exatamente partir das perfeições criadas para entender a perfeição absoluta de Deus, estes artigos da Suma que tratam das “características próprias de Deus” querem nos deixar muito claro qual é o termo analogante e qual o termo analogado, no nosso discurso sobre Deus. É preciso muita atenção aqui: o raciocínio por analogia tem seus limites, e discerni-los é muito difícil. Requer muita oração, muito estudo, muita contemplação, muita prudência; já fomos advertidos pelo IV Concílio Lateranense, de 1225, (citado também no Catecismo da Igreja Católica, § 43) de que “entre o Criador e a criatura não se pode notar uma semelhança, sem que se deva notar entre eles uma dessemelhança ainda maior”. É isto que São Tomás quer fazer nestes artigos que tratam das “características próprias de Deus”. Sem negar que tais características podem ser, em alguma medida, participadas pelas criaturas, São Tomás quer purificar nossas noções, evitando que, por vício de raciocínio analógico, percamos a noção de que Deus é o absoluto e simples, as criaturas são compostas e participantes. Como São Tomás nos diz logo no início da obra “Do ente e da Essência”, a ordem do ser tem uma estrutura diferente da ordem do conhecer humano. Nós, humanos, conhecemos primeiro aquilo que é composto, derivado, participante e contingente, para chegar, por árduos caminhos, àquilo que é simples, originário, absoluto e necessário. Esta é a ordem do nosso conhecimento, mas não é a ordem do próprio ser: na ordem do ser, o que é simples, originário, absoluto e necessário precede sempre o que é composto, derivado, participante e contingente. Explicando de modo mais fácil: Deus, em seu ser, vem antes das criaturas, tanto lógica quanto ontologicamente. Mas nosso conhecimento das criaturas vem antes, para nós, que nosso conhecimento de Deus. Com isto, temos uma tendência a não discernir aquilo que é primeiro para nós daquilo que é primeiro em si mesmo, e acabamos querendo julgar Deus a partir das criaturas. Este é um risco que toda a filosofia idealista, toda a filosofia que parte do “pensar” não consegue evitar. São Tomás repetidamente nos advertia deste risco já no século XIII, prevendo profeticamente que, se esta ordem fosse esquecida, o caminho do conhecimento de Deus ficaria enormemente dificultado para nós. Se colocamos a ordem do pensar no centro, ficamos impossibilitados de discernir a diferença entre a ordem do ser e a ordem do conhecer, e o resultado é aporético: sem poder mais raciocinar analiticamente, nosso discernimento sobre Deus fica obscurecido, e por consequência também nosso discernimento sobre aquilo que resulta do agir de Deus, a criação. Com isto, caímos no ceticismo e mesmo no niilismo, que é exatamente onde estamos hoje. Talvez, se admitirmos voltar a Tomás, evitemos este erro.

Neste artigo que agora estamos a debater, São Tomás quer evidenciar exatamente em que sentido podemos dizer que a noção de eternidade é própria de Deus e em que sentido ela é compartilhada pelas criaturas. Por isto, para iniciar o debate, ele nos propõe a hipótese controvertida: parece que a eternidade não é uma característica própria de Deus, e pode ser predicada univocamente de Deus e de, pelo menos, algumas de suas criaturas. Ele nos apresenta três argumentos em favor da hipótese inicial.

O primeiro argumento é bíblico, retirado do Livro de Daniel (12, 3); na tradução da Vulgata, que São Tomás usava, o versículo nos diz que “aqueles que ensinaram a muitos os caminhos da justiça, serão como estrelas nas eternidades perpétuas”. Uma vez que a Vulgata, nesta passagem, usa o termo “eternidades”, assim mesmo no plural, o argumento conclui que a eternidade não pode ser própria só de Deus, porque então o termo jamais poderia ser utilizado no plural. E o argumento conclui que, portanto, não só Deus tem a eternidade como característica própria de modo unívoco e absoluto.

O segundo argumento também é Bíblico. Parte da citação do evangelho de Mateus (25, 41): “apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno”. Ora, a partir daí o argumento conclui que não só Deus é eterno em sentido próprio.

O terceiro argumento parte da categoria filosófica das “coisas necessárias”, como opostas às coisas contingentes. Na sua resposta a este argumento, lá na frente, São Tomás explicará em que sentido se pode falar, filosoficamente, em necessidade. E esta é uma das dificuldades de ler a Suma: muitas vezes um conceito é utilizado por São Tomás, como este conceito de “coisas necessárias”, e só será explicado mais adiante. Por ora, fiquemos com uma noção superficial de coisas necessárias: dizem-se necessárias aquelas coisas que não podem não ser, ou que não podem ser de outro modo senão do jeito que são; ou seja, são como são e não podem ser de outro modo, ou mesmo deixar de ser.

O argumento nos lembra que tudo que é necessário é eterno. E em seguida, afirma que há muitas coisas necessárias, lembrando, por exemplo, as conclusões lógicas necessárias. Dadas duas premissas verdadeiras, na ordem certa, a conclusão advirá sempre e necessariamente. Destes pressupostos, este argumento concluirá que as coisas necessárias são eternas no mesmo sentido em que Deus é eterno. Logo, afirmará categoricamente que nem só Deus é eterno no sentido próprio do termo.

O nosso texto ficou um pouco mais longo que esperávamos. Concluiremos no próximo.