Na questão anterior, nós havíamos debatido a ubiquidade de Deus. Ou seja, fomos levados, por São Tomás, a entender que a categoria do “espaço” representa um limite criatural, que não se aplica a Deus. Ele é ubíquo, ou seja, todos os lugares se apresentam a ele por inteiro. Tudo lhe está aberto, e ele pode dizer-se ubíquo no sentido forte do termo: todas as coisas lhe estão presentes, ele tem a elas acesso imediato e direto, e todas estão sob o seu poder.

No primeiro artigo desta questão 10, também recebemos de São Tomás a noção de eternidade, que ele resgatou em Boécio. Já sabemos que a eternidade é a posse total, simultânea e perfeita de uma vida interminável. A questão agora trata de saber se este conceito se aplica a Deus. Posso definir a vida divina como uma vida eterna, ou ela de algum modo transcende a própria eternidade? Ou de algum modo a relação de Deus com o tempo é tão intrínseca que é inadequado atribuir-lhe a eternidade retirando-o do tempo?

Se pudéssemos fazer uma analogia, seria possível falar da “eternidade” como uma vida “ubíqua no tempo”, como a onipresença é ubíqua no sentido próprio, espacial? Sim e não. Como veremos, a eternidade em Deus é mais do que uma “ubiquidade temporal”; ela envolve a posse de uma vida plena e interminável, e portanto é mais do que uma presença passiva e simultânea no tempo, como a ubiquidade é mais do que uma presença passiva e simultânea no espaço. Estamos falando, em ambos os casos, na situação de quem criou, sustenta e mantém tanto o tempo quanto o espaço, e sujeita-os a si ativamente. Deus opera com domínio sobre as realidades criadas. Daí a noção de posse que a eternidade possui. Seria, então, o caso de relacionar a noção espacial de ubiquidade com esta posse, também: Deus possui todos os lugares. Deus possui todos os tempos. E neles opera livre e inteligentemente, por isto sua operação é descrita como vida. Espaço e tempo não são mecanismos. São dimensões ativas operadas por um ser vivo, amoroso e inteligente. Deus não é um tirano arrogante, nem um relojoeiro indiferente. Ele é amor, e amor pessoal. Como veremos no tratado sobre a Trindade, Deus, em si mesmo, é relação, não sujeição.

Mas ainda não debatemos a eternidade em Deus. São Tomás nos chama ao confronto, e diz que os confrontos, nesta matéria, se iniciam quando alguém propõe a seguinte hipótese: “parece que Deus não é eterno”. E apresenta quatro fundamentos argumentativos para esta hipótese adversa inicial.

O primeiro argumento parte da noção de que nada do que é feito, criado, produzido, derivado, pode aplicar-se a Deus. E invoca duas citações de autoridade no sentido de que a eternidade é uma realidade criada, e não uma dimensão em Deus; a primeira é uma frase de Boécio: “o momento que passa constitui o tempo; o momento que permanece constitui a eternidade”. A segunda, um trecho de Santo Agostinho: “Deus é o autor da eternidade”. Este argumento conclui, daí, que a eternidade é algo constituído, composto e criado por Deus. Logo, “eternidade” é uma noção que não se aplica a Deus.

O segundo argumento contrapõe a noção de eternidade às noções de “anterior” e “posterior”. No texto anterior, que tratava do artigo primeiro desta mesma questão, vimos que a própria definição de “tempo” está relacionada às noções de “anterior” e “posterior”; e que, portanto, não existe a possibilidade de falar em “anterioridade” e “posterioridade” quando se está tratando de eternidade. Mas, segundo este argumento, o Livro das Causas, que é um tratado filosófico de raiz aristotélica, diz expressamente que Deus é anterior à eternidade; e as Escrituras (Ex. 15, 18) declaram que “o Senhor reinará para sempre e eternamente”, o que demonstra que o reinado dele transcende a própria eternidade. Logo, para este argumento, seria inadequado definir Deus como “eterno”.

O terceiro argumento objetor alega que a eternidade é um tipo de medida. Mas não é possível medir Deus de nenhum modo. Logo, a noção de eternidade não se aplica a Deus.

O quarto argumento também é bíblico; lembra que a noção de eternidade é incompatível com as noções de passado, presente e futuro; mas as Escrituras aplica a Deus, em várias passagens, palavras que o relacionam com o passado, com o presente e com o futuro. São Tomás não traz exemplos aqui, mas podemos lembrar Apocalipse 1, 8: “’Eu sou o Alfa e o Ômega‘, diz o Senhor Deus, ‘Aquele que era, aquele que é e aquele que vem‘, o Todo-poderoso”. Assim, este argumento conclui que, se as noções de passado, presente e futuro são aplicáveis a Deus, então a noção de eternidade não o é.

Como argumento sed contra, São Tomás cita a autoridade do chamado “credo atanasiano”, atribuído a Santo Atanásio, que aplica diretamente a noção de eternidade a Deus: “Eterno pai, eterno filho, eterno Espírito Santo”.

São Tomás passa a construir sua resposta sintetizadora. Ele nos lembra logo que a noção de eternidade está relacionada à imutabilidade, do mesmo modo que a noção de tempo está relacionada à mudança. Mas, como já discutimos quando estudamos a questão 9, Deus é o ser imutável por essência e por definição. Assim, a rigor, nem sequer poderíamos dizer que Deus é eterno, como se a eternidade fosse um tipo de medida de duração aplicável a Deus. É mais do que isto. Deus é a própria eternidade; a vida de Deus realiza completamente a noção de eternidade como a vida interminável que é possuída de modo total, simultâneo e perfeito. A rigor, falar “eternidade” não implica colocar Deus numa medida especial de duração, mas exprimir a própria vida de Deus. Isto porque Deus é o seu próprio ser; sendo simples, ele é igual à sua própria vida e, portanto, ele é a própria eternidade. A noção de duração aplica-se apenas às criaturas, como medida exterior da sua mudança; é que as criaturas, sendo compostas de algum modo, têm medida de duração diferente de si mesmas. Não assim com Deus: não há referência externa para medi-lo. Há identidade, em Deus, entre a vida, a operação e a eternidade.

São Tomás passará a responder às objeções iniciais. A primeira objeção cita Boécio e Agostinho para afirmar que a eternidade refere-se a algo criado, e portanto é uma noção que não pode aplicar-se a Deus. São Tomás responde que a forma de descrever a eternidade como “momento permanente” é apenas analógica: como não temos outros referenciais para descrever a eternidade senão os referenciais do tempo, tomamos então a noção de momento e excluímos dela a ideia de fluxo, para expandi-la de modo a fazê-la apta a descrever a eternidade. Mas não podemos confundir um limite da nossa linguagem com uma característica intrínseca da própria eternidade. A eternidade não pode ser descrita como um momento que permanece senão de um modo humano, analógico, muito limitado, embora não errôneo. Não podemos confundir os limites da nossa inteligência com os limites do próprio objeto inteligido. Quanto à citação de Santo Agostinho, de que Deus é o autor da eternidade, São Tomás salva-a explicando que Santo Agostinho estava se referindo aqui à eternidade como participada, ou seja, ao dom que Deus faz, pela graça, da sua eternidade a certas criaturas que escolhe, de modo similar ao dom que ele faz a elas de sua imutabilidade.

O segundo argumento traz uma citação filosófica e uma citação bíblica para afirmar que as noções de “anterior e posterior” aplicam-se a Deus, e que portanto a noção de “eternidade” – que exclui qualquer ideia de anterioridade e posterioridade, não lhe poderia ser aplicada. São Tomás nos diz que o mesmo fundamento que responde à primeira objeção também responde a esta. Não se pode confundir o jeito que as escrituras usam para descrever a eternidade, de modo a torná-la ao menos comunicável de modo humano, com aquilo que ela é em si mesma. E São Tomás faz um exercício de exegese bíblica; explica que quando a Bíblia afirma que “Deus existe antes da eternidade”, está mencionando simplesmente a eternidade participada por algumas de suas criaturas, as que, por terem natureza imaterial, não são corruptíveis, e são eleitas pela graça para a salvação. Quando diz que Deus reinará para sempre e eternamente, quer dizer simplesmente que o poder de Deus não conhece condicionamentos de duração, mas domina o tempo e o que é eterno.

O terceiro argumento é aquele que afirma que, sendo a noção de eternidade um tipo de medida, não pode ser aplicada a deus, que não pode ser medido de modo algum. São Tomás nos lembra que a eternidade é o próprio Deus, e que a sua relação com a medida deriva da limitação da nossa inteligência, não do seu modo intrínseco de ser.

O quarto argumento, que é o argumento final, lembra passagens das Escrituras que aplicam a Deus noções relacionadas com passado, presente e futuro, e que, portanto, são incompatíveis com a noção de eternidade.

São Tomás explicará que tais noções são relacionadas a Deus não porque ele apresente em si alguma variação, mas porque sua eternidade inclui em si todos os tempos.

Depois deste exercício de alargamento mental, que nos permite ter uma noção mais clara e dinâmica sobre o que estamos falando quando mencionamos a eternidade em Deus – a sua própria vida, plena e perfeita, possuída de modo total e simultâneo – podemos fazer uma ideia melhor do que nos espera: não uma permanência num tempo sem fim, que seria simplesmente uma imortalidade infinitamente aprisionante. Mas a vida plena do agora perfeito, que pode ser, simplesmente, a primeira definição que São Tomás nos traz do céu.