São Tomás nos traz para debate, neste artigo, a definição de eternidade. Estamos conversando, aqui, sobre o que está além – no sentido conceitual, não local, da palavra – daquilo que está contido no universo natural, que é essencialmente temporal. Falamos, portanto, de algo que tanto nos toca profundamente, quanto nos escapa completamente.

O que há para além dos limites do tempo? Podemos imaginar que não há nada, que além destas fronteiras não chega o nosso conhecimento. Não é assim. Temos elementos filosóficos para explorar, e elementos da revelação também. E estes últimos fazem sentido, tanto com aqueles quanto com os dados científicos de que dispomos. Podemos pensar na eternidade a partir dos dados que temos sobre o tempo, e excluindo aquilo que é contingente; ou pelos seus efeitos. São as duas formas de raciocinar para além do que é imediatamente perceptível, que São Tomás nos ensinou na questão primeira.

Boécio, filósofo cristão da maior importância, definiu a eternidade como “a posse total, simultânea e perfeita de uma vida interminável”. Portanto, quem quer polemizar tem que começar logo negando esta definição de Boécio, corrente nos tempos de São Tomás. É exatamente assim que nosso artigo se inicia: São Tomás adota a hipótese de que esta definição não é boa.

São seis longos argumentos aqui, que atacarão esta definição por todos os lados. Como primeiro argumento objetor, São Tomás apresenta um argumento lógico: o termo “interminável” tem valor negativo. Ora, toda negação tem em si algo de deficiência, que não é conveniente com a reflexão sobre a eternidade. Logo, este argumento conclui que esta definição é inadequada.

O segundo argumento vai se debater com a noção de vida, inserida na definição de Boécio. De fato, a nós também parece inusitado definir a eternidade a partir da noção de vida: a noção de duração, de tempo, nos parece tão mecânica, tão impessoal e física, que realmente soa inusitado definir a eternidade como um tipo de vida. Este argumento parte exatamente daí: ele estabelece que, sendo uma noção que se relaciona com duração, a eternidade possa ter alguma relação com o ser, mas não com alguma espécie de vida. E o argumento conclui que, portanto, a definição de Boécio é inadequada.

O terceiro argumento debate a noção de totalidade. A palavra “totalidade” tem em si uma compreensão de “conjunto”, que leva logo a pensar numa composição. É daí que o argumento parte, para afirmar que toda composição implica a existência de partes. Mas a eternidade, estando relacionada com Deus, deve necessariamente ser simples. Portanto, o argumento conclui que este conceito é inadequado.

O quarto argumento é bíblico: as Escrituras fazem diversas menções a dias e tempos, quando a eternidade é mencionada. São Tomás cita Miqueias (5,2): “Suas origens são de tempos antigos, de dias imemoráveis”; e Romanos (16, 25): “revelação de mistério envolvido em silêncio desde os séculos eternos”. Uma vez que tempos e dias são sempre sucessivos, e nunca simultâneos, o argumento contesta a inserção da noção de “simultaneidade” na definição de eternidade que está sendo debatida, e a refuta como inadequada.

O quinto argumento afirma que entre “total” e “perfeito” há sinonímia, porque as duas palavras significam a mesma coisa. Assim, há redundância no conceito, que seria, segundo este argumento, inadequado. O sexto argumento, por fim, lembra que o conceito de “posse” não envolve duração, porque a posse é uma noção de uma detenção estável, e não simplesmente temporária. Ora, a eternidade é uma noção relacionada a duração. Logo, não pode ser conceituada como uma posse. E o argumento conclui que o conceito é inadequado.

Não há argumento sed contra aqui, porque o próprio conceito que está sendo debatido já tem um argumento em seu favor, o argumento de autoridade de ter sido elaborado por Boécio.

São Tomás partirá, então, para a sua resposta sintetizadora. Ele nos lembra de logo um dos seus principais princípios gnoseológicos: a nossa inteligência é proporcionada ao conhecimento daquilo que é composto, como as criaturas. A partir das criaturas, que são compostas, podemos partir para o conhecimento do que é simples, como as formas, os entes espirituais subsistentes e, finalmente, a forma subsistente simples que é Deus.

Ora, pelo mesmo caminho devemos trilhar para pesquisar a eternidade: partimos da compreensão do que é o tempo, para entender o que é eternidade. E São Tomás dá uma noção muito relativista, bem coerente com aquilo que, séculos depois, Einstein formulará sobre a relatividade entre tempo e movimento, e muito diferente da noção estática e absoluta de tempo que a física de Newton adotará. Neste sentido, São Tomás soa muito mais moderno do que Newton.

São Tomás define o tempo como “a quantificação do movimento segundo o anterior e o posterior”, ou seja, a medida da sucessão no movimento. Em qualquer movimento, há sempre uma parte que antecede e outra que sucede; é exatamente pela contagem do que vem antes e depois que marcamos o tempo. Naquilo que não se move, não há nenhum antes e nenhum depois, porque está sempre do mesmo modo. Portanto, do mesmo modo que distinguimos algo antes e algo depois naquilo que se move, não temos como fazer tal distinção naquilo que é uniforme, estável. Portanto, o conceito de tempo está relacionado com a contagem do que é antes e depois. O conceito de eternidade, então, relaciona-se com a estabilidade daquilo que não muda.

Se pensarmos bem, veremos que tudo aquilo que eu posso cronometrar envolve sempre um princípio e um fim. E isto é deste jeito porque em tudo o que se move há sempre um princípio e um fim. Mas, nas coisas imutáveis, não pode haver princípio nem fim, porque não há sucessão nem transformação.

São, portanto, dois aspectos que São Tomás nos apresenta para compreender a eternidade:

1. O que é eterno não começa e não termina. Não se pode, pois, falar de começo nem de fim. Não há termo na eternidade, nem o termo inicial, nem o termo final.

2. não há sucessão de eventos na eternidade. Nela tudo é simultâneo, total, nunca sucessivo e parcial.

Estabelecida, pois, a noção de eternidade, São Tomás passará a responder as objeções iniciais, para concluir que a definição de Boécio é conveniente e nos ajuda a compreender de fato a eternidade.

O primeiro argumento objetor é aquele que diz que a definição de Boécio é inconveniente por envolver a noção de “interminável”, que é negativa e portanto deficiente, o que seria incompatível com a noção de eternidade, que envolve sempre a plenitude.

São Tomás nos explica que, exatamente por sermos humanos, costumamos entender as coisas simples a partir das complexas, e realizando um processo de eliminação daquilo que é composto. O tempo é uma medida de movimento, e portanto envolve termo. Começa e termina. Assim, para conceber a eternidade, pensamos no tempo e eliminamos seu termo, não porque a eternidade tenha em si esta negação, porque o que é simples envolve plenitude, não negação. Mas porque este raciocínio é próprio da mente humana. É por isto que uma noção humana de eternidade tem que se valer da concepção (negativa) de “interminável”.

A segunda objeção é aquela que lida com a noção de vida, incluída no conceito de Boécio. Este argumento objetor diz que a eternidade tem relação com a duração, e portanto com o ser, não com a vida. São Tomás responde que aquilo que é eterno não somente é um ser, mas necessariamente é vivente. É bom que acompanhemos São Tomás cuidadosamente aqui, porque temos a tendência a imaginar o tempo mecanicamente, à moda de Isaac Newton, e não dinamicamente, como São Tomás, na companhia de Einstein, o faz.

São Tomás nos afirma que o que é vivo tem operações; não necessariamente todo ser o tem. Já vimos, nos textos anteriores, a diferença entre mudança e operação. Tudo o que existe está no ser, mas nem tudo o que existe opera. Mas do que está vivo, podemos dizer que opera, porque estar vivo é, de certo modo, operar. Uma das formas que temos de verificar que alguma coisa morreu é exatamente notar que ela já não opera.

Portanto, operar tem mais a ver com a duração do que simplesmente ser. É por isto que o tempo tem a ver com a medida do movimento. E se a operação está relacionada assim com a duração, ela não poderia estar de fora da noção de eternidade. Eternidade é, portanto, um conceito essencialmente relacionado com a vida.

A terceira objeção recusa o uso do termo “totalidade” na noção de eternidade, por entender que “totalidade” relaciona-se com conjunto, e portanto com composição. Se a eternidade é simples, porque não envolve sucessão nem medida, não poderíamos usar a noção de totalidade para descrevê-la. São Tomás nos dirá que não está usando a noção de totalidade aqui com a acepção de conjunto de partes, mas de plenitude, porque à eternidade nada falta.

O quarto argumento é bíblico, e cita diversas menções de textos bíblicos a dias e tempos, relacionados com a eternidade. O argumento afirma, então, que a noção de dias e tempos não é compatível com a noção de simultaneidade. São Tomás responde que, do mesmo modo que, sendo incorpóreo, Deus é designado na Bíblia metaforicamente com palavras que se referem ao corpo e suas partes, do mesmo modo a eternidade, embora seja totalmente simultânea, é nomeada metaforicamente com nomes temporais sucessivos.

O quinto argumento diz que a definição é ruim porque usa os termos “total” e “perfeito” como se fossem diversos, mas são sinônimos. São Tomás diz que o tempo pode ser tomado em si mesmo de dois modos; ou por sua sucessão, que dá sempre a noção de parcialidade, ou no instante, que dá sempre a noção de imperfeição. Assim, o termo “total”, na definição de eternidade, exclui a sucessividade, e o termo “perfeito” exclui a instantaneidade.

O sexto argumento é aquele que refuta a utilização da noção de “posse” na definição da eternidade, já que posse é uma noção que envolve permanência, e eternidade é uma noção que se relaciona com a duração. São Tomás diz aqui que a noção de posse envolve ter alguma coisa de modo firme e tranquilo; e isto descreve a estabilidade e a completude da eternidade.

A definição de Boécio sobrevive, pois, ao teste do debate promovido por São Tomás.