No texto anterior, discutíamos, com São Tomás, sobre a diferença entre a bondade de Deus e a bondade das criaturas. Vimos os argumentos iniciais, que colocavam as coisas em termos, digamos, de “excesso de otimismo”; não se tratava de negar que Deus seja bom por essência, mas de afirmar que todas as coisas são boas essencialmente, também.
Na prática, parece-me que dizer que as coisas são “boas por essência” seria estabelecer uma independência entre a bondade das coisas e a bondade de Deus. No próximo artigo, que é o quarto desta questão, São Tomás nos esclarecerá que as coisas não são boas simplesmente pela bondade de Deus, mas há bondade nas próprias coisas. No entanto, esta bondade é derivada e secundária, ou seja, a bondade das coisas é real e lhes pertence de fato, mas é e participada, enquanto a bondade de Deus é originária e fundante. Mas não nos apressemos. Por enquanto, trata-se de estabelecer exatamente o que se quer dizer quando se diz que “Deus é bom por essência” e as coisas criadas não o são.
Na sua resposta sintetizadora, São Tomás inicia com muita firmeza: somente Deus é essencialmente bom. E vai nos explicar pacientemente em que consiste a bondade das criaturas.
Ele nos lembra primeiro: cada coisa é boa na medida que é perfeita. Lembremos que o bem é aquilo que todas as coisas desejam, e todas as coisas desejam suas próprias perfeições. Assim, a bondade ostentada, já alcançada, pelas criaturas, são aquelas perfeições que as criaturas já ostentam, já adquiriram, já têm. Lembrando a velha distinção escolástica entre atos e potências, as perfeições das criaturas são seus atos, que representam suas perfeições.
Então São Tomás pacientemente nos explica que há três dimensões de bem, ou seja, de perfeição, em qualquer criatura:
1. O fato de que a criatura existe. Esta é a primeira perfeição, e mais básica. A sua existência, como vimos, é sempre um dom de Deus; é exatamente isto que significa ser criatura: não ter existência por si mesma, mas ser causada, ter sido eficientemente causada, em última instância, pelo próprio Deus. Somente Deus não tem causas para o seu existir, porque ele é Deus, ou seja, sua essência é seu próprio existir. Não há outra razão para que Deus exista senão o fato de que ele é Deus. Vimos isto quando conversamos sobre a segunda via. Nem se pode dizer que Deus é causa de si mesmo, porque, para ser causa de sua própria existência ele teria que existir antes de existir, o que seria contraditório. A existência de Deus não é causada, mas causadora, e é idêntica à sua essência.
Não é assim com as criaturas: sua existência não decorre da sua essência, mas da bondade criadora de Deus: é um dom. É o primeiro bem que qualquer criatura recebe, e é sua primeira perfeição: existir.
2. Os acidentes que vão sendo acrescentados à sua substância, que aperfeiçoam as operações da coisa. Assim, um pequeno filhote de pássaro ainda não voa, mas na medida que suas penas vão crescendo e seus músculos vão se desenvolvendo, ele vai ficando apto a voar. Se é um caçador, desenvolve garras robustas e cores camuflantes, e torna-se tão mais perfeito quão mais adequados são estes acidentes para a sua operação.
Estamos, aqui, lidando com mais alguns conceitos filosóficos importantíssimos; o de substância e acidentes. Não é o caso de alongar aqui a discussão sobre estas categorias, mas apenas de registrar que esta é a segunda dimensão de perfeição das criaturas: que seus acidentes sejam de tal qualidade que facilitem sua operação.
3. A terceira dimensão de perfeição de uma coisa está em alcançar seus fins. Ver um grande felino alimentando-se da presa veloz que ele conseguiu apanhar dá uma boa noção do que é que São Tomás está dizendo aqui.
O exemplo prático que ele usa pode parecer um tanto estranho para nós, porque ele toma o fogo como se fosse um ente, o que era adequado à física com que São Tomás trabalhava na sua época. A existência do fogo é a primeira dimensão do bem, a sua luminosidade e calor é a segunda e o fato de estar no lugar adequado, aquecendo e iluminando controladamente, coroa a terceira. Os exemplos que eu usei acima são diversos, mas guardam a mesma capacidade de explicação.
São Tomás afirma, então, que estas três dimensões da perfeição são próprias das criaturas, mas não de Deus: ele tem a existência como própria à essência (vimos atrás), nem tem acidentes, nem é ordenado a nada como a um fim. Em Deus o bem se confunde, portanto, com a sua essência mesma, e não, como no caso das criaturas, com a existência, nem com os acidentes, nem com o fim.
Agora São Tomás passará a responder às objeções iniciais. A primeira é aquela que traz a questão dos transcendentais do ser: a unidade é um transcendental do ser, e está nas criaturas pela sua essência. Quer dizer, tudo o que existe, existe como uma unidade essencial. Lembremos do último texto, em que discutimos a diferença entre uma pilha de pedras (à qual falta exatamente o transcendental da unidade) e um muro, cuja unidade dá sentido a que falemos da parece como de uma coisa em si mesma. Quebrada a parede, ela deixa de existir, e ficam os fragmentos e pedras de novo. A essência da parede, como a essência de qualquer coisa, existe na medida da sua unidade essencial. Ora, se a unidade é um transcendental do ser e está nas criaturas essencialmente, este argumento quer concluir que o bem, sendo igualmente um transcendental do ser, também está essencialmente nas criaturas.
São Tomás diz, então, que tanto o bem quanto a unidade são de fato transcendentais do ser, e são conversíveis no ser: as coisas são boas na medida que são, e são unas na medida que são. Mas há, entre o bem e a unidade, uma diferença de razão: a unidade tem razão de indivisão, e o bem tem razão de perfeição, ou seja, de apetecibilidade. Portanto, o bem e o uno não são idênticos em razão, logo as propriedades de um não podem simplesmente ser aplicadas ao outro sem cuidado.
As perfeições estão na criatura segundo aquelas três dimensões que já falamos. Ou seja, sempre fora da sua essência. Mas a unidade consiste exatamente na indivisão da essência: por essência, as coisas imateriais são indivisíveis, tanto em ato quanto em potência: não dá para dividir uma ideia, ou um anjo. As coisas materiais também são indivisas em ato, mas não em potência: tudo que é material pode se quebrar, se romper, se partir. Mas enquanto não se quebra, e mantém sua unidade, ela existe. Quebrando-se, partindo-se, ela se corrompe e perde sua essência – deixa de ser o que é, vira outra coisa (cacos, entulho, cadáver, etc). Assim, a unidade está sempre na essência, mas a perfeição, não.
A segunda objeção faz aquela confusão entre o ato de existir e a essência das coisas. Uma vez que existir seria uma perfeição, o fato de que as coisas existem de modo essencial faz com que elas sejam essencialmente boas. São Tomás nos explicará que o único ser que existe de modo essencial é Deus: todas as criaturas existem apenas de modo acidental, porque sua existência é um dom de Deus diferente da sua essência. Logo, a perfeição que há na existência de alguma criatura não está na sua essência, mas no seu ato de existir.
Por fim, o terceiro argumento objetor é aquele que tenta reduzir ao absurdo a ideia de que o bem não se encontra essencialmente nas criaturas através do raciocínio de que, se o bem não está na essência da criatura, ela deve estar em outro ser que, por seu turno, não tem o bem como essência, logo o seu bem está em outro ser, e assim até o infinito. São Tomás nos diz que a bondade de fato é um acrescido à essência do ente, mas não está propriamente em outra coisa: está em seu existir, nos seus acidentes que aperfeiçoam sua operação e no atingimento de sua perfeição final. Assim, o bem está no ser das criaturas, mas não por suas essências, senão daquele modo tridimensional que ele explicou antes. Somente em Deus o bem está de modo essencial.
Tema difícil. Mas agora resta claro de que estamos falando quando mencionamos o bem em Deus e quando mencionamos o bem nas criaturas. No próximo texto estudaremos a relação entre o bem das criaturas e o bem de Deus.
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