Que Deus é bom, nós já debatemos. A questão que se põe agora é: quão bom é Deus? Que tipo de atributo é a bondade? É alguma coisa que se soma ao ser de Deus? Ser bom é ter bons sentimentos? É ter, como quer a nossa filosofia contemporânea, “bons valores”? Será que Deus é bom porque, sendo todo-poderoso, ele é um legislador implacável e infalível que determina de antemão o que é certo e o que é errado? Qual a relação entre dizer que Deus é bom e dizer que Deus é amor? São muitas perguntas, e São Tomás ira responder a cada uma a seu tempo, do seu modo metódico e paciente, colocando na sua belíssima catedral ora grandes paredes e altas cúpulas, ora delicados arabescos que devem ser admirados sem pressa e de perto.
Já vimos, em questões anteriores, o que significa dizer que Deus existe: significa dizer que a sua existência não é causada desde fora, mas tem na sua própria essência a sua razão; Deus existe porque é da sua essência existir, não porque ele tenha a existência como algo acrescentado a si. Aliás, vimos também em outra questão que nada pode ser acrescentado a Deus: ele é a própria simplicidade, e tudo o que ele é, ele é por essência. Mas nós, em nossa linguagem limitada, muitas vezes falamos de Deus como se ele fosse composto, como quando dizemos “Deus é amor”; quer parecer, falando assim, que há um Deus que é, e que, ademais de ser, ele também é amor. Mas isto tudo decorre apenas do nosso jeito de falar: não há diferença em Deus entre o ser e o amar. Como não há diferença entre o ser e o ser bom. Por isso, dizer que Deus é bom por essência significa perguntar se Deus é a própria bondade.
O que queremos dizer, por outro lado, quando dizemos que alguém é bom? Este também é um dos temas que São Tomás tratará neste artigo: o que significa atribuir bondade a uma criatura qualquer e atribuí-la a Deus. Todas as criaturas são compostas de algum modo, somente Deus é a perfeita simplicidade. Mesmo aquelas criaturas que não são compostas de matéria e forma são, de certo modo, compostas também. Como no caso dos anjos: diferentemente de Deus, eles existem por um ato de criação que é alheio à sua essência: sendo criaturas, sua existência lhes foi dada por um ato de Deus, e portanto não lhes é próprio o existir; ou seja, em linguagem tomista, eles não existem por essência, mas por criação. Assim, há, mesmo nos seres imateriais como os anjos, uma composição entre a sua essência e o seu ato de existir. Somente Deus tem em si a perfeita simplicidade.
Mas deixemos de digressões e passemos ao nosso artigo; mais uma vez, corajoso e dialogal como é São Tomás, ele admite provisoriamente a tese adversa: parece que não é próprio de Deus ser bom por essência. E na discussão profunda que fará em seguida, ficará claro para nós em que exato sentido nós falamos que deus é bom e em que exato sentido dizemos que uma criatura é boa. Também ficará claro, se prestarmos atenção cuidadosa, em que medida o ser é conversível com o bem, e o que significa isto para as criaturas e para deus. E mais: ficará claro, também, que não se pode falar de uma separação entre a “bondade” e o “ser” das coisas, como se houvesse um “reino do ser” e um “reino do dever-ser”, ou “reino dos valores” separado do ser. O ser e o bem têm exatamente a mesma extensão, embora não tenham a mesma relação – e por isto não têm a mesma significação. Não obstante, têm a mesma compreensão – não há diferença entre o conjunto daquilo que é e o conjunto daquilo que é bom, como tínhamos visto examinando a questão 5, artigo 3.
O primeiro argumento contrário, trazido por São Tomás, diz respeito à natureza dos chamados “transcendentais do ser” e sua convertibilidade. É um exemplo de como São Tomás pressupõe, em seus leitores, uma cultura que hoje poucos têm, e como ele lida rápida e profundamente com aquilo que, para nós, demandaria páginas e páginas de estudos para compreender. Em todo caso, lembremos, em rapidíssima síntese, que o “ser” tem uma série de noções associadas, que, como ele, ultrapassam os limites dos gêneros e das espécies, pois se aplicam a todos os entes. Uma destas noções nós já estudamos na questão anterior, e estamos debatendo agora na sua relação com o ser de Deus: trata-se da noção de bem. Mas não é a única noção desta categoria: também são “transcendentais do ser” o belo, o uno, o existir (em latim, “esse”), a coisa (res), o vero (ou verdade) e o próprio bem. Todas estas noções aplicam-se a tudo aquilo que cai sob as categorias de gênero e espécie, e por isto são transcendentais no sentido tomista da palavra. Elas denotam o ser sob alguma razão especial, ou em relação com o espírito ou com a sensibilidade. Não vamos confundir, portanto, os transcendentais do ser, que são uma noção própria da filosofia escolástica, com os transcendentais do conhecimento, que são uma noção propriamente kantiana. No caso de Kant, ele defende a existência de categorias que o nosso espírito projeta sobre a concretude das coisas – que estão, em si mesmas, além da nossa possibilidade de conhecimento – para torná-las objeto do nosso conhecer. Assim, o que conhecemos seria mais propriamente descrito como a projeção de nosso espírito sobre as coisas do que as próprias coisas mesmo. Mas não estamos aqui para falar de Kant, senão de São Tomás. Vamos voltar ao nosso artigo.
Neste primeiro argumento, São Tomás nos diz o seguinte: é próprio dos transcendentais serem conversíveis no ser. Ou seja, entre o ser e os transcendentais não há diferença real, senão apenas de razão: cada transcendental é o ser tomado sob certo enfoque, sob certo aspecto, sob certa relação. Ora, a unidade, ou uno, é um dos transcendentais do ser – e que diz respeito à indivisibilidade da sua essência. Cada coisa que é tem uma integridade, uma indivisibilidade essencial que faz com que ela seja uma em si mesma, e não um mero amontoado de coisas, como um conjunto, um grupo ou um coletivo, por exemplo. É fácil perceber isto: uma pilha de pedras não é uma coisa, mas um muro de pedra é, porque no muro há uma unidade entre os seus componentes que é capaz de lhe conceder o ser sob uma forma superior, que engloba e retira a individualidade das suas partes componentes. Um muro não pode ser descrito como “um monte de pedras ligadas entre si por cimento”, porque ele tem uma forma que lhe dá sentido e incorpora as formas que lhe são inferiores, componentes, numa individualidade superior. Nós não estamos acostumados a pensar assim por causa da nossa arraigada mentalidade atomista, que vê substancialidade em átomos e moléculas, mas tem dificuldade de ver substancialidade nas próprias coisas. Nestas, não há átomos e moléculas como realidades, como indivíduos, senão de modo virtual: perdida a unidade substancial superior, afloram as individualidades das formas inferiores. Esta é a diferença, por exemplo, entre um ser vivo e um cadáver: naquele, os órgãos existem apenas virtualmente, como partes integrantes e destituídas de individualidade substancial, submetidos à unidade agregadora da forma superior. No cadáver, a forma superior (que é animada) se perdeu, se corrompeu, e as formas inferiores passam a ser substanciais, unidas entre si pelo acidente de estarem próximas. É neste sentido que se pode dizer que a unidade é essencial nas substâncias: se elas perdem a unidade intrínseca, isto significa que a própria essência da coisa se corrompeu, e portanto a coisa não existe mais. Assim, a unidade é um transcendental que está essencialmente em todas as coisas.
Explicado isto, este argumento nos diz o seguinte: se a unidade é um transcendental, e portanto conversível no ser, o bem também é um transcendental, e também é conversível no ser. Ora, a unidade está nas coisas essencialmente, porque todas as coisas são unas (segundo a filosofia aristotélica, que examinamos rapidamente acima). Logo, o bem,, sendo de igual modo um transcendental, e de igual modo conversível no ser, deve de igual modo estar presente em todas as coisas essencialmente. Portanto, não somente Deus é bom por essência: todas as coisas devem ser boas por essência.
O segundo artigo parte da bondade do ato de existir. Se o bem é aquilo que todas as coisas desejam, então não se pode negar que a existência é um bem, porque todas as coisas querem existir, e continuar na existência é o primeiro movimento de apetite de tudo o que existe. Nada que existe busca espontaneamente o não-ser. Veremos, adiante, em especial na primeira parte da segunda parte da Suma, que exatamente esta tendência à a conservação da existência é, para São Tomás, a primeira das leis naturais.
Então este argumento conclui: estabelecido que existir é bom, e estabelecido que as coisas existem em suas essências, não poderíamos escapar da conclusão de que todas as coisas são boas por sua essência, e não apenas Deus. Este é um dos argumentos que tem uma aparência de complexidade e aridez que somente será esclarecida quando São Tomás nos presentear com a sua resposta direta, mais abaixo.
O terceiro argumento tenta construir um raciocínio de redução ao absurdo para demonstrar que todas as coisas devem ser essencialmente boas, e não somente Deus. O argumento vai assim: o bem é conversível com o ser. Então não há nenhum bem que não seja igualmente um ser. Mas, se as coisas não são boas por sua essência, isto significa que o bem que há nelas não tem o mesmo ser que elas têm. Ou seja, o bem das coisas é, em si mesmo, uma outra coisa com relação ao ser das próprias coisas que são boas.
O argumento prossegue: mas se esta outra coisa que é o bem da primeira coisa também não é boa por essência, significa que a “bondade dessa bondade” também se constitui num outro ser, que, por seu turno, também não tem a bondade por essência, logo a sua bondade se constitui num outro ser, e assim até o infinito. Este argumento diz, portanto, que, se a bondade de uma coisa se constitui numa outra coisa, nós entraremos (como diríamos hoje) num “loop” interminável, num regresso ao infinito que tornaria a própria noção de bem impossível, a menos que admitíssemos uma primeira coisa que é boa por sua própria essência – caso em que não teríamos como explicar como ela pode ser boa em sua essência e ao mesmo tempo representar a bondade de outra essência. Assim, este argumento conclui que a maneira de escapar deste “loop” é admitir que as coisas são boas por sua própria essência, e portanto, que ser “bom por essência” não é próprio somente de Deus.
Como argumento sed contra, São Tomás traz a autoridade de Boécio, que nos assegura: “todos os seres, exceto Deus, são bons por participação – e, portanto, não por essência.”
O debate está estabelecido. Poderíamos dizer que o problema de Tomás é o de lidar com tanta bondade: os argumentos contrários não negam que Deus é bom por essência; pecam, talvez, por excesso de otimismo, vendo o “bem essencial” em todas as coisas e não somente em Deus. Trata-se, portanto, da distinção entre criador e criatura, na razão de bem. São Tomás vai colocar ordem na casa, como veremos no próximo texto.
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