No artigo anterior, vimos São Tomás debater de que modo é adequado falar de “bem” com referência a Deus: Deus é chamado de “bom” não simplesmente como uma causa final que, sem provocar ativamente algo em seu efeito, o atrai para si como termo de perfeição. São Tomás vai além: Deus é a primeira causa eficiente, e como tal detém em si todo o bem, toda a perfeição que é capaz de causar no seu efeito. Ele é, propriamente falando, o condutor e o destino pelo qual as coisas criadas têm modo, espécie e ordem. O universo não é nenhuma espécie de mecanismo programado para atingir o seu fim automaticamente, mas este cosmos de atualidades e potencialidades que é conduzido de modo ativo e inteligente para a própria perfeição. Nós vimos, então, como as noções de analogia, de ato e potência, de perfeição, de causalidade e de participação são importantes para compreender a bondade divina e, por analogia, a bondade da criação.
Neste segundo artigo, tratamos da natureza do bem em Deus: a hipótese inicial é a de que Deus não é o sumo bem. Que se pode dizer que Deus é bom, já debatemos no artigo anterior. Mas em que consiste exatamente esta bondade em Deus? Qual o seu grau?
Para debater se Deus é o sumo bem, portanto, São Tomás começa admitindo a hipótese adversa e elencando os argumentos em favor dela.
O primeiro argumento contra a ideia de que Deus é o sumo bem consiste no seguinte: para dizer que alguma coisa é “sumo”, ou “pleno”, eu devo acrescentar algo à qualidade da qual estou tratando, a fim de obter-lhe o superlativo. Ou seja, ao bem “ordinário”, que se apresenta nas criaturas, eu adiciono o superlativo “sumo”, que dá a noção de máximo, de pleno. Ora, toda adição implica composição no resultado, já que é o produto da integração de partes diversas: o bem e a plenitude. Mas já ficou estabelecido, quando a questão 3 foi debatida, que não há composição em Deus – já que ele é a própria simplicidade. Logo, este argumento conclui que não se pode afirmar dele uma ideia composta como a de “sumo bem”.
O segundo argumento começa com um apelo filosófico, mas é essencialmente bíblico: se, filosoficamente falando, o bem é aquilo para o qual tudo tende, somente Deus é o fim de tudo, e portanto somente ele apresenta verdadeira razão de bem. E o argumento cita o Evangelho de Mateus, lembrando que o próprio Jesus afirmou (Mt 19, 17 que “somente Deus é bom”. Assim, afirmar que Deus é o sumo bem poderia implicar que há algo de bom fora de Deus, o que iria contra o texto das Escrituras que limita o bem a Deus somente. O uso do superlativo “sumo” implicaria admitir que as criaturas de algum modo são boas, reservando a Deus não a totalidade do bem, mas apenas a plenitude.
O argumento usa uma comparação com o calor: faz sentido falar em algo “sumamente quente” porque há coisas quentes que não o são de modo pleno. Mas não seria assim com o bem: se só Deus é bom, perde todo o sentido atribuir-lhe a plenitude daquilo que lhe é exclusivo. Assim, este argumento, apresentando embora uma visão pessimista da criação, traz uma aparência de piedade bíblica, de retidão evangélica e temor a Deus. É quase uma antecipação do pessimismo luterano das chamadas “cinco solas”: sola Scriptura, sola Gratia, sola fide, soli Deus gloria, solus Christus. À parte da contradição de defender que algo que se define como “solus” pode multiplicar-se por cinco, parece realmente muito piedoso ler a passagem bíblica citada de modo literal e reservar todo o bem a Deus. Mas, se reservamos todo o bem a Deus, não há nenhum bem que subsista na criação, e portanto não faz sentido chamar a Deus de “sumo bem”, porque aquilo que é exclusivo não pode ser designado por um superlativo. É esta a conclusão deste argumento.
O terceiro argumento segue uma via semelhante: qualquer superlativo implica comparação. Mas não se pode comparar coisas de gênero diferente: seria, mais ou menos, com dizer que esta fruta é mais doce do que aquela linha é comprida. A doçura não pertence ao mesmo gênero da extensão, logo não são mensuráveis entre si. Este argumento conclui, então, que, uma vez que já provamos que Deus não está no mesmo gênero das outras coisas boas, não seria possível dizer que ele é o “sumo bem”, porque isto seria comparar “bondades” de gêneros diferentes.
No argumento sed contra, São Tomás traz a autoridade de Santo Agostinho, que afirma que a Trindade das pessoas divinas é “o sumo bem que é visto pela mentes inteiramente puras”. Há, portanto, o testemunho de Santo Agostinho, que atribui a Deus o superlativo “sumo bem”.
A síntese que São Tomás faz na sua resposta começa com a afirmação incondicional: Deus é o sumo bem. Mas em que sentido se pode dizer isto?
São Tomás nos lembra logo que Deus não está contido em gêneros ou ordem de coisas. Então, quando se lhe atribui o bem, este bem é atribuído de modo absoluto, e não sob determinado viés ou modo. É neste sentido, de bem absoluto – não restrito por modo ou gênero – que se predica o bem de Deus. E é por isto que se pode dizer que ele é o sumo bem.
São Tomás nos explica que, uma vez que todas as perfeições desejadas ou desejáveis decorrem de Deus como sua causa, elas estão nele em primeiro lugar e de modo absoluto, porque ninguém pode dar senão aquilo que tem. Mas, como nos lembramos quando estudamos as cinco vias, há causas que são unívocas e a causas que são equívocas. A causa eficiente unívoca causa outro ser igual a si, como uma cadela gera cãezinhos. Mas a causa equívoca gera um ser diverso de si em gênero e espécie, como um arquiteto, que é da espécie humana e do gênero animal, gera uma casa, que é do gênero artefato inanimado. É deste tipo a causalidade eficiente de Deus com relação à criação.
A pergunta que resta, agora, é a seguinte: qual das duas causas possui em si as perfeições do causado de modo mais pleno, a causa eficiente unívoca ou a equívoca?
Tenderíamos a responder que a causa unívoca possui em si as perfeições de modo mais pleno, porque um cão perfeito, por exemplo, um grande campeão de raça pura, tende a gerar filhotes semelhantes a si, porque transmite a eles, pelo DNA, as qualidades da raça. Mas São Tomás nos desconcerta de novo, e afirma que as causas equívocas possuem em si a perfeição dos efeitos causados de modo mais pleno do que as causas unívocas. Nas causas unívocas, o efeito é sempre uniforme com relação à causa, e não envolve a habilidade do causador, mas simplesmente a transmissão de suas próprias características ao causado. No caso das causas equívocas, como fica claro nos artefatos humanos, é preciso que o causador eficiente – o artesão, por exemplo, tenha em si toda a concepção do causado e toda a habilidade para confeccioná-lo de forma deliberada e precisa. Podemos claramente discernir a maior qualidade do artesão pela maior qualidade do artefato: quanto maior o poder de concepção e de execução do artista, tão mais perfeito e rico o artefato será. Retomando um exemplo que já utilizamos quando estávamos conversando sobre as cinco vias: um bom cozinheiro faz uma boa comida a partir dos ingredientes necessários. Um excelente cozinheiro é capaz de fazer uma ótima comida apenas com os ingredientes de que dispõe. Quão melhor o cozinheiro, tão menor a quantidade e a qualidade dos ingredientes de que ele necessitará para fazer uma comida boa. O que dizer, então, de um cozinheiro que fosse capaz de preparar a refeição perfeita a partir de absolutamente nada? Ele mereceria, com toda justiça, o título de sumo cozinheiro, sem dúvida.
Portanto, uma vez que todas as perfeições existem primeiro em Deus, que as causa na criação de modo não unívoco, mas equívoco, é claro que a noção de bem cabe a ele de modo absoluto e primeiro; ou seja, pode-se, neste sentido, usar o superlativo “sumo bem” para Deus.
São Tomás passa a responder então aos argumentos contrários iniciais. O primeiro argumento, como nós nos lembramos, é aquele que vê no conceito de “sumo bem” um conceito composto de “bem” mais o elemento diferencial “sumo”, ou “pleno”, e proclama que conceitos compostos não podem se aplicar a Deus, que é essencialmente simples.
São Tomás então nos responderá admitindo que, de fato, a noção de “sumo” acrescenta à noção de “bem”, como aplicado às criaturas, uma relação. Mas esta relação tem uma característica peculiar: ela é real somente do lado das criaturas, mas não do lado de Deus. Do lado de Deus, ela é somente uma relação de razão. Ele explica com um exemplo.
Quando eu estudo geologia, e conheço, digamos, uma pedra qualquer que elegi como objeto de minhas pesquisas, a relação entre a pedra e o meu conhecimento sobre ela é real para mim. Eu, de fato, possuo a ciência sobre esta pedra, e não sobre outra pedra qualquer, e meu conhecimento é de fato um conhecimento verdadeiro sobre ela. Mas que diferença faz para a pedra que ela seja objeto do meu estudo? O fato de que eu conheço a pedra não exerce nenhum poder, nenhuma influência, sobre a própria pedra. Não muda nada na pedra que ela seja ou não conhecida por mim. Mas a pedra exerce poder sobre mim, porque ela mensura meu conhecimento: a ciência que eu tenho desta pedra somente terá valor se corresponder de fato a ela, e a nenhuma outra. Então esta relação é real para mim, mas é apenas uma relação de razão para a pedra.
Esta é a relação entre o bem das coisas e o sumo bem que é Deus: sendo absoluto, o bem de Deus não tem relação real com o bem das coisas, porque não é mensurado por elas. Mas o bem das coisas tem relação real com o bem de Deus, do qual se originam e pelo qual se medem. Neste sentido, o bem de Deus é simples, e o bem das coisas, relativo, e, portanto, composto. Por um limite da nossa linguagem, atribuímos o superlativo a Deus, não por superioridade dele com relação às coisas, mas por deficiência das coisas para com ele.
O segundo argumento contrário é aquele que, partindo da definição filosófica de bem como “aquilo que todos os seres desejam”, examina a passagem bíblica em que Jesus diz que “só Deus é bom” para dizer que é desnecessário falar de “sumo bem” de Deus, porque Deus, a rigor, é o exclusivo bem.
São Tomás tempera este argumento, dizendo que a frase filosófica que define o bem como “aquilo que todas as coisas desejam” não significa que cada coisa que é desejada tem que ser desejada por todas as coisas e sob todos os aspectos para que seja considerada boa. Cada pequeno aspecto de perfeição desejado por uma coisa, mesmo que não seja desejado por outra coisa, tem a razão de bem, filosoficamente, de um jeito limitado e relativo. Mas apenas uma coisa que fosse boa por essência seria desejada simultaneamente por todas as coisas e sob todos os aspectos. É neste exato sentido que se diz que ninguém é bom senão Deus, porque ele é o único que é bom por essência, como será visto no próximo artigo.
O último argumento contrário é o que afirma que o superlativo “sumo” não pode ser aplicado a Deus porque importa comparação, e Deus é incomparável, já que não se submete a gênero ou espécie. Quando coloca o argumento, São Tomás chega a trazer, como exemplo, a impossibilidade de comparar a doçura de uma fruta com o comprimento de uma linha: sendo grandezas de gêneros diferentes, são incomensuráveis entre si.
São Tomás esclarece que não se pode comparar, de fato, coisas que estão em gêneros diversos. Mas em Deus há duas peculiaridades: 1. Ele não está submetido a nenhum gênero; 2. Ele é o princípio de todos os gêneros. Assim, é possível relacioná-lo a todas as coisas de todos os gêneros, e, como nós vimos alguns parágrafos atrás, esta é uma relação de razão pelo lado de Deus, mas uma relação real pelo lado das coisas. Assim, Dizer que Deus é o sumo bem significa dizer que todas as perfeições, que lhe pertencem originalmente, manifestam-se nas coisas sempre de modo deficiente e derivado. É neste sentido que o chamamos de “sumo bem”; não porque ele é mais, mas porque todos lhe são menos.
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