Na ordem estabelecida no prólogo da questão 3, São Tomás nos tinha anunciado que estudaria a simplicidade de Deus, removendo a composição que se encontra nas coisas criadas. Em seguida, ele estudaria a perfeição de Deus, removendo as imperfeições das coisas criadas, e passaria ao estudo da infinitude divina, a partir das limitações das coisas criadas, e da sua imutabilidade e da sua unidade, a partir respectivamente das mudanças e da divisibilidade das coisas criadas. Nesta questão 04, portanto, avançando neste projeto de estudos de São Tomás, estudaremos a perfeição de Deus.
O prólogo desta questão 04 é curto, quase abrupto, porque o prólogo da questão 03 já tinha avançado neste projeto de estudo. Há, no entanto, uma novidade. O projeto do prólogo da questão 03 não tinha prometido o estudo da bondade de Deus, especificamente. Aqui, no prólogo da questão 04, São Tomás se limita a dizer que estudaremos a perfeição de Deus e, como um ser é bom na exata medida em que é perfeito, a questão seguinte – questão 05 – tratará especificamente da bondade de Deus e da sua relação com a noção de bem em geral.
Como sempre, São Tomás começa o debate admitindo a hipótese adversa: parece que não é próprio de Deus ser perfeito. E o primeiro argumento é um argumento que lida com a dimensão processual da perfeição, que conhecemos nas criaturas. De fato, a primeira noção que se tem do termo “perfeito” é de alguma coisa que se completou, que se fez completamente. Ora, não cabe a Deus a noção de completar-se, de “ser feito”. O termo “perfeito”, portanto, traz em si uma ideia de passividade que não se pode harmonizar com Deus. Logo, (diz este argumento), não se pode aplicar a Deus a noção de perfeição.
O segundo argumento parte da equivocidade do termo “princípio”. O argumento lembra que Deus é o princípio de todas as coisas; mas os princípios que nós conhecemos são sempre imperfeitos, como as sementes, princípio dos seres vivos, são apenas promessas, potencialidades que vêm a tornar-se o próprio ser que principiam, após o seu aperfeiçoamento, ou atualização. Na mesma linha, o terceiro argumento também parte de uma confusão terminológica entre o chamado “ens commune”, ou o ser geral de todos os entes – máxima abstração metafísica a que podemos chegar contemplando todas as coisas – e o ser de Deus. Ora, o ser comum de todas as coisas, sendo abstrato e geral, é susceptível de todas as especificações, adições e desenvolvimento das essências dos entes, com seus atos e potências. Assim, se Deus é o ens commune, ele é imperfeitíssimo – porque é maximamente potencialidade.
Mas, como argumento contrário, São Tomás aduz uma fala do próprio Jesus, em Mt 5, 48: “sejam perfeitos, como vosso pai celestial é perfeito”. É nestes momentos, em que São Tomás nos traz de chofre uma fala de Jesus para o meio de uma discussão que parece tão árida e difícil, que nós percebemos que estamos tratando aqui com um homem de fé lutando por compreendê-la melhor, e não com um filósofo especulando com categorias abstratas. É aqui que a humanidade de São Tomás, sua relação existencial com sua fé, torna-se como que transparente para o estudante.
Na sua resposta, São Tomás não age, aqui como em toda a Suma, como um julgador que condenasse determinadas proposições e estabelecesse dogmaticamente a verdade de outras. Ele vai promovendo uma síntese, esclarecendo sentidos, distinções e precisões e esclarecendo as suas reflexões, incorporando aquilo que é verdadeiro dos argumentos iniciais de modo a suavizar aquilo que parece abrupto na proposição “sed contra”. Aqui, São Tomás nos explica que muitos filósofos não concebem que o primeiro princípio possa ser ótimo e perfeitíssimo, mas, ao contrário, que fosse imperfeitíssimo e indeterminado em grau máximo. Trata-se, pois, de um equívoco na definição do primeiro princípio. Este equívoco, que São Tomás atribui aos pré-socráticos – seguindo as lições de Aristóteles – está muito presente, hoje em dia, nas filosofias materialistas e evolucionistas em geral. Nestas correntes, sempre se parte de um início maximamente caótico e desordenado para uma progressiva evolução no sentido da ordem e da superação. Ora, São Tomás reconhece que há, de fato, um princípio imperfeitíssimo e indeterminado, o princípio material, que está sujeito à progressiva organização, mas ele não pode, de modo algum, ser considerado o primeiríssimo dos princípios. É que o princípio material primeiro (ou matéria-prima) é, por definição, totalmente potencialidade, e portanto, totalmente indeterminado e imperfeito. Mas ele não pode ser o primeiro fundamento de tudo no sentido absoluto do termo, que é o sentido estabelecido nas chamadas “cinco vias”, de que já tratamos em textos anteriores. Deus está na ordem da causa eficiente primeira (segunda via) e da perfeição última (quarta via). Deve ser capaz, portanto, de explicar toda a causalidade e toda a perfeição que as coisas adquirem a partir da indeterminação fundamental da matéria. É por isto, digo eu, que o tomismo pode conviver bem até mesmo com uma teoria científica evolucionista bem compreendida.
Assim, para que alguma coisa adquira ordem e perfeição, a partir da indeterminação original da causa material, é necessário um agente capaz de transmitir a este mesmo substrato material a ordem e a perfeição que ele não tem e não pode adquirir sozinho.
Isto é fácil de entender, se exemplificarmos com uma pequena analogia: um bom cozinheiro é capaz de fazer uma comida muito boa com os ingredientes de que necessitar, tendo-os. Um excelente cozinheiro pode fazer uma comida excelente com os ingredientes que dispuser, mesmo se não dispuser de todos os ingredientes de que necessitaria. Tão melhor seria o cozinheiro, quanto menos ingredientes ele necessitasse para fazer um prato delicioso. Seguindo este raciocínio, poderíamos afirmar que apenas um cozinheiro perfeito seria capaz de fazer um prato maravilhoso a partir de absolutamente nada. Esta é a definição da perfeição de Deus, que São Tomás sintetiza assim: “algo é perfeito na mesma medida em que é atual [completo]. Perfeito é aquilo a que nada falta, no modo da sua perfeição”.
Respondendo ao primeiro argumento contrário, São Tomás concede que a palavra “perfeito” é, em certo sentido, inadequada para designar Deus, porque, não sendo feito, a rigor ele não pode ser chamado de perfeito. Perfeito, no mundo criatural, é aquilo que passou da potencialidade para a atualidade, mas em Deus significa simplesmente que não lhe falta absolutamente nenhuma atualidade em seu ser. É um uso analógico, portanto – em que o primeiro analogante é Deus e os analogados são os entes criados em suas atualidades.
Na resposta ao segundo argumento, São Tomás lembra que o princípio material não pode ser dito primeiro em sentido absoluto, porque, mesmo nas coisas criadas, ele é sempre precedido de um outro causador atual, ou seja, há sempre algo que, por ser possuidor de alguma perfeição, alguma completude, é capaz de gerar o princípio material da outra coisa. É assim que a semente sempre é gerada, em primeiro lugar, por uma planta ou animal adulto. E São Tomás estabelece um princípio filosófico importantíssimo: nenhuma potencialidade pode transformar-se em atualidade sem que alguma coisa que já é atual venha atualizá-la. A nossa experiência cotidiana demonstra isto muito claramente: quando vemos alguma coisa transformar-se, mudar, aperfeiçoar-se, sabemos que houve alguma causa que moveu aquele ser do estado menos perfeito para o mais perfeito.
Quanto ao terceiro argumento, aquele que confunde o ser de Deus – que é a própria existência – com a abstração a que chamamos “ens commune” – aquilo que restaria quando abstraíssemos de todos os entes tudo o que os distingue e especifica – São Tomás nos explica que o ser de Deus é o mais perfeito de todos os seres – porque nenhum ser é perfeito senão quando existente. Ora, é o ser de Deus que dá a existência a todos os entes – e até mesmo às próprias formas dos entes. Assim, Deus não está para os entes como um recipiente passivo que acolhe a existência [determinada] das coisas, mas antes como aquele que dá a existência às coisas antes indeterminadas. Por isto, quando consideramos os entes criados (como um ser humano ou um cavalo), o ser de Deus é doador e informador, e não passividade e potencialidade.
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