Este é um artigo muito peculiar, porque São Tomás dá uma “cotovelada” num debatedor, o que ele faz muito poucas vezes em sua obra escrita. Mas por aí podemos perceber que os debates naquela época também tornavam-se inflamados, e os santos são, como todos nós, pessoas de carne e osso, também sujeitas a paixões e emoções. E, cá pra nós, a opinião desse tal de Davi de Dinant era muito estúpida, mesmo!
Bom, voltando ao artigo, São Tomás vai lidar agora com um questionamento muito interessante. Durante toda esta questão 03, ele deixou bem clara a simplicidade de Deus. Não parece haver dúvidas de que deus é simples, incausado, incomposto, etc. A dúvida, agora, é a seguinte: mesmo admitindo que não há composição ou partes em deus, podemos dizer também que não há “partes de Deus” nas outras coisas? Mesmo admitindo que Deus é, em si mesmo, simples, qual será a relação dele com as coisas criadas? Haverá, nas coisas criadas, a presença de Deus como componente?
A discussão aqui também tem muita atualidade. Estas ideias panteístas são muito presentes entre nós, hoje em dia. Eu tenho um amigo que me contou, outro dia, que quando quer relacionar-se com Deus, sai na chuva e se abraça com uma árvore que ele tem no fundo da casa, porque sente que Deus está na árvore. Não são poucas as pessoas que se confessam “adoradores da natureza”, e que proclamam que a natureza é divina. Também não são poucos os que acham que há identidade entre a alma humana e Deus, e que, no mais profundo de nós, somos todos Deus.
E se admitíssemos isto para testar a ideia? É o que São Tomás, destemidamente, faz. Reconheçamos que, lá pelas tantas, ele perde a paciência com os propositores destas teorias e solta um “stultissime” para Davi de Dinant, mas eu não posso deixar de me alegrar por ver a humanidade de São Tomás, de regra tão contida, aflorar assim. Também, propor que Deus é a matéria-prima é demais. Até para a paciência de um santo!
Admitamos, então, por um momento, com São Tomás, que “parece que Deus faz parte da composição dos outros seres”. E ele recolhe três argumentos para a maneira pela qual alguns defendem que Deus toma parte nos demais entes, ou seja, Deus é parte do mundo. São: 1. Deus é idêntico à existência das coisas, 2. Deus é a própria forma das coisas, e 3. Deus é a matéria-prima.
Pode-se enxergar, na raiz dos três argumentos, sempre a incompreensão da natureza da analogia, quando tratamos de Deus. Nos três casos, existe a tentativa de aplicar univocamente as noções relativas às coisas criadas, quando falamos de Deus. São Tomás terá, quase sempre, paciência para afastar os equívocos…
No primeiro argumento, São Tomás cita Dionísio (ou o pseudo-Dionísio, não vamos entrar nesta discussão agora), que teria afirmado que a divindade, que está acima de todas as coisas, é a própria existência das coisas. Ora, a existência entra na composição de todos os entes. Logo, Deus entra na composição de todos os entes.
No segundo argumento, Ele cita Santo Agostinho, que afirma que “o Verbo de Deus é a própria forma não formada”, isto é, incriada. Mas, como sabemos, todos os entes têm a forma como parte de sua composição. Assim, Deus entra na composição de todos os entes.
No terceiro argumento, Deus é equiparado à matéria-prima. Não quero discutir aqui sobre a noção filosófica, na tradição artistotélico-tomista, de matéria-prima como ente de razão que é pura potência, e portanto não inteligível; eu diria apenas que, se Deus nos é incognoscível por ter luz demais (como vimos São Tomás afirmar em outras passagens), a matéria-prima nos é incognoscível por ser totalmente desprovida de luz. Este argumento faz o seguinte raciocínio: “as coisas que existem e que não diferem entre si são idênticas. Ora, Tanto Deus quanto a matéria-prima existem, e não há nada neles que os distinga – ambos são absolutamente simples. Para que fossem diferentes entre si, deveriam ter aspectos que os diferenciassem. Mas ter aspectos é alguma coisa que foge da simplicidade absoluta, e portanto não pode dar-se nem em Deus, nem na matéria-prima. Ora, como a matéria-prima entra na composição de todos os entes, então o mesmo deve dar-se com Deus, se não há diferença entre eles. Logo, Deus faz parte da composição de todos os seres.
Posta a hipótese inicial, São Tomás traz o argumento sed contra, aquele que nos impede de adotar a saída simples e agarrar a hipótese inicial. E é do próprio (pseudo) Dionísio. Diz ele: “nada pode tocar em Deus, nem há qualquer tipo de comunhão com ele pela mistura de partes”.
São Tomás passa a responder. Ele começa respondendo àqueles que imaginam que Deus é a alma do mundo (anima mundi), que é uma posição que, hoje em dia, atrai a muitos, na esteira da chamada “religiosidade new age”. Os que viam assim encontravam no mundo uma unidade viva, cuja forma (alma) seria o próprio Deus. Neste caso, a existência do mundo deixa de ser contingente, e passa a ser necessária, porque haveria uma identidade entre o mundo e Deus. Isto não é possível, como Tomás já demonstrou na questão 2, quando tratou das cinco vias: nossa experiência com o mundo revela toda a contingência, a derivação, a imperfeição, a potencialidade e o próprio direcionamento do mundo a um fim que não está nele mesmo. As cinco vias são suficientes, portanto, para afastar a possibilidade de que deus seja a alma do mundo, e que portando a existência do mundo coincida com a própria existência de Deus.
Em seguida São Tomás menciona os que defendem que o próprio Deus seria o princípio formal do mundo, que, moldando a matéria, comporia as coisas.
No fim, ele menciona aqueles que, como Davi de Dinant, acreditam que Deus é a matéria-prima que, moldada pelas formas, compõe as criaturas.
Mas São Tomás lembra que, se Deus é causa eficiente da criação, de acordo com a segunda via, então ele não pode ser ao mesmo tempo a própria matéria ou forma da criação; de fato, a causa eficiente é causa extrínseca, ou seja, está fora da coisa causada, como os pais estão fora do filho. Tanto a matéria como a forma das coisas, como componentes dela, são causas intrínsecas – portanto, fazem parte das próprias coisas.
Além disso, como causa eficiente, é próprio de Deus agir na criação. Mas a matéria e a forma, nas coisas, não agem – são antes as próprias coisas que agem. Então Deus não pode entrar na composição das coisas como matéria ou forma.
Além disso, Deus é o primeiro, como mostram as cinco vias. Ora, a matéria não pode ser a primeira, no sentido de fundamento da criação, porque ela é pura potência, ou seja, é passividade pura. A matéria jamais age; ela é agida. A forma, por sua vez, também não pode ser originária, quando faz parte de um composto. (Aqui, São Tomás faz uso da noção de participação, que lhe é tão cara: participar é tomar, de modo particular, algo que em outro é universal. É assim que um ser humano participa do gênero animal – é uma especificação do animal, particularizada pela racionalidade). Ora, se a forma de um composto é a particularização de uma forma universal, então ela não é originária, mas derivada. E, como derivada, tem necessariamente que ser diferente de Deus.
São Tomás passa a responder aos argumentos iniciais. Ao primeiro, que diz que a própria existência dos seres é divina, São Tomás responde que a existência divina é causa exemplar e eficiente da existência das suas criaturas, e que, portanto, é parte da causalidade externa, e não interna, das coisas.
Quanto à forma das coisas, elas não coincidem com Deus: Em Deus está a forma exemplar e perfeita, universal, das coisas, em última instância, da qual as coisas criadas simplesmente participam.
Quanto aos que defendem que não há como diferenciar entre Deus e a matéria-prima, São Tomás lembra que, para as coisas simples, não falamos de diferença, mas de distinção: a diferença supõe um padrão de comparação, algo em que as duas noções possam coincidir e algo em que possam se diferenciar. Ele dá o exemplo de um ser humano e um cavalo: eles coincidem em ser animais, mas diferenciam-se porque o humano possui a característica da racionalidade. Neste caso, pode-se dizer que o humano e o cavalo são diferentes. Mas a própria diferença entre o humano e o cavalo, ou seja, a racionalidade humana e a irracionalidade animal não são diferentes, são simplesmente distintas, diversas. Assim é com Deus e a matéria-prima: Deus não é simplesmente diferente da matéria-prima. Ele é outro que ela, ou seja, é diverso dela.
E eis a aula de São Tomás sobre gnose, panteísmo, materialismo, new age e outras “estultices” do gênero.
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