A simplicidade, num ser, é algo muito difícil de imaginar, porque, como vimos no último texto, nossa inteligência está calibrada para conhecer a partir de seres materiais, e também a nossa imaginação lida com seres assim. Não é possível, para nós, formar imagens de um ser simples. É por isto que São Tomás está caminhando, nesta questão, sempre por exclusão, ou seja, ele toma os tipos de composição que conhecemos conceitualmente e mostra, argumentativamente, como é impossível aplicar estas composições a Deus. Foi assim que ele excluiu de Deus a corporeidade, a composição em matéria e forma, a composição entre essência e existência, a composição em gênero e espécie e a composição entre substância e acidentes. Agora, a pergunta é mais direta: Deus é simples? O que significa isto?
Não temos imagens da simplicidade, nem sequer uma linguagem para lidar com os atributos da simplicidade. Resta-nos partir do que conhecemos para chegar à simplicidade de Deus. E tudo o que conhecemos tem composição de alguma maneira. Por que em Deus seria diferente? Assim, São Tomás começa o artigo logo com a hipótese contrária: parece que Deus não é simples.
São dois os argumentos contra a simplicidade de Deus. No primeiro, partimos dos efeitos criados para tentar tirar conclusões sobre o ser de Deus; tudo o que decorre de um princípio de algum modo tem a semelhança desse mesmo princípio inscrito em si. Do primeiro ser vêm todos os seres, e do primeiro bem, todos os bens. Ora, as coisas que conhecemos vieram de Deus, e todas são compostas. Então Deus também deve ser composto.
O segundo argumento diz o seguinte: devemos atribuir a Deus sempre a maior perfeição (na linha da quarta via, a via da perfeição. Ver os comentários a elas, nos textos anteriores). Ora, para nós, o que é composto é melhor do que o que é simples, porque os seres compostos, como são um todo organizado e com sentido, são melhores que as suas partes e elementos (mesmo as partes simples). Assim, se nos seres criados, o todo (que é composto) é melhor do que as partes e elementos (mesmo as partes e os elementos que eventualmente forem simples são meras partes e elementos, e portanto inferiores ao todo), Deus deve ser composto, e não simples.
Como argumento contrário, São Tomás aduz a autoridade de Santo Agostinho, que declara: Deus é verdadeira e sumamente simples.
Agora, na sua resposta, São Tomás abre sua metralhadora giratória e dispara cinco fundamentos para provar a absoluta simplicidade de Deus. São eles:
1. Já excluímos de Deus, nos artigos anteriores, qualquer composição de partes quantitativas – quer dizer, já ficou bem estabelecido que não se pode tirar pedaços de Deus em nenhuma hipótese. Deus não é corpo, não é forma e matéria, não é um indivíduo (ou um suposto, como diz elegantemente São Tomás) diverso da sua própria natureza, não se enquadra na divisão entre gênero e diferença específica, nem se pode identificar nele um sujeito com seus acidentes. Assim, nenhum modo de composição que conhecemos pode se aplicar a Deus. Este primeiro fundamento é, portanto, um raciocínio por exclusão.
2. Para que alguma coisa seja composta, é preciso que seus componentes sejam prévios ao próprio composto. Ninguém pode, digamos, fazer uma casa senão de tijolos e cimentos que existam antes da própria casa. Mas, como vimos nas cinco vias, aquilo que chamamos de Deus deve necessariamente ser o primeiro de tudo! Logo, ele não pode ter partes, pedaços ou componentes, porque nada pode existir antes dele mesmo.
3. Para que alguma coisa composta exista, não é suficiente que as partes existam; deve haver alguma causa, ou seja, alguém ou alguma coisa que coloque as partes unidas numa determinada ordem para que ela se transforme na coisa que ela deve ser. Eu posso ter um monte de cimento, areia, ferro, madeira, telhas e tijolos; mas enquanto o pedreiro não colocar as mãos à obra para juntar todos estes ingredientes na ordem e proporção certas, eu não terei uma casa. Ocorre que, quando estudamos as cinco vias, nós vimos que Deus é a primeira causa! Portanto, não pode existir uma causa anterior a ele para organizar suas partes; assim, Deus não pode ter partes; logo, Deus é simples.
4. Em todo ser composto há sempre alguma coisa que está como potencialidade para outra. No exemplo analógico da casa – que retrata bem para nós o que é um ser composto), o cimento em pó, por exemplo, está em potência para endurecer ao ser juntado com a água, e os tijolos estão em potência para virar parede. As paredes, por seu turno, estão em potência para receber pintura, e mesmo depois de construída está sempre em potência para ser demolida. Mas nós já vimos, nas cinco vias (especialmente na quarta) que naquele ser que todos chamam de Deus não pode haver potencialidades. Logo, não pode haver composição em Deus.
5. Nas coisas compostas, nenhuma das partes pode ser identificada com o ser todo. Isto é evidente nos seres que são compostos de partes heterogêneas: nenhuma parte de um homem é um homem, como nenhuma parte de um pé é um pé. No caso de coisas feitas de partes homogêneas, algumas das coisas que se diz do todo podem ser ditas também das partes; por exemplo, um pouco da água de um tanque também é água, como um pouco do ar de um cilindro também é ar. No entanto, alguns aspectos do todo não podem ser atribuídos à parte – mesmo neste exemplo da água, um pouco da água de um tanque não pode ter o mesmo volume que toda a água do tanque. Assim, mesmo nas coisas homogêneas, as partes são diferentes do todo, pelo menos quanto à quantidade. Pode-se dizer, portanto, que em todo composto há algo que não é ele mesmo. Mas não seria possível imaginar que Deus tivesse em si, como parte, algo que não é o próprio Deus.
É certo que nós poderíamos dizer de qualquer coisa composta, (ou seja, de qualquer coisa que detivesse uma certa forma) que há sempre algo nela que não é essencialmente ela mesma. São Tomás exemplifica, aqui, com uma coisa branca: há certamente algo, em qualquer coisa branca, que há algo nela que não é o próprio branco (vamos imaginar um cordeirinho branco – há muita coisa nele que não é branco), mas na própria “brancura” da coisa nada há que não seja o próprio branco. Quer dizer, na forma, tomada absolutamente, nada há que não seja a própria forma. São Tomás nos lembra então que Deus é a forma absoluta (ou melhor dizendo, ele é o ser absoluto), e como na forma absoluta de “branco” não pode haver nada que não seja branco, na forma absoluta de Deus não pode haver nada nele que não seja ele mesmo. Deus não pode ser “feito” de nada, ou “composto” de nada. E São Tomás cita Santo Hilário, que diz: “Deus, sendo o próprio poder, não tem em si parte com a fraqueza; sendo a luz, não tem parte com a escuridão.”
Respondendo ao primeiro argumento contrário, aquele que parte da ideia de que, uma vez que as criaturas são compostas, a sua causa (o criador) também deve sê-lo, São Tomás nos mostra que este arrazoado segue apenas em parte a lógica de estudar os efeitos para chegar na causa. O que está em jogo aqui, de fato, é o raciocínio dos efeitos para a causa, mas este argumento quer encontrar na causa características unívocas com relação aos efeitos. No entanto, a relação de Deus com a criação não é unívoca, mas análoga. Todas as vezes, portanto, que utilizarmos um raciocínio do tipo “dos efeitos para a causa” para falar de Deus, não podemos imaginar que encontraremos na causa características unívocas aos efeitos, mas apenas análogas. No caso das criaturas, é evidente que, se foram criadas, elas não têm em si mesmas a razão de sua existência. A própria noção de criação, de ser criado, implica receber a existência de outro, quer dizer, do criador. Mas o criador, por definição, não recebe sua existência de outro, porque senão não seria criador, mas criatura! Então há ao menos uma composição que as criaturas têm e que o criador não pode ter: a composição entre essência e existência. Eis porque não se pode concluir que o fato de que as criaturas são compostas leva validamente a deduzir que há composição em Deus: a própria criaturalidade induz a uma composição que, por definição, não pode existir em Deus. Logo, este argumento não é válido.
O segundo argumento contrário dizia que ser composto representa ser mais perfeito do que ser simples. Mais uma vez, aqui, há uma falha no raciocínio: de fato, os seres compostos são melhores para nós, para a nossa compreensão humana do que os seres simples, mas não se pode confundir o que é melhor para nós com o que é melhor em si mesmo. E São Tomás nos lembra que, nas criaturas, ser composto é ser completo e perfeito, porque ser todo é mais perfeito do que ser apenas parte de alguma coisa. Isto parece muito claro para nós quando se faz uma analogia com coisas fabricadas pelo ser humano: ter uma casa é certamente muito melhor do que ter um monte de cimento, um monte de areia, uma pilha de tijolos, de madeira, etc., simplesmente depositados num terreno qualquer.
No caso de Deus, no entanto, sua perfeição infinita implica uma plenitude que é incompatível com qualquer composição. Quando tratarmos da perfeição de Deus, na questão 4 (que é a próxima questão), isto será aprofundado.
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