Eu sempre me espanto quando leio alguma declaração sobre a filosofia de Kant, de que, ao inverter a prioridade filosófica da conformidade da mente com as coisas para a centralidade do conhecedor por sobre o conhecido, ele está fazendo uma “revolução copernicana” na filosofia. A mim, parece exatamente o contrário. Enquanto Copérnico tirou o ser humano do centro do universo e relegou nossa Terra à condição de apenas mais um dos planetas que orbitam o Sol, diminuindo nossa soberba espiritual, Kant, ao contrário, tirou a centralidade de Deus e a objetividade das coisas para estabelecer a certeza humana no lugar da verdade. Kant diz, no prefácio da 2ª edição da Crítica da Razão Pura:

Até agora se supôs que todo nosso conhecimento tinha que se regular pelos objetos; porém todas as tentativas de mediante conceitos estabelecer algo a priori sobre os mesmos, através do que ampliaria o nosso conhecimento, fracassaram sob esta pressuposição. Por isso tente-se ver uma vez se não progredimos melhor nas tarefas da Metafísica admitindo que os objetos têm que se regular pelo nosso conhecimento, o que concorda melhor com a requerida possibilidade de um conhecimento a priori dos objetos que deve estabelecer algo sobre os mesmos antes de nos serem dados.

Esta é, então, uma verdadeira revolução anticopernicana. Copérnico tirou o ser humano do centro do universo físico, relegando-o a um lugar humilde numa pequena rocha flutuante. Kant, ao contrário, colocou o conhecimento humano como medida das coisas, ou seja, fez da inteligência humana o centro do universo cognoscível.

Nesta questão, São Tomás de Aquino, ao contrário, faz uma diferenciação fundamental entre nossas certezas e a força da evidência da verdade. “Nada impede”, diz São Tomás, “que aquilo que, por sua natureza é mais certo seja menos certo para nós, pela fraqueza do nosso intelecto”! São Tomás cita, então, Aristóteles, que afirma que “nosso intelecto está para as coisas mais evidentes como os olhos da coruja estão para a luz do sol”. Vale dizer: aquilo que é mais evidente em si mesmo pode ser menos evidente para nós, pela fraqueza do nosso intelecto.

O que São Tomás está dizendo aqui me parece ser exatamente o contrário do que Kant disse. Para Kant, é a força do nosso intelecto que serve de medida à certeza que temos sobre os objetos com os quais nos deparamos, e isto é tudo que podemos esperar conhecer da natureza. (mais tarde o idealismo alemão levará ao extremo essa ideia e negará que sequer exista uma natureza para além dos limites da nossa razão). Kant desrespeita a diferença entre coisas e objetos, que já discutimos num texto anterior. O fato é que, para Kant, estabelecer os limites do nosso intelecto é estabelecer o limite das nossas certezas, e o limite das nossas certezas é o limite da nossa realidade. Para Kant, as coisas mesmas são absolutamente opacas, e por isto jamais nós as poderemos conhecer. Conheceremos apenas objetos, que nada mais são do que a regulação da realidade pelas categorias transcendentais da nossa própria mente projetadas nos fenômenos com os quais nos deparamos.

São Tomás, seguindo Aristóteles, parece ser muito mais otimista sobre a abertura da mente humana à realidade. Para São Tomás, conhecemos as coisas, mas de modo sempre limitado, porque as coisas são luminosas demais para o nosso intelecto limitado. Onde Kant decreta os limites do intelecto humano para conhecer um mundo no qual falta a luz, São Tomás felicita um mundo no qual a luz é intensa demais para ser esgotada por nossos olhos fraquinhos. Se alguém soa copernicano para mim, é São Tomás, não Kant. Se alguém celebra um humanismo confiante, este é Tomás, não Kant.

Partindo, pois, do princípio aristotélico-tomista de que a realidade é muito mais luminosa do que nossos olhos humanos jamais poderiam esgotar, São Tomás estabelece que a luz da Revelação, sendo produzida pelo próprio Autor da criação, pode nos entregar princípios muito mais certos do que aqueles que poderíamos descobrir através da força natural do nosso olhar. Assim, Tomás estabelece que a teologia revelada sobrepassa em dignidade as ciências lastreadas apenas em princípios humanamente cognoscíveis. Lembrando que a doutrina sagrada envolve a dimensão especulativa e a dimensão prática, ela supera as ciências especulativas em duas dimensões: 1. Pela certeza dos princípios – que não são descobertos, como nas ciências naturais e humanas, por um intelecto limitado, mas são fornecidos por um intelecto infinitamente superior, que por definição está imune ao erro, e 2. Pela nobreza do assunto, porque ela versa sobre aquilo que, por exceder em luminosidade, ultrapassa tudo aquilo que pode ser atingido pela razão humana fraquinha.

Quanto às ciências práticas naturais e humanas, São Tomás estabelece entre elas uma hierarquia em conformidade com o seu fim: aquelas que têm o fim em si mesmas são mais elevadas do que aquelas que têm em outra o seu fim. Assim, a ciência da estratégia militar é subordinada à ciência política, porque o bem do exército está subordinado ao bem do Estado. Ora, uma vez que o fim prático da sagrada doutrina é a felicidade eterna do ser humano, na sua salvação, que é um fim que supera todos os outros fins humanos, ela subordina todas as outras e não se subordina a nenhuma – pelo que é, sem dúvida, a mais elevada das ciências práticas.

É assim que São Tomás responde ao primeiro argumento contrário, aquele que dizia que a doutrina sagrada é menos certa por partir de princípios sujeitos à dúvida de algumas pessoas. De uma maneira frontalmente antikantiana, São Tomás afirma que a dúvida de fé não decorre da incerteza do assunto, mas da fraqueza do intelecto humano. Mas celebra a possibilidade de obtermos, por dom de Deus, qualquer conhecimento, ainda que mínimo, das coisas divinas – e mesmo o conhecimento criatural sob o olhar de Deus. Citando Aristóteles, ele lembra que “o mínimo conhecimento que pudermos adquirir das coisas altíssimas é mais desejável que o conhecimento certíssimo das coisas mínimas”. Fazendo uma má analogia, diríamos que São Tomás prefere ser o rabo da baleia. Kant opta pela cabeça do bagrinho. E considere-se que a diferença entre o intelecto divino e o intelecto humano ultrapassa infinitamente a desproporção entre a baleia e o bagrinho.

Respondendo à última objeção, São Tomás diz que a Teologia revelada de fato recebe auxílio das ciências humanas e naturais, mas não recebe delas os princípios. Os princípios da sagrada doutrina vêm de Deus, por imediata revelação. E este uso que a sagrada doutrina faz das outras ciências não se dá por defeito ou imperfeição da teologia, mas por imperfeição do nosso entendimento, que precisa conhecer primeiro as coisas menos elevadas – que, por serem menos luminosas em si mesmas, são mais evidentes para nós – para, a partir daí, conhecer as mais elevadas. Dadas, portanto, as limitações do nosso intelecto, as coisas que são mais evidentes em si mesmas, por serem mais luminosas em cognoscibilidade, são menos evidentes para os nossos olhos fraquinhos. Enquanto as coisas que são menos evidentes em si mesmas são mais evidentes para nós, porque não nos ofuscam. Precisamos, então, por limitação nossa, do auxílio das ciências inferiores para alcançar a ciência superior, muito mais evidente em si mesma, mas por isto mesmo muito menos evidentes para nós.

As posições filosóficas de Kant causaram um outro efeito colateral muito forte na contemporaneidade. Enquanto um professor magistral como São Tomás é capaz de ouvir, admitir e sopesar todos os argumentos contrários e favoráveis à sua hipótese inicial, os professores do nosso triste século XXI simplesmente empurram sua própria ideologia aos alunos, pelo estabelecimento de uma uniformidade acadêmica baseada na classificação da discordância como “fobia” e “discurso de ódio”. São Tomás, com sua coragem no debate, parece muito mais aberto do que muitos professores universitários contemporâneos. Por isto é que eu não deixo de me entristecer quando eu vejo alguém classificar qualquer intolerância contemporânea como uma “postura medieval”. Lendo a Suma Teológica, eu tenho a sensação exatamente contrária.

Resta uma questão: mesmo admitindo que o intelecto de Deus, por definição, é muito mais poderoso que o nosso, e que uma verdade revelada por ele seria, então, muito mais certa do que qualquer certeza que pudéssemos atingir por nossas próprias forças, como poderíamos estar seguros de que Deus existe e, além disso, de que determinada Revelação vem mesmo dele? Não é exatamente a proliferação de religiões, profetas, revelações e visões sobrenaturais que nos convidam a descartar tudo o que vem embalado como “revelação divina” e dar como certo apenas aquilo que descobrimos e comprovamos por nós mesmos? São Tomás não vai correr desta discussão. E o modo como a enfrenta é simplesmente magistral. Mas, se a Suma Teológica é como uma grande catedral e a ser pacientemente visitada, eu, como turista acidental que sou, não posso querer apressar as coisas. Estamos contemplando apenas as folhas da porta de entrada. Haverá tempo para as maravilhas do interior!