Na primeira parte desta reflexão, nós abordamos a hipótese levantada por São Tomás neste primeiro artigo da primeira questão da primeira parte da Suma (vixe, é muito primeiro…). Ali, vimos que ele sempre inicia por uma hipótese que desafia a posição que, segundo nos parece, ele deveria defender. Neste caso, a hipótese de São Tomás é a de que “parece que não é necessária outra doutrina além das disciplinas filosóficas”. Se isto é verdade, então seria melhor nem se dar ao trabalho de escrever uma “Suma Teológica”…

Vimos ainda que ele aduz dois fundamentos para esta hipótese, um de base bíblica (Eclesiástico, 3, 22: “não procures investigar aquilo que vai além de tua capacidade”), e outro de base filosófica: uma vez que há uma reflexão filosófica sobre Deus, que se dá nos limites da razão humana, a Revelação divina seria desnecessária e, por isto, dispensável.

No argumento sed contra, Tomás diz que as próprias Escrituras atestam a necessidade da Revelação, quando afirmam que (2Tim 3, 16) “Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para instruir, para refutar, para corrigir, para instruir na justiça”.

São Tomás passa, então, a dar sua própria resposta sobre o tema, dizendo que há dois motivos pelos quais é razoável defender a necessidade – e até a indispensabilidade – da Revelação, ou seja, a imprescindibilidade de que os seres humanos sejam confrontados com verdades que ultrapassam a capacidade natural de conhecimento humano, e reflitam racional e metodicamente sobre tais verdades. O primeiro motivo é a salvação.

A salvação, diz São Tomás, é a ordenação do ser humano a um fim que excede a sua própria compreensão racional natural. Eu não posso deixar de registrar aqui que a razão humana tem a capacidade de perceber sua especificidade: é o instrumento de conhecimento de um ser material capaz de relacionar-se com a realidade e de refletir sobre ela. Não parecem haver outros seres assim, ou, ao menos, outros seres assim não foram ainda descobertos por nós. Somos seres que conhecem e refletem sobre o próprio conhecimento. Isto traz uma consequência peculiar: somos os únicos seres capazes de saber de antemão, pela simples reflexão, que inevitavelmente morreremos. E esta morte é pessoal, individual, irremediável e imprevisível. Nenhum esforço, pessoal ou coletivo, impedirá que cada um de nós morra. Nenhum esforço humano impedirá a aniquilação de cada um, e nem placas, nem títulos, nem cargos, nem fortuna nem honrarias impedirão esta extinção pressentida e sabida. Se há salvação, portanto, ela virá de alguma fonte que está além da possibilidade de reflexão ou alcance humano. O que não significa que ela não possa existir. O certo é que seria de se esperar, se ela existir, que ela ultrapasse a capacidade dos esforços estritamente humanos.

Fechar-se de antemão à possibilidade de que tal fonte exista e possa revelar-se é desistir da possibilidade de salvação, de antemão. Uma sobrevivência impessoal, social, coletiva, honorífica ou memorial não diminui o anseio pela salvação estritamente pessoal, que implique a possibilidade de resgate à aniquilação completa pela morte. Resta ao ser humano, portanto, optar: é razoável pressupor de antemão que não existe sequer a possibilidade de uma fonte de salvação assim?

Ora, uma vez que mesmo a realidade palpável é uma fonte inesgotável de interpelações surpreendentes e insuspeitas à inteligência humana, nada há nesta própria realidade – ou na inteligência humana – que permita concluir que a realidade palpável seja a única fonte possível de interpelações. E mais: devemos admitir que uma investigação criteriosa na própria estrutura do real mostra que a natureza sempre aponta para além de si mesma. Ela sempre aponta para um fim, que a inteligência humana pode estimar, mas que empiricamente muitas vezes ainda não está dado. Vou exemplificar para tornar mais claro.

Vamos tomar uma simples semente de feijão. Quando a contemplo, posso perfeitamente afirmar que ela é a semente desta ou daquela planta, embora a planta que a semente pode vir a ser ainda não exista empiricamente – e possa, inclusive, jamais vir a existir. Com relação a esta semente aqui, ela aponta para um pé de feijão que ainda não existe empiricamente, mas que a minha inteligência consegue discernir como potencialmente existente, na qualidade de fim. Se o meu fim é obter pés de milho, eu jamais vou consegui-los se tentar plantar sementes de feijão.

Deste modo, a inteligência humana pode perfeitamente distinguir que as coisas particulares apontam para fins que, de certo modo, estão além de si mesmas. E que a sua própria natureza pessoal incompleta – assim como a natureza incompleta do cosmos todo – podem muito razoavelmente ser compreendidas como apontando para fins que estão além de si mesmas. E é portanto igualmente razoável admitir que este fim, que ultrapassa a capacidade de nós mesmos, possa nos interpelar para que o alcancemos, através de meios e forças que nos ultrapassam. É a esta interpelação que podemos, acredito, chamar de “Revelação”, no contexto desta conversa com São Tomás. Fechar-se a ela significa estabelecer, de modo não razoável, gratuito mesmo, o desespero como única dimensão final para a inteligência humana. Nos tempos que correm, há um certo charme romântico em aderir ao desespero, mas não há nenhuma razoabilidade em fazê-lo. Há, apenas, uma cegueira deliberada da razão que alguns confundem com uma razoabilidade esclarecida e superior. Não é. Este tema ainda será aprofundado nas questões posteriores da Suma.

Mas São Tomás aduz outra razão para que a Revelação, com o seu desvendar de verdades salvíficas, seja necessária e mesmo imprescindível ao ser humano. É inegável que nem tudo o que está contido na Revelação é inacessível à reflexão humana pura e simples. Muitas culturas e muitos filósofos, sem conhecer nenhum livro sagrado, fizeram observações e reflexões muito acertadas sobre Deus e sobre a relação do ser humano com ele. E por que, então, a revelação de Deus precisaria conter coisas que, por si mesmas, não são inatingíveis pela inteligência humana sozinha?

São Tomás nos explica, então, que a inteligência humana, quando se depara com estas questões existenciais mais profundas, tem dificuldades imensas para atingi-las, mesmo naquilo que, por si mesmo, não é inatingível para a nossa mente. É que poucos de nós têm o tempo e a capacidade intelectual para uma reflexão filosófica profunda sobre Deus, e esta reflexão, mesmo quando feita por quem dispõe de tempo, capacidade e meios, não está isenta de erros, como o demonstram as filosofias mais estapafúrdias que já foram pensadas através da história. A salvação seria, então, reservada a uma elite de intelectuais e filósofos, difícil e sujeita a erros e contradições, e inacessível ao comum dos mortais. Eis porque, segundo São Tomás, é necessário que, na Revelação, haja a entrega de verdades que por si mesmas não são inacessíveis à razão humana, mas que, por serem essenciais à salvação, devem estar acessíveis a todos, não somente à elite dos estudiosos e privilegiados.

Respondendo agora aos fundamentos aduzidos em apoio à hipótese inicial – que se mostrou incorreta, São Tomás, ao responder à primeira delas, volta ao Livro do Eclesiástico e esclarece: de fato, embora não se possa investigar com a razão humana aquilo que por si mesmo a ultrapassa (e neste aspecto a citação feita anteriormente está certa), lembra que o próprio Livro do Eclesiástico, capítulo 3, versículo 25, afirma que “muitas coisas [nos] foram mostradas que excedem o entendimento humano”, e exatamente nisto consiste a Revelação. Eu não resisto a fazer uma digressão: a Revelação, de fato, excede o entendimento humano, mas jamais o contradiz ou viola.

Quanto à ideia de que a existência de uma reflexão filosófica sobre Deus tornaria desnecessária a revelação, São Tomás nos lembra que o fato de que uma determinada ciência se debruce sobre um objeto, isto não impede que outra ciência, com métodos e abordagens diferentes, incida sobre o mesmo objeto. E ele diz: tanto um astrônomo como um físico teórico podem descobrir que a terra é redonda por meios diferentes; o astrônomo por observação, o físico por cálculos matemáticos. Mas o valor da ciência de um não exclui o valor da ciência do outro.

Duas observações: não deixa de ser interessante ver São Tomás registrar que os cientistas e pesquisadores do seu tempo tinham perfeita noção de que a terra é redonda – isto em pleno século XIII, desmentindo frontalmente certas lendas que dizem que na idade média as pessoas achavam que a terra era chata. Segunda observação: é muito bonito ver São Tomás responder às objeções de forma serena, elegante, levando-as em conta mesmo quando discorda delas. E assim chegamos ao fim do primeiro artigo da Suma, gastando dois textos longos para comentar, sem chegar nem perto de arranhar a superfície, o que ele precisou de cinco parágrafos para escrever.